Capítulo 10: Transformar

1689 Words
Kate não soube como responder àquela declaração. Esperava que Andrew pudesse entender que não estava pronta pra dizer aquelas palavras com a mesma verdade. Sequer sabia se realmente as sentia. Mas de uma coisa ela tinha certeza, estar com Andrew era florescer de todas as formas e duvidava que outra pessoa pudesse aflorar aquele sentimento tão nobre e apaixonante. Não era como estar com Lucas, duvidava que fosse capaz de conseguir viver um amor como aquele duas vezes na mesma vida, mas tinha fé que poderia encontrar paz e felicidade ao lado de Andrew. Ainda sorrindo, ele completou, mediante ao silêncio de Kate. — Pode relaxar, não espero que possa dizer o mesmo. Mas tenho certeza que isso vai acontecer muito em breve. — Obrigada por ser tão paciente, respeitoso e amoroso. — É o mínimo que posso fazer. Você merece. Ele deu um beijo terno nos lábios da amada, antes de aconchegá-la em seus braços. Kate respirou fundo, deitando a cabeça no peito de Andrew. Mesmo com tantos conflitos internos e externos, com toda pressão ainda morando em seu coração, desabrochando sua alma tristemente pesada, naquele momento, ela conseguiu respirar aliviada e dormir como há muito tempo não fazia. Andrew estava feliz, confiante e com o coração e corpo aquecidos. Naquela noite, ele dormiu como um bebê em lençóis egípcios. Sem nem imaginar, que seus sonhos estavam prestes a se tornarem um pesadelo. Enquanto os recém casados curtiam a noite quente de amor, repleta de mudanças e prazeres, havia um homem dirigindo uma caminhonete velha, com tinta azul descascando em cada pedaço da carcaça do veículo e com um barulho estranho, que nada mais era o significado real de que aquele carro não via a estrada fazia algum tempo. Mas Lucas não poderia reclamar. Depois de tudo que aquele homem fez por ele, sabia que jamais poderia retribui-lo minimamente. O único motivo pra ele ainda respirar, era pelo dono do carro ser tão persistente e de enorme coração. Ele pretendia trazer o veículo de volta ao dono, mesmo que esse tenha insistido que não precisava. Lucas tinha certeza que poderia lhe fazer falta em algum momento, mesmo que ele tivesse um carro um pouco mais conservado. Ele atravessava a noite sombria e fria, cortando a cidade em busca do seu passado. Sendo guiado pelas lembranças que ainda estavam se realocando em sua mente, ele sonhava com o momento em que romperia a tristeza de todos. Sua mãe ainda devia estar sofrendo dolorosamente com sua partida e sua doce Kate... O coração pesado não lhe deixaria viver bem. Extinguir aqueles sentimentos negativos nas pessoas mais importantes da sua vida o deixaria inebriado. Bastava um sorriso para desmoronar por completo toda sua pose de homem durão que ele vinha sustentando nas últimas semanas. Ele tinha certeza que, apesar de toda a dor e culpa, o sentimento que o cercaria seria o mais nobre, doce e verdadeiro possível. Sem nem imaginar o que o esperava, Lucas ficava com o coração cada vez mais apertado de ansiedade. O sol brilhou forte através das cortinas. Miami nunca estivera tão bela, com o ar salgado, o cheiro da brisa do mar e as areias douradas levadas pelo vento. Quando Kate se levantou, não conseguiu ignorar a ponta de arrependimento abatendo sobre ela. Ao mesmo tempo que tinha adorado cada segundo da noite anterior, tinha medo de estar sendo rápida demais. De seguir em frente muito cedo, de magoar a memória de Lucas. Ela não iria enterrá-lo no fundo da sua mente como se nada tivesse acontecido. Ninguém tinha pedido isso a ela e, ainda sim, parecia estar cometendo um crime contra o amor da sua vida. No entanto, quando o torso forte de Andrew a abraçou por de trás, ela conseguiu pensar em outra coisa. Enrolada em um lençol fino na sacada do quarto, Kate estava sendo agraciada pela brisa da manhã, antes de ter aquela recepção de bom dia. Andrew deu um beijo terno em seu pescoço, que atiçou todos os pelos do seu corpo, enquanto ela abria um pequeno sorriso. — Bom dia. Parece que alguém dormiu muito bem e acordou de bom humor. — E tem como acordar diferente estando ao seu lado? Finalmente podendo ver esse rostinho lindo nos primeiros raios de sol da manhã. — Está inspirado hoje, senhor Andrew. — Você é minha inspiração. Minha musa. Minha linda e maravilhosa esposa, que eu espero poder dividir o resto dos meus dias, independente de quanto tempo eu tenha. Kate não conseguia evitar e nem apagar aquela chama que Andrew acendia dentro dela. Por mais que ainda estivesse carregada de dúvidas, de incertezas e medo, não poderia se negar de viver aquele momento. Ela se virou para Andrew, encarando seus olhos azuis, que não paravam de brilhar naquela manhã. — Sabe, as vezes parece que estou sonhando, nas nuvens. Mas então lembro de tudo e sinto meus pés no chão de novo. Só que quando estou com você, eu acredito que posso sonhar acordada e, em algum momento, viver minha vida de verdade. Ainda vou precisar de um tempo pra me recuperar, claro, mas... — Eu estarei aqui, Kate. Não importa o tempo que vá precisar. Eu vou estar bem do seu lado. — Obrigada, de verdade, por tudo. Ela o abraçou, pela primeira vez em muito tempo, sentindo que poderia contar com alguém de novo. Andrew passou os braços pelo corpo de Kate e apoiou sua cabeça na dela, fechando os olhos por alguns instantes. Pra ele, o mundo poderia congelar naquele momento. Nada mais importava. Estar com Kate se tornou sua prioridade máxima, mesmo sabendo que ainda existia muitas complicações em sua vida para serem resolvidas. Principalmente sobre o que fazer com aquele segredo assombroso que o atormentava. Depois de alguns minutos, ambos se vestiram e desceram para o café da manhã. De estômago forrado, eles decidiram dar um passeio pela praia, aproveitar o sol escaldante e quem sabe dar um bom mergulho. Ambos subiram, se trocaram e foram até a praia. Caminharam um pouco e depois sentaram na areia. Kate com o corpo envolvido pelos braços de Andrew, sentada na frente dele, olhando para as pessoas ao redor. Todas se divertindo, rindo, conversando, ignorando os problemas do mundo e simplesmente vivendo, como deveria ser. Andrew estava pensativo, desejando desesperadamente que pudesse conquistar Kate. Mesmo consciente de que teria muito tempo ao lado dela para fazer com que se apaixonasse por ele, as palavras de Anna ecoavam em sua mente e, quase como se pudesse pressentir, ele tinha certa urgência em garantir que Kate o amasse o quanto antes, mesmo tendo prometido ser paciente. Ele então começou a elaborar um plano mental, para aproveitar o máximo possível aqueles dias de férias, em Miami, longe de tudo e de todos. E quando retornassem a vida real, ela estaria mais segura do relacionamento deles e de seus sentimentos. Esse era o plano de Andrew, que estava correndo um risco inimaginável. Lucas parou o carro devagar, como se quisesse adiar aquele momento. Ele estava feliz por se lembrar da sua mãe e principalmente por ter conseguido chegar até ali, mesmo com algumas falhas na memória. No entanto, foi difícil dar o primeiro passo. Não sabia como fazer aquele retorno. Como chegar na porta da sua casa e simplesmente dizer que estava vivo depois de tanto sofrimento. Ele abriu a porta do carro e se levantou para sair, mas acabou voltando e fechando a porta. Jurava que estava pronto. Sempre pensou que quando sua memória voltasse, ele conseguiria retornar pra sua vida de imediato, pras pessoas que tinha deixado para trás, se é que havia alguém. Mas não tinha ideia da dificuldade que poderia ser. Ele respirou fundo, segurando o volante com as duas mãos. Talvez não devesse fazer aquilo sozinho. O suor que começava a escorrer denunciava o nervosismo natural, mas a forma com sua respiração estava pesada, não devia ser um bom sinal. Certamente sua mãe não iria gostar de vê-lo daquela forma. Lucas acabou dando a volta e indo em outra direção. Por mais que estivesse com vontade de ver sua mãe, ainda não estava pronto, mesmo pensando estar. Ele parou o carro minutos depois, em uma faixa de frente para o mar. A brisa natural o fez bem. Ele abriu o vidro do carro e deixou o ar invadir o ambiente, na tentativa de acalmar seu sistema nervoso. E foi tão relaxante, que ele conseguiu tirar algum tempinho de sono. Era fim de tarde e o sol estava se pondo em Miami. Kate e Andrew estavam molhados, sujos de areia e com a pele salgada. Ambos se divertiram de diversas formas. Se jogaram na água. Andrew afogou Kate várias vezes e ela também o fez. Depois ambos correram um atrás do outro pela praia, causando altas gargalhadas, como há muito tempo Kate não dava e, sinceramente, não achava que era mais possível. — Você está a fim de sair pra jantar? Andrew indagou, passando a mão pelo cabelo ao sentar na areia. Kate respondeu de prontidão. — Claro. O que tem em mente? — Uma surpresa. — Não sei se gosto. — Essa você vai amar, eu prometo. Kate apenas sorriu, imaginando o que Andrew poderia estar aprontando. Com o pôr do sol chegando ao fim, vários pensamentos percorreram a mente de Kate, que ainda não estava acostumada com aquela calmaria. — As vezes fico pensando em como minha vida mudou nos últimos meses. Em como no momento que aceitei a missão, sem querer eu alterei o rumo de várias pessoas ao meu redor. E não falo apenas das perdas... mas também dos ganhos. — A vida é feita disso, Kate. De mudanças. De decisões que alteram nosso destino e, dependendo, pode mudar também das pessoas a nossa volta. Muitas vezes a gente não se dá conta que nossas escolhas podem afetar os outros, mas a verdade é que o que nós fazemos, pode transformar tudo. Aquela frase ficou ecoando na mente de Kate por muito tempo. "O que nós fazemos pode transformar tudo". E ela não tinha ideia de que novas decisões estavam prestes a mudar tudo.
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