Did you miss me?
O prédio espelhado da Scotland Yard refletia o sol quase inexistente daquela tarde. Não que fosse novidade que Londres fosse mesmo aquela coisa aguada e nublada a maior parte do ano, com garoas frequentes e o tom de cinza que tomava conta da paisagem justamente naquela época do ano. O terno cinza e a gravata azul contrastavam com os olhos que misturavam as mesmas tonalidades do chefe de Departamento de Crimes Cibernéticos daquela que era considerada uma das melhores polícias do mundo.
Louis Tomlinson não tinha do que reclamar aquele dia. Sua meia hora de almoço — apesar de não parecer suficiente para que um ser humano consiga, de fato, ter o mínimo de paz para sentar e comer — foi suficiente para aquele prato de salada e peixe de um de seus restaurantes preferidos no centro da capital inglesa. Seu celular já havia apitado o alarme duas vezes o lembrando de fazer uma ligação específica que precisava e continuava arrumando desculpas internas para adiar.
Olhou novamente a tela acesa de seu iPhone enquanto alcançava o guardanapo de pano branco para limpar a boca. Suspirou naquela mescla de cansaço e frustração: m*l tinha terminado de almoçar e apenas queria aquele momento para olhar pro nada, bocejar e ficar feliz por ter feito uma refeição decente naquela semana; já que o máximo que tinha conseguido era comer um sanduíche em seu escritório, uma barra de cereal ou uma fruta qualquer.
A pressão estava chegando a níveis insuportáveis para Louis, que evitou recorrer fazer o que deveria ter feito no primeiro dia. Mas ele não era o tipo de homem que cedia com facilidade e gostava mais quando as ordens partiam dele mesmo. Mas um mês já havia se passado e o caso não estava nem perto de ser resolvido. Nas redes sociais e nos jornais já estavam chamando o famoso hacker de "Limpador", por literalmente estar limpando contas bancárias de três bancos diferentes usando apenas o serviço de internet banking das próprias agências bancárias. Mais do que um profissional, estavam lidando com um homem que tinha descoberto uma maneira de apagar completamente seus traços digitais.
— Tomlinson. — Ele atendeu o celular rendido à situação. Ele baixou os olhos e massageou as têmporas e, mesmo sem querer, deixou transparecer na voz a pouca vontade de atender.
— Estava aguardando sua ligação, agente. — A voz do outro lado da linha ele conhecia bem. Seu chefe, o superintendente Oliver Declan, igualmente parecia impaciente e não prestando muita atenção no fato de parecer estar sendo inconveniente.
— Eu sei, senhor. — Ele respondeu mais respeitoso dessa vez. — A reunião com a equipe está marcada para amanhã a tarde, será bem-vindo caso deseje estar presente. — Ele disse fingindo uma cordialidade que na verdade deixava clara a obrigação de convidar apenas. A última coisa que ele precisava era de seu superior presente na reunião que ele presidiria para atualizar sua equipe sobre os progressos no caso do Limpador. Obviamente ele não fazia ideia do que iria dizer.
— Não tenha dúvidas que estarei lá. — Declan não fez questão de esconder a pressão na voz naquele momento. Louis mordeu a parte interna da bochecha e sentiu a refeição, mesmo que leve, remexer em seu estômago.
Antes que ele pudesse se despedir, ouviu seu chefe desligando do outro lado da linha. Ele levantou da mesa de canto em que estava, numa parte mais iluminada do restaurante, ajeitou o terno fechando o primeiro botão e a gravata antes de andar até a saída do local. Ele passou a mão pelo rosto assim que o ar gelado tocou sua pele e arrependeu-se de não ter trazido seu cachecol, mesmo que o caminho até o prédio da polícia metropolitana da Inglaterra fosse há poucos metros de onde ele estava.
Já estava na Scotland Yard há quase cinco anos como chefe de departamento e, apesar da seriedade e até da frieza em determinados momentos que não se relacionavam apenas com o pré-requisito que a profissão pedia, ele era muito querido dos colegas de trabalho, apesar de seu círculo de amizades pessoais ser bem menor e restrito do que aparentemente todos pensavam. Contava nos dedos — de uma mão só — as pessoas em quem confiava.
Mas lá estava ele, praticamente enfrentando o segundo maior desafio de sua carreira envolvendo um caso muito parecido com o qual havia lhe trazido até ali — um cargo de chefia. Há exatos cinco anos, ele também havia gasto um ano inteiro de sua vida apenas para conseguir capturar e prender um dos maiores hackers que o departamento já havia enfrentado. Aparentemente, estavam lidando agora com um homem de hábitos muito parecidos com o criminoso anterior. Louis era formado em Engenharia da Computação e sabia muito bem que, apesar de ser uma área nova dentro dos departamentos que envolviam os mais variados crimes, os cibernéticos estavam em alta: pela facilidade e pela falta de regulamentação específica para aquele tipo de ato. Nem todos os lugares haviam reformulado as penalidades que envolviam crimes — especialmente de roubos — dentro de uma rede que é, para muitos, considerado "terra de ninguém": a internet.
No alto dos seus trinta e dois anos, Louis teve que passar por provações para chegar onde estava e, claro, não se ascende na carreira sem carregar alguns desafetos, especialmente porque ele era considerado jovem demais para estar onde estava e, principalmente, ocupar o cargo que chefiava. Ele era obrigado a engolir alguns sapos no dia-a-dia, mas tinha muito jogo de cintura para contornar situações. Era um homem inteligente, sério e apaixonado por seu trabalho.
Foi breve o tempo que levou para chegar ao edifício, entrar no elevador e passar como um furacão por sua sala. Fechou a porta de vidro e, apesar de contestar sua própria vontade, ele também tinha que admitir que era a hora de se render. Apertou o botão do aparelho que usava para se comunicar com sua secretária e ouviu a voz dela do outro lado da linha, soando eficiente.
— Pois não, senhor Tomlinson?
— Angelica, peça ao Malik e ao Payne para virem até a minha sala. — Ele disse num tom cordial mas imperativo.
— Sim, senhor.
Ele sentou-se na poltrona de couro atrás de sua mesa de madeira escura pintada e logo pegou o telefone fixo do gancho sem esperar muitos toques até que fosse atendido.
— HM Prison Belmarsh. — Uma voz grave masculina atendeu prontamente.
— Aqui é o agente Tomlinson, distintivo número 72990, da Polícia Metropolitana de Londres. — Ele dizia ouvindo barulhos de teclas de computador, como se verificassem quem ele era. — Preciso agendar uma visita para hoje.
— Pois não? — O homem perguntou referindo-se a quem o agente queria visitar. Louis suspirou cansado antes de responder.
— Harry Styles. — Ele disse com claro desagrado na voz. Só de pensar em ter que encarar aquele sorriso infantil, aqueles olhos enormes e as expressões de que está mesmo pouco de lixando para o sistema e a sociedade em que vive, já estava arrependido de ter ligado. — Cinco da tarde. — Ele concluiu assim que os dois agentes que tinha pedido a secretária para chamar, entraram.
— Tudo certo, senhor. — O homem respondeu educado e Louis despediu-se rapidamente dele.
Zayn Malik tinha as mãos nos bolsos da calça do terno e olhava curioso para Louis, apesar de já conhecer bem aquele olhar característico. Passou tempo o suficiente olhando para aquela cara na época em que estavam atrás de Styles. Payne foi o segundo a entrar e olhou seu próprio reflexo no vidro antes de virar de frente para Louis. Não que ele tivesse uma equipe muito grande, mas sentia que tudo era mais fácil quando seus fiéis escudeiros estavam por perto. Ele circulou a mesa, sentando-se nela quando ficou de frente para Zayn.
— A gente vai ter que ir lá. — Louis finalmente disse aos dois que obviamente já sabiam que aquilo aconteceria. Haviam dito ao chefe muitas vezes antes que pedir ajuda ao Harry sobre esse caso era extremamente importante, mas Louis não queria mesmo fazer acordos ou dever favores aquele homem. Como se evitasse ter que chegar perto dele.
— É nossa melhor opção. — Liam Payne respondeu abrindo o primeiro botão do terno e enterrando as mãos nos bolsos da calça. Estava agora espelhando a posição de Zayn. — Pode oferecer uma redução mínima da pena ou qualquer outra regalia. Ele vai topar.
— Styles é um cara esperto pra c*****o. — Foi a vez de Malik opinar. — Não acho que vai ser fácil assim. Ele vai exigir alguma coisa em troca e não vai ser algo tão simples. — A análise de Zayn chamou a atenção de Louis, que estreitou o olhar e passou a encará-lo com mais atenção. — Eu acho que você não vai gostar do que ele vai pedir em troca, Louis. — Ele foi direto.
Zayn e Liam eram parceiros há quatro anos, trabalhavam juntos nos casos. Louis era amigo pessoal dos dois e já havia sido parceiro de Zayn no início de sua carreira. Payne havia sido transferido do Departamento de Narcóticos e, no início, não havia ficado feliz com a troca. Primeiro porque não queria fazer aquela parte do serviço, não achava que tinha conhecimento o suficiente para prestar alguma ajuda. Por outro lado, ficou feliz em saber que suas habilidades foram úteis, mesmo dentro de um departamento que lidava com crimes virtuais, pois muitos deles envolviam derrubar sites anônimos de venda de droga. Segundo, porque na verdade aprendeu a gostar de Louis com o tempo, eles não se davam muito bem no início.
— Vou pegar o carro. — Payne disse andando em direção a porta por onde tinha entrado, deixando Louis e Zayn sozinhos.
O moreno alto, com braços fortes e o cabelo mais comportados do que há alguns anos atrás, cruzou os braços e, sentando na mesa ao lado de Louis, deixou o lado profissional de lado por um momento e tomou a postura de velho amigo.
— Ouça... — Ele começou quase cuidadoso no tom de voz e na escolha das palavras, mas não deixaria de ser direto. — Esse homem quase te enlouqueceu por meses... Tem certeza que quer encontrar com ele? Quer dizer, eu e Liam podemos ir se quiser... — Ele ofereceu de maneira a fazer Louis pensar que aquilo era realmente uma ideia melhor. Porém, por conhecer Harry Styles melhor do que qualquer outra pessoa naquele departamento, especialmente porque na época, era basicamente sua missão pessoal colocar aquele homem na cadeia, achou que deixar Liam ir sozinho com Zyan não iria adiantar em nada.
— Não. — Louis suspirou cansado, tocando o ombro do amigo como se pudesse agradecê-lo por se preocupar tanto. — Se eu pedir pra vocês irem, sei perfeitamente que ele só vai querer falar se for comigo. — Tomlinson levantou-se de onde estava, checou a hora em seu relógio caro e viu Zayn andar novamente em sua direção. — Mas quero levá-los comigo, inclusive para ter uma noção menos tendenciosa do que ele é. Talvez vocês dois possam perceber coisas que eu não conseguirei.
— Certo, tudo bem. — Malik respondeu saindo pela porta do escritório sendo seguido por Louis. — Vamos fazer isso logo então.
Os dois deixaram o prédio com certa pressa sem dar muitas informações sobre onde estavam indo. Um filme passou pela cabeça de Louis enquanto andavam até a saída do grande edifício em direção ao carro preto com Liam Payne no banco do motorista, checando pela janela meio aberta do lado do passageiro, esperando os outros dois agentes dirigirem-se até o veículo. Louis novamente se recriminou por ter esquecido o cachecol no momento em que o vento bateu forte, fazendo seu terno esvoaçar para os lados e despentear de leve seus cabelos castanhos. Zayn vestia um sobretudo cor chumbo e já parecia bastante usado, ele entrou pelo lado do passageiro, enquanto que Louis sentou-se no banco de trás.
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A penitenciária HM Prison Belmarsh era considerada uma das mais seguras e famosas do Reino Unido. Segurança-máxima e modelo para educar e punir os criminosos de maneira mais eficiente dos que a maioria das outras. Harry Styles era um prisioneiro obviamente famoso, apesar de viver quase que cem por cento do tempo em total isolamento. Conversava com poucos outros presos por cerca de uma hora por dia quando eram autorizados a ir ao pátio, mas Harry não era exatamente o tipo de homem que tinha lá muito assunto com outros prisioneiros, que certamente não tinham nem metade do QI dele.
Era bem verdade que ele até sentia-se bem servido sexualmente falando, já que tinha seus casos com alguns outros encarcerados, mas nada sério ou significante. Achava até graça como essas situações mudavam as pessoas. Ele não era um homem que se apegava a absolutamente ninguém, não sabia o que era ser apaixonado por uma pessoa ou de realmente se importar com os outros. Harry Styles era o famoso caso de órfão que aprendeu na marra a cuidar e se importar única e exclusivamente com ele mesmo. O que contrastava com isso — ou, há quem diga, o complementava — era o fato de ele ser um homem sarcástico, irônico, sem medo das consequências e que, não importando como, tinha uma necessidade absurda de fazer algo grande. O enlouquecia a ideia de passar por esse mundo sem ter impactado a vida dos outros de alguma forma — pra ele pouco importava se essa forma fosse negativa.
Ele tinha acabado de voltar do pátio e cheirava a cigarro — dele mesmo e dos outros. Seu uniforme laranja estava limpo, mas com alguns fios soltando e um pouco desbotado. Andou pelo corredor e logo foi abordado por um policial quando estava a caminho de sua cela. O lugar não estava lotado, muito pelo contrário, estava silencioso e Harry podia ouvir os barulhos de metal dos portões sendo abertos e fechados, bem como as portas pesadas, correntes e, de vez em quando, um chiado com códigos sendo ditos nos rádios que os policiais e carcereiros tinham presos ao ombro.
— Styles. — O policial disse no momento que o impediu de continuar andando. — A Scotland Yard está esperando. — Ele disse em seguida que viu a expressão surpresa de Harry se transformar num sorriso largo, sem mostrar os dentes, como se tivesse acabado de receber um trunfo, uma vantagem, mesmo que não soubesse do que aquilo poderia se tratar. — Informo que não é obrigado a recebê-los se não quiser. — Ele finalizou sem muita emoção, mas já sabia que Styles iria aceitar a visita. Ele esperou alguns segundos antes de responder, como se realmente precisasse pensar naquilo.
— Louis está aqui? — Ele perguntou com certa i********e, o que era natural, mas ao mesmo tempo não escondia a notável petulância em tratar um agente federal pelo primeiro nome.
— O Comandante Tomlinson, você quis dizer. — O policial o repreendeu, mas não surtiu efeito. Harry não poderia se importar menos com aquilo. Era seguro dizer que talvez ele nem tivesse prestado atenção. — Três agentes estão esperando.
— Louis está aí ou não está? — Harry maneou a cabeça pra trás, puxando os cachos escuros e prendendo-os numa espécie de coque pequeno. Suas madeixas estavam mesmo maiores do que ele tinha percebido.
— Está. — O policial respondeu já impaciente, movimentando as algemas de uma mão para a outra. Caso Harry aceitasse, ele seria algemado nos pés e nas mãos para receber a visita.
— Eu não quero ver ou falar com ninguém. Só se for com ele. — Harry, que claramente não tinha a liberdade de fazer qualquer tipo de escolha devido a estar onde estava, então não iria desperdiçar qualquer oportunidade que fosse de exigir o mínimo possível quando era lhe dada a chance. — Só com Louis. — Ele reforçou abrindo o sorriso debochado e estendeu as mãos já sabendo para que as algemas seriam.
O policial informou algo pelo rádio enquanto algemava Styles referindo-se à escolha do prisioneiro. Para Louis, que ouviu atentamente a solicitação, aquilo realmente lhe pareceu óbvio, até esperado. Devido às circunstâncias, ele sabia que sua conexão com Harry era maior do que a com qualquer outro policial e ele iria sim querer o deleite de ficar frente a frente com o responsável pela sua apreensão.
Os agentes Payne e Malik, mesmo a contragosto, se retiraram de onde estavam, na pequena sala privada de visitas em que Louis esperava por Harry. Após uma breve discussão sobre o fato de Harry não estar em posição de pedir coisa alguma, os dois deram-se por vencidos quando notaram que Louis já sabia que aquilo aconteceria — e os lembrou do motivo de não querer que eles viessem sozinhos. Styles era um homem complicado, de difícil percepção e convivência, e o que era para ser algo que incomodaria a maioria das pessoas, ele via que Louis o compreendia de uma maneira transcendental. Durante toda a investigação, Louis se atirou de cabeça naquele abismo monstruoso que cercava a cabeça de Harry Styles e conseguiu, a duras penas, entrar no psicológico do hacker mesmo que aquilo quase tivesse custado sua própria sanidade metal.
Não fazia muitos anos mas também não havia sido há pouco tempo. Louis sentou-se na cadeira de plástico fria e pouco confortável, apoiando os cotovelos na mesa. Não havia uma iluminação muito boa, mas a janela pequena e alta permitia que a luz do sol fraco entrasse pela grade dando um cenário quase macabro pra aquilo. Prisões davam eco, eram frias e lembravam os sons de castelos medievais com correntes batendo no metal.
A porta fez um estrondo alto, mais devido ao silêncio do que ao movimento da chave e da tranca se movendo. Louis levantou os olhos azuis numa surpresa controlada, mas permaneceu sentado. O que viu em seguida, o fez perder o fôlego por alguns segundos.
Não via Harry Styles desde o dia de seu julgamento e não deixou de notar que, apesar do cabelo estar maior e preso agora, ele não parecia ter envelhecido um dia sequer — ao contrário de Louis, que deixou seu trabalho sugá-lo a ponto de realmente ele aparentar ser mais velho do que era. Os trinta anos de Harry Styles passariam despercebidos àqueles que não sabiam sua idade.
— Comandante, é? — Harry foi o primeiro a quebrar o silêncio quando sentou-se de frente para Louis e o policial se retirou. — Parece que me prender rendeu uma estrelinha dourada na testa. — Ele quase riu, mas limitou-se apenas a sorrir aberto, mostrando os dentes um pouco amarelados pelo cigarro. Louis não esboçou reação imediata, apenas grudou seus olhos em Styles como se pudesse ler sua mente.
— Estou aqui para fazer um acordo e não pretendo demorar. — Louis recomeçou passando uma das mãos pelos cabelos, fingindo não dar atenção à ironia do hacker à sua frente.
— Ah... — Harry franziu o cenho numa expressão teatral, como se fingisse um desapontamento. — Pensei que estava com saudades. — Ele acrescentou e voltou a sorrir ao ver Louis ainda mais enfezado. Poderia fazer aquilo o dia inteiro. — Como está Eleanor? — Harry provocou referindo-se à ex-noiva de Tomlinson, que o deixou na época das investigações contra Harry. De fato o agente havia deixado sua vida pessoal tão de lado a ponto de ter perdido a própria noiva. O tom provocativo não surtiu exatamente o efeito desejado, mas Louis não escondeu o desgosto de ouvir aquilo, embora tentasse fingir que não o atingiu.
— Talvez você não ache tanta graça se eu disser que temos um hacker limpador de contas bancárias que desenvolveu um software para isso muito melhor do que o seu. — Louis disse orgulhoso, cruzando os dedos das mãos sobre a mesa. Ele tentou soar casual, mas falhou ao esconder m*l o sorriso. Era realmente bom ver um Harry Styles atônito à sua frente ao ouvir aquilo. Ele não iria suportar questão nenhuma que envolvesse concorrência ou até mesmo alguém mais esperto do que ele.
— De quê está falando? — O moreno alto bateu sem querer as algemas na mesa assim que se inclinou para ouvir a explicação de Louis. Tomlinson então percebeu que o tinha nas mãos novamente e relaxou os ombros, encostando-se na cadeira.
— É isso mesmo que você ouviu. — O agente reforçou. — Estamos tendo mais trabalho com ele do que com você. — Ele sorriu aberto como se aquilo realmente fosse uma piada.
Harry sentiu o encosto frio da cadeira quando tentou ajeitar-se de maneira mais confortável. Claro que ele estava ligeiramente incomodado por ter de fato sido informado que alguém melhor do que ele pareceu ter ocupado seu lugar "na praça", mas a aventura de tentar pegar quem havia feito aquilo, era ainda mais atraente. Styles conhecia todos os bons hackers ao redor do mundo, não lhe parecia possível que aquilo se tratasse do trabalho de alguém que ele não conhecia. Sabia muito bem que muitos daqueles hackers não eram bandidos, não eram poucos os que haviam se rendido a trabalhar com empresas de segurança cibernética e até mesmo na criação de vírus e quebra de sigilos eletrônicos apenas para testes em empresas de seguro ou proteção ao cliente.
Mas o que Harry havia feito anos atrás, era mais do que roubar contas. Era mais do que desenvolver o cérebro eletrônico dos equipamentos. Envolvia muito mais que tudo aquilo: envolvia habilidades sociais e poder de convencimento. Coisas que Louis demorou para entender quando investigava o caso.
— E os rastreios? Caem onde? — Harry perguntou franzindo o cenho, voltando a inclinar-se na direção de Louis, realmente mostrando-se interessado no assunto.
— Não há rastreio. — Louis respondeu abrindo uma ficha em frente a Harry para que ele lesse o procedimento e avanços das investigações. — O Limpador não deixa pistas, não há traços digitais para serem seguidos.
— Isso não é possível. — Harry fechou o arquivo. Estava totalmente cético.
— Aparentemente é. — Louis respondeu quase provocando.
— Não é possível, Louis. — O hacker insistiu em sua colocação. — Você é engenheiro, sabe muito bem que isso não existe. Uma vez na rede, sempre na rede. — Styles dizia convicto, achando que Louis o estava testando. Franziu o cenho antes de continuar. — Quer minha ajuda para pegar esse cara?
— Quero. — Louis respondeu ficando sério e achando um tanto interessante que Harry não pareceu relutar tanto pra aquilo. — Se aceitar nos ajudar, posso liberar que seu advogado faça seu pedido de condicional usando meu testemunho a seu favor sobre esse caso. — Louis disse calmamente mas, do outro lado da sala, onde as câmeras registravam o ocorrido sendo assistidas por Liam e Zayn, ambos m*l conseguiam acreditar naquilo.
Harry sorriu de canto e olhou Louis por vários segundos antes de realmente responder. Ele não parecia estar ali para barganhar, aquilo não poderia ser uma oferta inicial. Styles achou realmente estranho que Louis, logo de cara, fosse oferecer uma das coisas talvez mais preciosas para o tempo encarcerado de Harry: uma espécie de liberdade nada tardia.
— Certo, qual é a pegadinha? — Harry sorriu mais aberto estreitando os olhos e viu Louis encarar as próprias mãos na mesa. Apesar de ter sido uma relação conflituosa, uma brincadeira de gato e rato constante durante o tempo que Harry estava na ativa, ele sabia bem quando Louis estava blefando, apesar de entender que Louis era um grande jogador de pôquer. Essa indecisão sobre confiar nele ou não era o que enlouquecia Styles.
— Não tem pegadinha. — Louis respondeu encarando os olhos escuros desconfiados do outro. Estava de fato dizendo a verdade. O que não poderia era se dar ao luxo de esperar negociar e nem depender da boa vontade daquele homem à sua frente com o cabelo preso de um jeito esquisito. — Pode ter minha assinatura a hora que quiser. — Tomlinson reforçou ajeitando a gravata e pegando a ficha de cima da mesa. — O que me diz?
Harry Styles não era exatamente o tipo de homem que confiava nas pessoas — por vezes não confiava nem nele mesmo. Mas sua relação anormal com o agente federal era algo que ele também não havia tido com ninguém antes. A forma singular com a qual Louis o encarava mostrava um confuso sentimento de respeito e admiração, ao mesmo tempo que a impaciência crescia nas micro-expressões de Tomlinson, era quase orgasmico para Harry dar-se ao deleite de deixar aquele homem à mercê de ter de pedir ajuda à última pessoa que gostaria na face da terra.
— Certo. — Harry respondeu de forma a fazer Louis respirar como se tivesse voltado á superfície da água após estar imerso por mais tempo que poderia. — Mas se eu descobrir que isso é algum tipo de truque, Louis... — Não que Harry fosse um homem violento, mas ele perdia a cabeça com certa facilidade. Nunca tinha carregado uma arma na vida ou sequer sabia atirar, mas seu pavio curto era traço conhecido de sua personalidade. — Vou terminar de f***r com esse caso nem que eu fique na cadeia o resto da vida. — O tom foi claro de ameaça apesar da passividade no tom de voz.
Louis sorriu de canto como se não quisesse dar credibilidade àquilo, mas Harry percebeu que ele não tinha nenhum tipo de apreço por deixar transparecer que Harry o conhecia bem demais. O agente levantou-se ajeitando os papéis nas mãos.
— Quando vou te ver de novo? — Styles provocou voltando a sorrir aberto e, de maneira a deixar Louis completamente desconfortável, ele checou o agente dos pés a cabeça, passando a língua pelos lábios.
— Guarda. — Louis gritou para que o homem entrasse e levasse Harry de volta. Ele não respondeu à pergunta mas, mesmo que quisesse apenas retribuir a provocação, olhou para Harry do mesmo jeito que o outro havia feito.
— Foi realmente muito bom ver você, Louis. — Harry disse ao levantar-se para acompanhar o guarda de volta à sua cela. — Payne e Malik, acho que vejo vocês em breve também. — Ele riu falando mais alto como se soubesse perfeitamente quem estava ali assistindo pelas câmeras.
Louis revirou os olhos enquanto saía, ouvindo o que o outro dizia parecendo se divertir muito com tudo aquilo. Tomlinson sabia que teria muito a ouvir dos outros dois assim que voltassem a se reunir e, principalmente, explicar a eles de onde aquela decisão sobre testemunhar a favor da condicional de Harry tinha saído. Não era, de fato, a ideia original quando ele decidiu por fazer aquilo, mas teve certeza que procuraria por algo que Harry não pudesse negar. Talvez seu superior ainda fosse ficar uma fera com aquilo, mas ele estava pouco se importando: nada pra ele era mais importante do que fechar aquele caso, nem que precisasse facilitar de maneira significativa a vida de Harry Styles, o homem que indiretamente quase arruinou sua vida e sua carreira.
— O que é que foi aquilo? — Payne foi o primeiro a se manifestar quando os três deixaram o presídio e voltavam juntos ao carro. Apesar do tom de voz confuso do amigo, Malik permaneceu calado como se buscasse, dentro daquela discussão que não os levaria a lugar algum, a oportunidade perfeita para dizer o que pensava.
— Sabe que confio em você e no trabalho profissional que faz, ainda aprecio-o como meu amigo pessoal, Liam mas... Nada disso lhe diz respeito. — Louis foi calmo, mas extremamente honesto e decidido.
— Se tinha isso em mente arquitetado e se vai bancar o chefão que não gosta de ser contrariado, por que p***a nos trouxe com você? — Liam atravessou-se na frente de Louis conforme eles andavam. A fama de ser um sujeito ligeiramente agressivo sempre precedia Liam Payne.
— Certamente não foi para pedir aprovação de ninguém. — Louis franziu o cenho respondendo no mesmo tom apesar de controlar o tom de voz. — Estão aqui para me ajudar e já está julgando sem nem ao menos entender como e porque fiz isso, Liam. — Apesar do autoritarismo evidente, ele agora soava como quem pedia compreensão. — Tem mais coisas sobre essa investigação que vocês não sabem, mas pretendo colocá-los a par. — Tomlinson finalizou com tranquilidade e viu Liam suspirar um pouco frustrado mas percebendo que não estava em posição de questionar coisa alguma
Zayn, que permanecia calado como se quisesse entender de fato o que Louis havia feito — ou, como ele estava desconfiando, pensava que havia feito — colocava em ordem seus pensamentos antes de opinar. Era um homem mais ponderado e menos impulsivo que Liam porém ainda assim tinha igualmente suas dúvidas quanto às intenções de Louis perante àquela recente atitude sobre Harry.
Os três entraram no carro e, apesar de uma breve discussão ente Tomlinson e Payne sobre o caso em si, a ansiedade de Liam colocava Louis sobre pressão constante para que contasse a eles de uma vez o que estava acontecendo. Louis, por sua vez, apenas pedia calma e que não conversassem sobre aquilo no carro. Malik trocou olhares cúmplices com seu ex-parceiro ao mesmo tempo que pedia calma e prudência ao atual, que dirigia o carro numa velocidade desnecessária enquanto voltavam para o edifício-sede da Scotland Yard, há cerca de meia hora da penitenciária que tinham acabado de deixar.