Quando ele começou a correr atrás dela, era um pouco tarde. Kate tinha entrado em um taxi e ido embora. Ele então entrou no carro e foi para o hotel, torcendo pra ela ter ido diretamente pra lá.
Kate deixou uma lágrima ou outra cair no caminho. Estava triste pelas coisas terem ficado daquela forma com Andrew, tão m*l resolvidas e abruptas. Mas a angústia em seu peito era maior pela necessidade da urgência de Jude. Alguma coisa de muito estranha estava acontecendo pra ela não querer falar disso ao telefone e exigir sua presença no departamento.
Ela se perguntou várias vezes se fazia a coisa certa. Se devia mesmo ir e abandonar tudo, os momentos maravilhosos que teve e que ainda teria. Mas sua intuição gritava que ela estava agindo como deveria e ela não costumava falhar.
Quando chegou no quarto do hotel, ela juntou todas as suas coisas e comprou uma passagem para o início da manhã, que seria o próximo voo pra Nova York.
Assim que juntou todas as malas em um canto, Andrew abriu a porta do quarto, um pouco ofegante.
— Ah, graças a Deus ainda está aqui.
— Eu preciso dormir um pouco, então se quiser falar algo perturbador, deixa pra amanhã de manhã. Esse assunto já está me fazendo perder o sono.
— Não, só quero que saiba que irei com você e que estarei ao seu lado, seja o que for.
Kate deu um pequeno sorriso, mas ainda não querendo dar o braço a torcer, respondeu calmamente.
— Tecnicamente você ainda é um prisioneiro, então não pode ficar colado comigo por vários dias lá, sabe.
— Eu sei, mas você entendeu o que eu quis dizer.
Ele cruzou os braços, esquecendo completamente o detalhe de estar em umas "férias" antes de se tornar prisioneiro domiciliar por um ano inteiro.
— Não, não entendi.
Foi a vez de Kate cruzar os braços, enquanto via Andrew se contorcer para explicar exatamente o que precisava.
— Ah, tudo bem, vai me fazer falar. Olha, acontece que você é uma mulher independente, forte e que tem seu direito de fazer suas escolhas. Eu não deveria ter ficado tão chateado por conta da surpresa, mas eu queria muito que você se divertisse e pudesse ter uma vida...
— Normal?
— É, exatamente isso.
Ela respirou fundo e se aproximou dele, segurando suas mãos.
— Andrew, eu escolhi ser policial, ser investigadora. Eu soube que minha vida não teria nada de normal duas vezes ao longo dos meus quase 30 anos. No momento em que fui adotada por aquela família doida que me largou e quando decidi ser policial. Proteger as pessoas é o meu dever, é quem eu sou. Eu não falo muito disso, eu sei, mas eu amo o que faço e, apesar de ter magoado algumas pessoas no caminho, o fim, nesse caso, justifica os meios.
— Desculpa por não entender isso antes.
Ele abaixou a cabeça, dessa vez como um animal acoado que sabe de seu erro e apenas deseja repará-lo, sem saber como.
Kate apenas passou a mão pelo rosto dele novamente, enquanto deixava as coisas mais claras.
Não era um pedido qualquer. De alguém qualquer. Se fosse do Bryan, ela o mandaria catar coquinho na praia.
— Está tudo bem. Além de tudo, precisa saber que se fosse qualquer outra pessoa no trabalho, eu não estaria aqui agora, nesse quarto tendo essa conversa. Mas a Jude acompanhou meu sofrimento. Esteve comigo quando eu recebi a notícia do Lucas e do Nick e se tornou uma grande amiga. Ela sabe que eu preciso disso. E se me chamou de volta, é porque eu tenho que estar lá, seja qual for o motivo.
Andrew não disse mais nada. Não tinha o que dizer. Apenas a abraçou bem forte.
Ele estava tão chateado por precisar ficar longe e pela noite estragada, que ignorou completamente a sensação estranha que habitava seu peito. Alguma coisa tentava lhe dizer que depois daquele dia, nada entre eles seria como antes, mas quem disse que Andrew sequer escutava?
Ele ficou ignorando aquilo o restante da noite. Arrumou suas coisas, comprou sua passagem pela Internet também e pediu um jantar para ambos, no hotel mesmo. Obviamente Kate preferia estar comendo uvas a beira do mar, com o vento batendo forte e a brisa refrescante invadindo sua tenda ao amanhecer. Mas as responsabilidades sempre as seguiria, pra onde ela fosse.
Ela havia avisado por mensagem a Jude, que não conseguiu nenhum voo antes e que chegaria cedo pela manhã.
Àquela altura, Lucas estava adormecido em um dos sofás. Jude até tentou acordá-lo e chamá-lo pra dormir em algum outro local, mas ele apenas resmungou que o deixasse lá e continuou dormindo.
Bryan questionou Jude sobre a chegada de Kate, que informou o horário. Ainda era madrugada e ele prometeu estar ali bem cedo, para apoiá-la.
Jude também acabou dormindo em um dos sofás. Não queria ir pra casa pra não perdê-lo de vista. Se isso acontecesse, Kate a mataria com suas próprias mãos, pelo tamanho do ódio.
O sol brilhou nas cortinas do Departamento da Narcóticos. Alguns poucos agentes chegavam bem cedo e viam Jude torta de um lado e Lucas completamente imóvel em outro sofá. Alguns policiais estavam de plantão em suas mesas, mas volta e meia saiam pra pegar uma xícara de café ou chá. A agente do FBI sempre em uma posição, enquanto Lucas não se mexera desde que havia deitado.
Kate estava com o coração batendo forte, quando o avião pousou em Nova York.
Não esperava ver aquela cidade bela tão cedo. Ainda desejava ficar alguns dias respirando outros ares, antes de retornar àquele. No entanto, seus planos não eram condizentes com quem quer que estivesse fazendo os planos do universo.
Andrew veio dormindo a maior parte da viagem e gostou, pois chegou mais disposto.
Eles pegaram um táxi até o prédio do Departamento, onde Kate desceu e ele seguiu. Andrew combinou de passar na casa de Kayla para deixar suas coisas e também as de Kate, e depois retornaria para o prédio. Não sabia como as coisas ficariam referentes a sua prisão, com sua volta precoce, então preferia que Kate ajustasse aqueles detalhes com seu chefe primeiro.
Com a ansiedade a deixando cada vez mais trêmula, Kate entrou no prédio. Usando uma calça jeans e uma blusa simples, preta, ela se identificou no saguão, com o distintivo, e foi. Por hábito, pegou sua arma na sala onde tinha deixado guardada e seguiu até o elevador.
Era pouco depois das 9h. Jude a aguardava, igualmente ansiosa.
No caminho até seu andar, Kate percebeu alguns olhares estranhos, mas devido a sua fama recente pelo caso, não achou incomum.
De braços cruzados e batendo a perna, ela olhou para o número do elevador que ia aumentando conforme passava nos andares. Para sua sorte, ninguém tinha entrado com ela. Ainda assim, o tempo parecia tirar proveito de cada segundo de angústia e curiosidade.
Ela precisava saber porque Jude tinha feito aquele pedido. O que devia ser tão importante, o que a esperava por de trás daquelas portas duplas, que a fez enfrentar um voo de quase 3h tão cedo, saindo da viagem dos seus sonhos, com um homem tão incrível. Ela estava preparada para matar Jude se não fosse um caso tão extremo. Pelo menos, ela faria mentalmente.
O elevador finalmente parou. Seu coração parecia ter o acompanhado, pois ela m*l sentia a própria pulsação. O estômago se revirava em uma ansiedade que ela não se lembrava de ter sentido. O mais perto que chegou daquilo antes foi quando Lucas e Nick tinham desaparecido, minutos antes de saber que havia os perdido para sempre.
A essa hora, Jude e Lucas haviam ido e voltado da copa, tomado pelo menos três xícaras de café e comido metade dos cereais oferecidos pelo Departamento. De cara limpa, ambos esperavam a chegada de Kate, que poderia ser a qualquer momento.
Quando ela passou pelo saguão, uma das secretárias informou, e Jude pediu que ele esperasse na sala de Bryan.
Sentado, tremendo e ansioso, Lucas tentou ficar. Mas a cada meio segundo ele levantava, andava e sentava de novo. Não conseguia controlar seus movimentos, assim como o suor que transparecia em seu corpo. Ele m*l conseguia respirar de tão fraco que estava. Parecia que sua cabeça ia explodir e seu coração sair literalmente pela boca.
Quando as portas do elevador se abriram, Jude estava lá, com o peito arfando.
— Oi.
— Oi. O que aconteceu? Você está bem?
Elas se abraçaram, por um breve momento.
— Sim, considerando as circunstâncias.
— O Bryan está bem? Alguém fugiu? Ou morreu?
Jude deu um pequeno sorriso de canto, contido.
— Na verdade, ao contrário. Venha comigo.
A agente do FBI puxou a colega, em direção a sala de Bryan. O delegado chegou segundos depois e avistou quando as duas caminhavam até sua sala. Provavelmente lá era onde tudo aconteceria.
— Jude, você está me assustando. O que está acontecendo?
As persianas estavam fechadas, então quem estava do lado de fora, não via nada lá dentro, assim como ao contrário.
Jude então parou em frente a sala do delegado e segurou as mãos de Kate. Ela respirou muito fundo e encarou a colega nos olhos.
— Eu não sei como dizer isso. Não tem nenhum treinamento no mundo que prepare alguém pra uma situação como essa. Mas eu achei melhor não dizer isso por telefone, ainda que não importe como eu faça, vai ser assustador e intenso do mesmo jeito.
— Fala o que é Jude, você está me matando!
Jude deu uma última respirada, como se precisasse puxar todo o fôlego do mundo pra conseguir dar aquela notícia.
— Katharina Williams, o seu noivo está vivo.
Kate soltou as mãos de Jude, com o coração parado. Todo seu corpo estremeceu e era como se seus órgãos parassem de funcionar, seu cérebro ficasse sem oxigênio e o sangue não circulava mais até o coração.
Uma voz fina e baixa foi o que saiu pra perguntar.
— O quê?
— O Lucas está vivo.
Kate piscou rapidamente, colocou a mão na cabeça e a balançou, achando aquela ideia absurda.
— Que merda você está falando? Isso é algum tipo de brincadeira i****a? Porque não tem a menor graça!
— Veja por você mesma.
Os olhos de Kate se encheram de lágrimas. Seu peito se afundou novamente em um mar de dor tão forte que ela m*l conseguia se manter de pé.
Com as mãos no rosto, ela balançou a cabeça e sussurrou, incrédula.
— Jude... Não pode ser.
— Confie em mim e abra a porta.
Kate olhou pra maçaneta, como se não quisesse acreditar. Ela não queria abrir e não ver ninguém lá, ou encontrar qualquer outra pessoa. Se ele não estivesse lá, se tudo fosse uma brincadeira, ela não iria se recompor.
Sem querer esperar mais, ela colocou a mão na maçaneta e a girou.
Do lado de dentro, Lucas estava de pé e olhou rápido pra porta, quando ouviu o barulho dela sendo aberta.
Ele estava com os dedos enfiados agressivamente no cabelo, quase indo a loucura com a demora.
Mas tudo valeu a pena, quando Kate abriu a porta e o encontrou lá, com o mesmo olhar inocente e gentil que ela conhecia, ainda que diferente em outros aspectos.
Kate não acreditou no que viu de primeira. Ela olhou pra Lucas ali parado, como se estivesse voltando no tempo. Lágrimas caíram de imediato e sem controle.
— Lucas...
— Kate...
Ela olhou para Jude mais uma vez, tentando ser forte, resistir, mas ela não conseguiu. Kate desabou no chão, chorando como uma criança.
— AAAAAAAA!
Ela gritou, ao cair de joelhos.
Lucas foi até ela e se agachou, a segurando pelos braços.
— Ei, calma, eu estou aqui meu amor.
Ele pronunciou, com uma onda de emoções o invadindo de tal forma que m*l era capaz de se controlar, mas precisava, por ela. Ainda sim, não conseguiu evitar que algumas lágrimas escorressem de seus olhos.
Ela o abraçou forte, sem conseguir acreditar que estava o tocando, o sentindo de novo e ouvindo sua voz. Ela estava nos braços dele, mas ainda parecia muito longe da realidade.
Jude, que estava na entrada da sala, em lágrimas como uma telespectadora emocionada, fechou a porta e preferiu deixá-los um pouco a sós. Bryan se aproximou e a abraçou de lado, com um sorriso de dever cumprido, ainda que não tenha feito nada.
Lucas encostou o corpo na parede, enquanto acariciava o cabelo de Kate, que ainda não conseguia parar de chorar e soluçar.
Ela tinha muitas dúvidas, perguntas que não acabavam mais, porém ainda estava tentando se acostumar a ideia de que ele realmente estava ali e não era um sonho, uma loucura da sua cabeça.
Tinha sofrido tanto, chorado tanto, ficado tão devastada, que tinha certeza que nada a faria chorar daquele jeito de novo. Mas aí ele apareceu e destruiu completamente suas defesas.