Capítulo 8: Tudo sobre tudo

1974 Words
Andrew pulou na água antes que Kate percebesse. Ele deu um bom mergulho durante alguns minutos. Ela ficou observando, enquanto balançava os pés na água. Mais do que qualquer coisa, precisava daquele tempo pra ela, pro seu corpo, pra sua mente, pra sua alma. Mas não tinha certeza se poderia se recuperar do estrago feito nos últimos meses. Pelo menos, acreditava que jamais poderia ser a Kate que era. Na verdade, nem mesmo se lembrava de como era a vida antes daquela missão, da perda e de tudo que a destruiu. E provavelmente a coisa mais difícil que ela faria nas próximas semanas, seria tentar recuperar alguma coisa do passado, assim como descobrir quem ela seria no futuro. — A água está uma delícia. Você devia entrar. Andrew surgiu ao lado dela, que piscou rapidamente. Estava tão concentrada nas ideias que passavam pela sua mente que m*l notou a presença dele. — Ah, depois eu acho. — Você está bem? — Sim, não se preocupe. Ele ergueu o corpo apoiando as mãos na beira da piscina e sentou ao lado dela. Podia sentir toda a tensão emanando do corpo dela e gritando quase como se fosse um pedido de socorro. — Pode conversar comigo, Kate. Eu entendo que esteja sendo difícil, mas estou aqui pra tudo. — Temos muita coisa pra conversar, Andrew. Mas esses dias eu só quero relaxar. E tentar entender o que vou fazer da minha vida sem o... — Sem o Lucas? Ela engoliu em seco. Seria mais difícil do que tinha imaginado. Principalmente quando ouvia ou pronunciava o nome dele. — Sem meu padrinho. E sim, sem o Lucas também. Agora que a missão acabou, que estão todos presos ou pelo menos quase todos, eu não sei como prosseguir, sabe? Parece errado continuar vivendo normal quando eles morreram por causa do meu trabalho! A voz saiu um pouco mais alta do que deveria, além de arranhada pela vontade de chorar ter vindo tão subitamente. Ainda sim, ela respirou fundo e não permitiu que desabasse novamente. Precisava se manter firme e forte. Só não sabia se aguentaria isso por muito tempo. Enquanto Kate tentava recuperar as forças, Andrew se enchia mais uma vez daquela culpa pesada que parecia afundá-lo cada vez mais. Sempre que pensava no assunto, era como se um túnel de aço derretido de uma tonelada se abatasse sobre seu peito, o fazendo se sentir cada vez mais pra baixo. Porém, o que ele poderia fazer? Contar a verdade ainda não era uma opção. Naquele momento, Kate o odiaria se soubesse o que fez. Se contasse que estava lá, que Ralph foi atrás de Lucas porque ele pediu que o amigo estivesse lá e, principalmente, se desconfiasse que ele estava mentindo pra ela durante todo aquele tempo. Ele estava seguro enquanto ela pensasse que seu pai havia ordenado aquilo tudo. E não podia negar que tinha dado sorte. Se Ralph estivesse vivo, teria revelado tudo. Mais alguns segundos respirando e ele poderia ter estragado a única chance de Andrew ser feliz. Ele não concordava com o método de Kate. Apesar de tudo, não queria tê-lo visto morto. Era pesado, doloroso e difícil demais pra ele aceitar. No entanto, Andrew sabia do risco no momento em que aceitou o acordo. E sabia que tinha sorte de ainda estar vivo e vivendo aqueles minutos preciosos ao lado da mulher por quem estava apaixonado. Mesmo que isso tudo fosse com base em uma mentira, que, até onde sabia, não teria como qualquer outra pessoa descobrir ou revelar. Sua irmã e sua mãe não fariam nada que fosse machucá-lo, ainda que, naquele caso, ele merecesse tudo de r**m. E ainda não seria suficiente. Depois de respirar fundo, Andrew resolveu respondê-la, com palavras que o fizeram refletir minutos atrás. — Não faça isso com você mesma. A culpa... Ela pode te corroer, se você deixar. Isso vai destruir tudo que existe dentro de você. E será impossível de recuperar. Ele entendia muito bem do assunto e tinha certeza que ela o compreenderia. — Como você consegue? Ele ficou ereto, com os ombros tensos e o maxilar fechado. Tudo isso antes de indagar, com medo das acusações. — Consigo fazer o quê? Do que está falando? — Eu sei que seu pai te obrigava a ferir, machucar aquelas pessoas, mas como vive sabendo que prejudicou tanta gente? Que matou, Andrew? Ainda que tenha sido para proteger a si e a Karen e Kayla? Era exatamente por isso, pensou ele. Para proteger aquelas pessoas que amava e, até mesmo, poupar algumas das pessoas mais importantes da sua vida de um sofrimento ainda maior. Depois de respirar aliviado, ele começou a pensar em uma resposta que parecesse o mais humana e menos egoísta possível, apesar das circunstâncias. — Ah, isso. É, bom, não foi fácil. Tive muitas crises de identidade. Sabe, lá tem um terapeuta, na organização. Ele ajuda a fazer a gente entender nosso propósito e, que, apesar de nascermos livres por natureza, em nosso caso específico, estamos predestinados a uma vida de sacrifícios, mas também de luxo. Claro que tem um monte de besteira pra gente acreditar que estamos fazendo o que é preciso, tanto por nós, quanto pelo mundo, mas por um bom tempo, eu realmente acreditei nisso. Que tinha nascido para ser um Don e que precisava encarar isso como uma benção, uma salvação, e não a minha ida ao crucifixo. — Isso é interessante. Não imaginava que eles mexiam com o psicológico dessa forma. Tinha muitas formas que seu pai e o restante do Conselho utilizava para manipular todos a sua volta. Jeitos que Kate jamais imaginaria. Durante anos, Andrew tentou aceitar o destino que lhe impuseram. A realidade a qual vivia, não permitia que ele fantasiasse qualquer outro caminho para sua vida. Mas de alguma forma, tudo mudou, quando Kate cruzou seu caminho. Ele ainda não sabia o que fazer com os sentimentos conflitantes. Com a magoa da mentira, com a dor do arrependimento e com a força daquele sentimento que o faria sangrar por ela. No entanto, depois de tudo que aconteceu, das mentiras, das perdas, de toda a dor, não era justo cobrar dela o que ele sabia que precisava ser feito. O mundo tinha que ficar livre de Bernardo Cardenas. Era difícil admitir aquilo, sendo filho dele. Ainda que o mesmo não tenha se preocupado muito com sua educação, ou em lhe dar amor, carinho e atenção. Independente disso, Bernardo não deixava de ser o pai dele e era delicado o estado em que as coisas tinham ficado entre eles. A única coisa que desejava mais do que ficar com Kate, era saber se ainda existia algum resquício de humanidade em Bernardo, a ponto de considerar perdoar o filho ou, ao menos, se despedir dele. Com a prisão domiciliar de Andrew e uma possível transferência do chefe do crime para outro presídio, não tinha como saber se iriam se ver novamente, mesmo sem saber se era exatamente o que queria, justamente por ter muita raiva e ódio em seu coração jovem, pelo que o pai fez a Kate e a tantos outros. — Há muitos anos um Don chegou a fazer a faculdade de psicologia, assim como a Karen. Nunca exerceu, claro, mas fez e usou disso para conseguir inúmeras vantagens. Seu império quase dobrou naquela época. Ele sabia jogar, sabia mexer nos pontos das pessoas, induzi-la ao que queria. Era um talento, eu diria, misturado aos anos de conhecimento. Se ele precisasse fazer um suicida escolher entre uma arma carregada e uma faca pra se matar, ele fazia o homem se jogar de uma ponte antes de considerar de fato uma das opções, mesmo que o sujeito tivesse medo de altura. — As vezes esquecemos que pessoas poderosas e perigosas também podem ser inteligentes, astutas e com um grande talento para enganar as pessoas. Ele abaixou a cabeça, pensando que o seu poder também o tornou alguém inteligente, mas perigoso e um mentiroso, assim como seu pai. — É, você entende bem disso. Respondeu na defensiva, se levantando. Se arrependeu do que disse no segundo seguinte, mas era tarde demais. Kate se levantou, com as sobrancelhas encolhidas e o corpo tremendo de frio. — O que está insinuando? — Nada, não é nada. Ele pegou a toalha e começou a passar no corpo, se secando e torcendo pra ela esquecer o que ouviu. — Não, eu não queria falar sobre isso agora, mas você fez questão de me chamar de mentirosa. — Não foi o que eu disse. Resmungou, com certa raiva contida na voz. Kate parou na frente dele e cruzou os braços. — Uma simples troca de palavras não muda o sentido. Não quando está bem claro que ainda sente raiva por eu ter mentido. — Aí está. Você acabou de admitir que mentiu. Ele jogou a toalha na espreguiçadeira, como se estivesse comemorando por estar certo. Kate apenas balançou a cabeça, entendendo que, mesmo tentando ignorar, não era possível. Não tinha como ambos ficarem tanto tempo sozinhos, em um mesmo espaço sem falar das almas que os perturbam. Da dor que o cercam. E da raiva que, lentamente e secretamente, os consomem. No fundo, ela sabia que se não resolvessem essa questão, não sobraria nenhum sentimento bom pra eles que fosse capaz de sobrepor a tudo que passaram. Principalmente, a todas as mentiras, o ódio e a dor que os envolvia. — Mas eu não neguei. Só que diferente de você e da sua família asquerosa, eu fiz isso pra proteger as pessoas! Pra mudar o rumo de tanta gente que estava sendo afetada pela Máfia! Sabe muito bem os danos que seu pai causou e que estavam causando pra todos na cidade. E não falo apenas das mortes que jamais vamos achar os corpos, mas também das vidas ceifadas pela droga, pelas vendas de tráfico humano, pelos sequestros, as armas que vendiam... — Não precisa me dizer tudo o que faziam, eu sei exatamente! Eu estava lá, lembra? Fiz parte da merda toda. Ele colocou o short e a camisa, enquanto a ouvia falar. Ela não estava errada, mas não conseguia ignorar aquele sentimento de ter sido enganado. O que lhe parecia irônico, ao pensar sobre o que ele também escondia. — Mas não é igual a eles, Andrew. Ou eu não estaria aqui. Andrew respirou fundo, pondo as mãos na cintura. Ela tinha razão. Mesmo tendo feito tantas bobagens, crimes horríveis, nunca se divertiu com nada que a Máfia fazia. Principalmente com o que seu pai ordenava. Jamais compactuou por vontade própria aos desejos de Bernardo Cardenas. No entanto, lá estava ele, carregando o fardo daquela família. — Kate... Ele começou, com a voz baixa, mas ela o cortou. — Se meu trabalho vai ser um problema, é bom que fique claro logo agora. Eu não me orgulho de muitas coisas que fiz. Por causa das minhas escolhas, do meu ego de subestimar sua família, que a minha foi morta. Eu jamais deveria ter deixado o Nick e o Lucas participar de toda aquela armação. Mas nunca passou pela minha cabeça... Que eu perderia eles. Não assim, não desse jeito... A voz foi embargando no final e foi extremamente difícil terminar aquela frase. Simplesmente dizer o nome deles parecia um crime, algo terrível cometido por ela. Era sua responsabilidade. Seu dever protegê-los. E ela falhou. Andrew deu alguns passos a frente, buscando confortá-la em um abraço, enquanto dizia: — Ei, não fica assim. Ela estendeu a mão pra que ele parasse e recuou, fazendo Andrew interromper seus passos e encará-la com um misto de medo e arrependimento. — Não, eu estou bem. Só... Preciso de um tempo pra entender tudo. — Tudo o que? — Tudo, Andrew. Sobre minha vida, minha carreira, minhas escolhas e, principalmente, porque nós dois estamos aqui.
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