O check-in foi feito rapidamente na recepção do hotel. Andrew estava com pressa para passar um tempo a sós com Kate. Mas ainda havia um silêncio constrangedor rondando os dois, como um balão suspenso no ar, prestes a estourar sobre suas cabeças.
Ao entrarem no quarto, Kate foi diretamente para o banheiro. Trancou a porta e respirou fundo, sem saber o que fazer.
Estava decidida a dar uma chance pra ela e Andrew, pois apesar de não saber o que sentia de fato por ele, sabia que era forte o suficiente para ao menos tentar. Mas depois de todas aquelas perguntas na entrevista, de tudo que ela respondeu, estava ficando cada vez mais difícil fingir que tinha superado.
Ela nem mesmo conseguiu se despedir. Não teve um corpo pra isso. Um enterro digno, era o mínimo que ele merecia, depois de tudo que passaram juntos.
As lágrimas vieram automaticamente. Em questão de segundos, Kate estava sentada no chão, com os braços envolta do joelho, se debruçando em lágrimas, tentando não fazer barulho porque, obviamente, seu marido não poderia descobrir que ela ainda chorava a morte do seu grande amor.
Não que ela pensasse que Andrew seria insensível quanto a isso. Ele devia ter consciência de que não estava sendo fácil pra ela. Mas eles precisavam daquele momento pra eles, e não pra Kate viver seu luto. No entanto, ela não sabia se era capaz de suportar aquela dor toda de volta, enquanto simplesmente seguia em frente como se nada tivesse acontecido.
Andrew desarrumou as malas, ciente de que Kate não devia estar no chuveiro. Mas ele queria dar um pouco de espaço a ela. Precisava, pra que ela ficasse inteira naquele relacionamento. No fundo, ele sabia que isso não iria acontecer tão cedo, mas torcia pra que ela ao menos tentasse. O mínimo que ele esperava, era ter uma chance de verdade para os dois. Só não sabia se merecia.
— Kate? Está tudo bem?
Cansado de esperar que ela saísse, ele bateu na porta, com suavidade, e tentou ser o mais gentil possível ao perguntar.
Kate levantou, respirou fundo e limpou o rosto.
— Sim, está tudo bem. Já vou sair.
Ele soltou um suspiro e fechou os olhos por um instante. Só queria poder abraçá-la e fazê-la se sentir melhor. Mas não tinha esse poder. Não ainda.
— Escuta, eu vou pra piscina, te espero lá embaixo, tudo bem?
— Sim, claro.
Andrew saiu do quarto, em passos rápidos e cuidadosos. Estava ficando mais preocupado com Kate. Foram semanas de muita pressão, agonia, dor e um sofrimento imenso que ela m*l pode processar.
Além de tudo isso, ele ainda estava magoado, de certa forma, por ter sido enganado aquele tempo todo pela agente Williams. Mas como culpá-la, quando ela o livrou do seu sofrimento? E não apenas isso. Ela deu a ele motivação para viver e para lutar. Ir de contra sua família e tudo que cresceu aprendendo, em prol da justiça, da verdade e, acima de tudo, da liberdade. Coisas que, por si só, Andrew não seria capaz de conquistar. Se Kate não tivesse entrado em sua vida, ainda que por meios errados, mentindo e manipulando a todos, sem a sua presença ele provavelmente estaria casado com Karen, sendo infeliz em cada instante da sua vida, sem perspectiva de alegria. Apenas aguardando o dia em que se tornaria Don e deixaria sua vida de tristeza e agonia para fazer, a vida de todos a sua volta, um inferno.
Porque ele sabia, se viesse a ter todo aquele poder, sendo tão infeliz quanto um ser humano poderia, seu único momento de alegria seria ao saber que outras pessoas também estavam sofrendo junto com ele.
Ao descer de elevador e parar na beira da piscina, Andrew começou a se questionar se era por isso que seu pai causava tanto temor às pessoas a sua volta. A maioria não podia espirrar sem a permissão dele, que tinha seu pescoço posto à prova. Mas Andrew duvidava que Bernardo fosse intolerável, c***l e sádico apenas para escapar do próprio sofrimento. Ele fazia toda aquela maldade, porque gostava. Era divertido e prazeroso. E para o mais primitivo dos homens, nada melhor do que saciar os desejos de sua própria carne e os pensamentos da sua mente.
Kate levou algum tempo, imersa em seus pensamentos, nas lembranças e mergulhada na dor que parecia sufocá-la. Durante um período, ela achou que pudesse viver normal, sem aquilo lhe atormentando e dando tanta angústia, mas ela estava enganada. E temia que jamais pudesse ser a mesma depois da morte dos homens da sua vida.
Quando ela finalmente levantou, constatou que Andrew realmente não estava no quarto. Então ela tomou um banho e trocou de roupa. Não estava com vontade alguma de ficar na piscina, ou de ter qualquer tipo de diversão, mas o que ela poderia fazer? Eram suas merecidas férias e mais do que ninguém ela precisava daquilo.
Depois de meia hora da saída de Andrew, Kate apareceu na piscina. Ela estava com uma blusa de alça fina e uma calça. Os cabelos presos no alto da cabeça.
— Não vai entrar?
— Talvez amanhã. Só vim te fazer companhia.
Ela respondeu, forçando um sorriso.
Andrew estendeu a mão pra ela. Ele tinha sentado à beira da piscina, com os pés dentro d'água.
Kate respirou devagar, antes de segurar a mão dele. Andrew a puxou delicadamente, para sentar-se ao lado dele.
— Como você está?
— Bem, estou...
— Kate, por favor. Não precisa esconder seus sentimentos. Eu sei que sente falta do seu padrinho e do Lucas. Não vou ficar chateado. Eu entendo que é muito difícil pra você. Ainda é tudo recente.
Ela cruzou as pernas, sentada ao lado dele. A respiração ficando cada vez mais difícil de controlar. Parecia estar prestes a desabar a qualquer instante...
— Eu achei que estivesse melhor. Que seguir em frente seria mais fácil agora. Mas parece que toda vez que respiro, todo meu corpo dói. E tem um vazio dentro de mim que parece ter se transformado em uma bomba-relógio prestes a explodir. Me desculpe, esse momento devia ser para nos entendermos...
— Não, esse momento também é pra gente processar nossos sentimentos. Entender tudo que aconteceu e buscar se encontrar.
Ele pegou as mãos dela, que ergueu o olhar pra ele. Mergulhado em lágrimas, os olhos esverdeados encararam Andrew com um sofrimento que ele jamais tinha visto em qualquer outra pessoa.
— Sabe, muita coisa aconteceu. E falo desde o começo. Você entrou na minha vida de uma forma que eu jamais poderia imaginar. E apesar das mentiras e de tudo que foi feito, você me salvou, Kate.
Ela arqueou as sobrancelhas, confusa.
— Salvei?
— Sim. Eu não gostava daquela vida com o meu pai. Eu não sei dizer se amo ou odeio o Bernardo, mas a verdade é que ele queria que eu fosse um homem que não era. Ele precisava de um Don, não de um filho. Mas eu não nasci pra ser nenhum dos dois. E sinceramente, não sei lhe dizer o que vou fazer da minha vida depois que meu tempo de prisão domiciliar acabar, mas eu me tornei um outro homem no momento em que me apaixonei por você.
Kate não sabia o que dizer ou pensar. Era difícil demais estar na presença dele, ao lado dele e ignorar aquele desejo forte de abraçá-lo e beijá-lo. Mas ainda tinha tanta coisa pra resolver, pra dizer e seus sentimentos estavam tão bagunçados, que temia deixar aquela situação ainda pior se fizesse qualquer coisa sem pensar nas consequências. Ainda que ela achasse a ideia muito tentadora.
— Andrew...
— Por favor, deixa eu terminar. Olha, eu sei que ainda ama o Lucas. E está tudo bem. Porque ele vai estar sempre em seu coração, nas suas lembranças, em tudo que viveram juntos. Eu não estou aqui pra substituí-lo, Kate. Mesmo se eu quisesse, teria que nascer de novo.
Ele deu uma pequena risada, enquanto ela sorriu, abaixando a cabeça por um instante.
Lucas era diferente de tudo e todos. Ela tinha deixado isso claro muitas vezes, mas não parecia suficiente. A forma como ele a apoiava, a desafiava, a sentia, era uma conexão de outro mundo. E ela sabia que talvez não encontrasse ninguém com quem sentir isso outra vez. Porém, se havia outra pessoa na terra capaz disso, seria o homem com quem ela estava casada.
— A única coisa que peço, é que seja sincera sobre tudo. De toda sua dor, seu sofrimento, suas angústias, seus medos, suas dúvidas. Eu quero estar ao seu lado de hoje em diante. Mesmo que demore um pouco pra você conseguir seguir em frente, eu estarei aqui, não vou a lugar nenhum.
Ele beijou cada um das mãos dela, que acabou permitindo que algumas lágrimas escapassem.
Após respirar fundo, Kate entendeu que Andrew estava sendo tudo que ela mais precisava naquele momento. Um apoio, um pilar, uma estrutura que estava pronta pra erguê-la até onde ela quisesse.
— Andrew, obrigada por tudo isso. Por entender, principalmente. E diante de todas essas coisas, eu não tenho muito o que dizer agora, só que quero você na minha vida de algum jeito. E sobre o casamento...
— Tudo bem, não precisamos continuar. Pra mim é só um pedaço de papel, sinceramente, mas se preferir podemos nos divorciar e tentar um relacionamento aos poucos, bem devagar, no seu ritmo, eu não vejo o menor problema.
Ela deu um pequeno sorriso, satisfeita por estar vendo um homem responsável e maduro, que respeita as escolhas dos outros e a apoia. Isso parecia um pouco diferente do Andrew que ela estava acostumada, mas com certeza poderia se habituar a isso.
— Eu ia dizer que não me importo de ficarmos casados, mas não estou pronta pra viver uma vida a dois, morando juntos no mesmo lugar, como se de fato fossemos marido e mulher.
Andrew deu um sorriso, mas não devia se empolgar. Aquele período seria delicado e, apesar da ânsia em fazê-la se apaixonar completamente por ele, sabia que se apressasse as coisas, poderia pôr tudo em risco.
No fundo, ele tinha certeza que aquelas horas silenciosas no voo, mas a certeza do sofrimento dela, o fez pensar no quanto estava sendo egoísta em achar que aquela oportunidade seria apenas para conquistá-la, e não para fazê-la se sentir realmente bem consigo mesma. Até porque, nenhum relacionamento poderia dar certo se ela ainda estivesse em profunda agonia por um amor inesquecível.
E Andrew estava orgulhoso de si mesmo, por encarar tudo aquilo com maturidade e sensibilidade, que era exatamente o que Kate precisava.
Para concluir aquele assunto, Andrew resolveu propor uma sugestão.
— Então fazemos assim. Vamos nos conhecendo melhor, certo? Mantemos o casamento e se não der certo, pedimos o divórcio. Mas se der, a gente faz uma cerimônia de casamento melhor e de verdade. E aí sim, teremos nossa lua de mel.
— Pra mim parece perfeito.