Capítulo 12: Bagagem

1955 Words
Um pouco mais cedo, Andrew e Kate saíram daquela praia bastante reflexivos, porém sorridentes. Estavam aproveitando verdadeiramente o momento, como deveria ser. E olha que era uma coisa difícil para Kate, curtir aqueles minutos e horas do dia sem se preocupar. Talvez a vida tenha lhe preparado constantemente para estar sempre atenta às mudanças e, por isso, ela não conseguia curtir tanto quanto poderia. Enquanto Kate estava no banho, Andrew fez algumas ligações e providenciou um jantar romântico, a luz do luar em uma das belíssimas praias de Miami, com direito a flores, velas e uma pequena tenda pra que pudessem ficar a sós. Com tudo acertado, ele tomou um banho demorado, após a saída da esposa. Fez questão de ficar um tempo a mais para que tudo ficasse pronto e impecável na hora certa. — Devo usar algo leve, florido ou algo casual, senhor Andrew? Sorrindo enquanto ajeitava a gola do seu paletó, ele respondeu: — Não sei. O importante é no fim da noite você estar completamente nua. — Andrew! — O quê? Vou mentir já que é o meu maior desejo? — Não, mas também poderia ser menos direto. Sabe que ainda estou me acostumando a ter vontade dessas coisas de novo. Ele se virou pra ela, que estava com os braços cruzados, ainda usando um roupão. — Eu sei que vão ser tempos difíceis, mas acredito que o pior já passou. Andrew se aproximou e segurou seu rosto com delicadeza. — Quero fazer você a mulher mais feliz do mundo, Kate. Apenas permita isso e eu cuido do resto. — Você é bom com as palavras, Andrew. Vamos ver se consegue cumprir suas promessas. — Eu não costumo falhar. Mas falando da roupa, realmente não importa. Apenas use algo confortável. Não é como se eu fosse te pedir em casamento ou algo do tipo. Comentou com um sorriso de canto, se virando novamente para o espelho. Kate abriu a boca como se estivesse prestes a dizer algo, mas ao invés disso, ela pegou um travesseiro e arremessou na direção de Andrew. Ele se abaixou e riu. — Está dizendo isso porque tecnicamente já somos casados. — Garota esperta. Andrew caminhou até Kate e a tomou em seus braços, distribuindo beijos por seu pescoço e rosto. — Andrew, deixa eu me arrumar ou vamos atrasar. — Mas é por uma boa causa. Disse ele entre beijos no pescoço e no ombro, que ele deixou desnudo ao puxar um pouco do roupão para o lado. Kate estava sentindo suas pernas formigarem com aquele contato e a proximidade de seus corpos, mas ela não queria ir rápido demais, novamente. Por melhor que tivesse sido o momento deles, preferia estar preparada psicologicamente, pois ainda era estranho demais fazer aquelas coisas com outra pessoa. — Andrew... Não, por favor. Ele parou os beijos e a encarou. Podia sentir que seu corpo queria, mas Kate ainda estava se acostumando àquela vida e ele tinha de respeitar isso. — Tudo bem, desculpe por forçar a barra. Eu vou me controlar mais, prometo. Ela puxou a lateral do roupão e o encarou, como se estivesse desconfortável. Não com a situação em si, mas a forma como ele lidou. — Não precisa se desculpar, fica estranho quando faz isso. — Ah, desculpa. Não vou fazer isso de novo, desculpa mesmo. Ele deu um passo pra trás, coçando a cabeça. Kate o alertou, calmamente. — Andrew, está fazendo de novo. — Arg, que droga. Eu... Ela deu um passo a frente e pôs a mão em seu rosto, delicadamente. — Vamos fazer assim, você termina de se arrumar e desce, eu vou logo em seguida e esquecemos isso tudo, pode ser? Andrew deu um sorriso e acenou com a cabeça, ao responder: — Sim, por favor. Ela deu um beijo leve em sua bochecha e foi em direção ao closet. Ele respirou fundo e fechou os olhos por um instante. Não queria magoá-la ou perdê-la de qualquer forma, mas se ficasse paranoico, com medo o tempo todo e agindo como se estivesse lidando com uma pessoa de vidro, jamais conseguiriam seguir realmente em frente. E aí sim, a perderia. Tinha total consciência disso. Mas as vezes era inevitável não agir com tanta cautela. Seguindo a ideia de Kate, ele terminou de se arrumar e desceu até o saguão, onde aguardou por ela. Não demorou quase nada e Kate chegou, usando um vestido básico de cetim azul tiffany, com alças finas. A sandália era simples, preta e rasteira, já que andariam pelas areias de Miami. Os olhos do ex Mafioso brilharam e conforme ela se aproximava, Andrew sorria ainda mais. — Então, vamos? — Antes, eu preciso dizer. Se não fossemos casados, eu pediria sua mão agora mesmo. — Deixa de ser bobo. Ela entrelaçou o braço no dele, segurando uma pequena bolsa preta pequena. Ele caminhou com Kate ao seu lado, sorridente, ignorando completamente os olhares que ambos atraiam das pessoas em volta. Alguns minutos depois, chegaram a praia. Andrew implorou para que Kate usasse uma venda em seus olhos e a fez colocar assim que o veículo parou. Ela saiu do carro segurando a mão dele com bastante força. — Juro, essa vai ser a primeira e única vez que faço isso, Andrew. — Vai valer a pena, eu prometo. Ele a segurou pela cintura e foi caminhando vagarosamente pela praia. Alguns metros depois e ambos pararam. Andrew a deixou sozinha enquanto acendia as velas que estavam apagadas por conta do vento. Depois retornou para Kate, finalmente pronto para revelar sua surpresa. — Está pronta? — Tire logo isso de mim. Ele deu uma pequena risada e a ajudou a tirar a venda dos olhos. Quando Kate abriu as pálpebras, era como se estivesse vivendo um sonho que jamais tinha imaginado. Havia uma mesa a poucos passos, com algumas velas acesas, pétalas de rosas vermelhas e brancas. Na cadeira havia ramos de flores entornando cada parte de madeira. E a dois metros de distância da mesa, uma tenda cuidadosamente bem colocada. Kate foi dando alguns passos a frente, com a boca aberta, sem dizer uma única palavra. Andrew já tremia de ansiedade e medo, mas podia ver pelos olhos dela, que brilhavam, que tinha acertado na surpresa. Dentro da tenda havia travesseiros, velas aromatizadas, uma bandeja de frutas e um balde com gelo, vinho e champanhe. — Diz alguma coisa, Kate. Está me matando. — Eu... O celular de Kate tocou. Ela não queria atender. Não pretendia. Estava chocada e maravilhada com o que seus olhos estavam vendo. Além de tudo, encantada com a ideia e com o cuidado que Andrew teve ao pensar naquilo. Ela sabia que ele não tinha preparado pessoalmente, por não ter tido tempo, mas provavelmente detalhou cada coisa que estava ali, do jeito que estava. Ela deu um suspiro e estava preparada pra desligar, mas viu que a ligação era de Jude. Sua colega poderia estar precisando dela. A agente sabia que Kate precisava muito daquele tempo sozinha, longe de trabalho, responsabilidades e tudo o mais que a envolvesse, então não faria aquela ligação à toa. — Você não vai atender, não é? — Eu preciso. A contragosto, ela atendeu. Andrew respirou fundo e ficou inquieto, ouvindo tudo. Não estava nem um pouco satisfeito com as respostas de Kate. Na verdade, não gostou nem um pouco dela ter atendido ao telefone. O que poderia ser mais importante do aquele momento que estavam vivendo? Ela precisava se desconectar. Sair daquele ambiente tóxico e respirar ar puro de verdade. Longe de toda aquela áurea de dor, sofrimento e angústia que estava a rodeando. Mas Andrew começava a pensar que, talvez ela gostasse daquilo tudo, ou simplesmente não se importava consigo o suficiente para ignorar o que estava a matando. Pouco depois, ela desligou, com uma expressão que deixou Andrew mais nervoso do que com a surpresa. — E então? O que ela queria? Indagou, apreensivo. Kate sabia que sua decisão poderia deixar Andrew chateado, mas esperava que ele pudesse compreender. — Pediu pra eu voltar imediatamente. — Mas você disse não, é claro. Não foi, Kate? Ela abaixou a cabeça, antes de suspirar e balbuciar. — Andrew, você não entende... Ele balançou a cabeça, furioso, antes de esbravejar. — Ah, não acredito! Você queria tanto essas férias e agora que tem, vai embora apenas porque sua colega pediu? — Não é bem assim. — Mas é claro que é. E na verdade ela nem é sua colega. Que eu saiba, você não é do FBI. — É o meu trabalho, Andrew. E Jude e eu criamos um laço de amizade, ela sabe o quão essa viagem é importante pra mim e se pediu que eu voltasse antes da hora, é porque alguma coisa grave está acontecendo. Andrew passou a mão pelo rosto, respirando fundo, inconformado. Como ela poderia ter aceitado sem nem mesmo considerar a opinião dele? Depois de tudo que fez? — Ela nem mesmo se deu ao trabalho de dizer o motivo dessa urgência, não é? E mesmo assim, você vai voar de volta pra lá. — Não vou ficar aqui discutindo isso. Eu não irei voltar atrás na minha decisão. — Mas eu preparei uma coisa linda pra nós. Pra você, Kate. Disse, melancólico, como se fosse um animal abandonado. Kate valorizava o esforço de Andrew. E estava encantada com toda a produção. Mas não era apenas o pedido de Jude, não era somente por ser do trabalho, era a sua voz. Algo estava muito diferente nela. Kate m*l reconheceu a voz dela quando pronunciou a última frase e ela sentia que precisava ir. Independente do seu desejo de viver aquele momento com Andrew, seu dever sempre gritaria mais alto. Partia seu coração deixá-lo ali, mas mesmo que decidisse ficar, jamais conseguiria ficar em paz e ter uma noite plena e feliz. Seu coração e sua mente não estariam ali. — Então é minha vez de pedir desculpas. Isso está lindo, Andrew. Nem se tivesse mais cem anos de existência poderia imaginar uma viagem tão maravilhosa e eu agradeço muito pelo seu esforço, mas alguma coisa aconteceu e eu preciso estar lá pra ajudar. Se você não entende isso, tudo que estamos fazendo aqui foi à toa. — Kate... — Não precisa ir comigo. Pode ficar e aproveitar Miami, se quiser. Mas eu tenho trabalho a fazer. Kate segurou a barra do vestido e foi caminhando de volta até a calçada. Andrew ficou lá, parado, sem saber o que fazer ou dizer. Devia ir atrás dela? Pedir mais que ficasse? Ou acompanhá-la? Estava chateado. Tinha se esforçado pra noite de ambos ser perfeita. Mas parecia que aquele tipo de coisa era muito difícil de se ter com Kate Williams. E por mais difícil que fosse, teria que entender que o trabalho era uma das coisas mais importantes pra ela. Talvez a única coisa que tenha sobrado dela mesma e que jamais mudaria. Se ele fosse mais a fundo, devia se lembrar que Lucas sabia que ela precisaria se envolver com ele, ainda que com o intuito de conseguir informações, de se infiltrar na família Cardenas. Não podia esquecer que eles se beijaram, e ela estava noiva dele. O homem sabia de tudo e aceitou, porque fazia parte do trabalho dela. Não era quem a Kate era, não era seu coração ali, pelo menos não fazia parte do plano. Mas Lucas precisou aceitar, porque a amava daquela forma. Com os problemas no trabalho, com a personalidade forte e irredutível, com os traumas do passado. Ele a amava com toda a bagagem. Porém Andrew não tinha certeza se teria a mesma força e capacidade dele. No entanto, estava disposto a permanecer ao seu lado pra saber.
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