Tiger, tiger

4984 Words
Passava das dez horas da noite quando Louis entrou em casa, tomou um banho rápido e, usando um confortável roupão branco, foi até a cozinha e serviu-se de uma generosa quantidade de vinho branco numa taça de cristal. Ele fechou a garrafa e tomou o primeiro gole como quem apreciava um prêmio que tinha acabado de ganhar. Ele respirou fundo e, apesar de não ter feito seus habituais exercícios físicos, sentia cada músculo de seu corpo doer, fosse pela adrenalina que foi seu dia, fosse pela ansiedade de ver aqueles olhos verdes não mais tão escondidos pelos cabelos de hoje a tarde. Olhava a bonita vista de seu apartamento no centro de Londres quando teve seus pensamentos interrompidos por batidas na porta. Chegou o relógio novamente e achou estranho que alguém viria aquela hora. Deixou a taça em cima do balcão de madeira polida na cozinha e andou a passos um tanto apressado para abrir a porta, só o fazendo quando chegou pelo olho mágico quem era. Zayn entrou no grande cômodo que estava com uma baixa iluminação devido ao horário e tirou o casaco do terno. Louis andou de volta até a cozinha, servindo uma taça de vinho ao amigo que dizia algo sobre o frio que estava fazendo lá fora — não que Tomlinson estivesse prestando muita atenção, até porque sabia o que Malik estava fazendo ali. — Desculpe a hora, sei que está cansado. — Malik disse diante do silêncio do outro, já sabendo que ele não gostava de rodeios ou conversas sem propósito. — A ideia foi sua e do Liam. — Louis deu início à conversa já que Malik parecia querer enfeitar um pouco antes de falar. — Não entendo essa recriminação toda. — Ele concluiu e tomou mais um gole de seu vinho sentando-se no sofá branco bem cuidado da sala de estar, que tocava o jazz da americana Mary J. Blige num volume quase imperceptível a ouvidos não atentos. — Louis, esse não é o problema. — O moreno de olhos calmos tinha um brilho diferente sentado ao lado de Tomlinson, que evitava olhar em seus olhos como se tivesse medo de revelar coisas que nem ele sabia que tinha. — Você deu um lance muito alto. Perdeu sua noiva, quase perdeu seu emprego e praticamente meio ano de vida correndo atrás desse cara, para agora ajudá-lo a sair? — Não é nada disso. — Louis fez uma careta bufando cansado. Tomou um gole grande de sua bebida e sentiu seu corpo relaxando quase que de uma maneira forçada, como se perdesse um pouco do controle sob os formigamentos nos braços causados pela bebida. — Eu só não quis perder tempo, queria que ele aceitasse logo. Estou sob pressão aqui e você sabe bem. — Ele disse sem muita credibilidade e Malik percebeu. Zayn era um excelente observador e achou que poderia fazer Louis enxergar a situação por si mesmo, mas não parecia que aquilo iria acontecer tão cedo. — Está querendo mesmo pegar esse cara ou só quer passar mais tempo ao redor de Styles? — Malik foi direto e reto. Não tinha espaço para as teimosias eventuais de Louis, que era mestre em inventar desculpas para as coisas mais óbvias. — De que está falando? — O homem de roupão branco pôs a taça sobre a mesa de centro e apoiou os cotovelos nos joelhos, inclinando-se na direção de Zayn. — Por que eu iria querer passar tempo com alguém como Harry Styles? Eu relutei desde o início dessa investigação em chamá-lo. — Eu sei. Mas eu vi você lá dentro, Louis. — Apesar do tom ligeiramente agressivo do amigo, Malik permanecia calmo e convicto de sua opinião. — Acha que me engana? Fomos parceiros por anos demais, era meu trabalho te conhecer bem. — Zayn explicou como se aquilo fosse mesmo óbvio. — Você vivia para resolver aquele caso, se tornou a sombra de Harry e acho que demorou para se desfazer disso, se livrar dele. — Malik tinha uma certa perícia ao falar, já que conhecia Tomlinson tão bem quanto a palma da mão. — Styles era parte de você, parte da sua obsessão... Eu vi o quanto demorou para desvencilhá-lo de quem você é e de como seu trabalho não se resumia a prendê-lo. — Zayn... — Gostou de vê-lo. — Malik interrompeu o colega e amigo, mesmo sabendo que a cabeça de Louis dava voltas àquela altura. — E foi irracional na proposta só porque ficou com medo de deixar transparecer seu desespero de querer que ele aceitasse logo de primeira. Conheço você, Louis, pode fugir de si mesmo se quiser, mas não vai conseguir mentir pra mim. — Veio até meu apartamento somente para discutir questões relativas à uma suposta obsessão minha por Harry Styles? — Louis disse quase provocando, mas tentava permanecer o mínimo sociável naquele momento, mantendo o nível amigável do assunto mesmo que, aos seus ouvidos, tudo que Zayn dizia fazia cada vez menos sentido. — Ele está preso e vai nos ajudar. Ele precisa ter uma compensação por isso, é somente questão de lógica. — Tomlinson agora praticamente se defendia. — Esse homem te cega, Louis. — Malik continuava apesar dos ares conformados que Tomlinson não veria aquilo nem que os argumentos lhe fossem esfregados no nariz. — Eu lembro muito bem do quanto não era você mesmo quando estava perto de pegá-lo. Só quero que tome cuidado. — Malik agora se dirigia até a porta e, mesmo tento certeza que não tinha sido boa ideia afrontar o amigo daquela forma, sentiu que precisava ser feito e não se arrependia. Conhecia Louis e ao menos teve certeza de que conseguiu fazer com que o amigo simplesmente cogitasse pensar naquilo, nem que o mantivesse acordado a noite toda. Louis não o impediu de ir embora quando o moreno alto abriu a porta segurando seu terno sobre o ombro direito. Ele sabia que Malik tinha aquele poder insano de mexer com sua cabeça, de fazê-lo acreditar em algo que antes nem cogitava existir. Ele deu o último gole em seu vinho e pôs as taças de qualquer jeito em cima da pia da cozinha. Não era um bom dia para pensar demais, pensar cansava. Ele precisava deitar mesmo que não fosse dormir, o escuro do quarto era mais fácil de assimilar do que o escuro de sua consciência e percepção. Maldito Harry Styles, seu sorriso infantil e cabelo desgrenhado. x.x.x Quando Zayn chegou em casa, estava mais cansado de pensar no trabalho do que no trabalho em si. Às vezes lhe escapava a lembrança de que Louis era um sujeito teimoso e por vezes cheio de si, que não enxergava o que estava bem à frente, mas enxergava o que queria. Ele sabia que Harry tinha mexido com ele de tal forma que era provável que nenhum outro humano conseguiria. Era intenso, profundo e capaz de pegar em veias que Louis nem sabia que tinha. Ele não conseguia explicar nem mesmo que tentasse, e Zayn sempre achou que não seria nada fácil pra ele passar por aquilo tudo de novo, mesmo tendo certeza de que Louis sabia daquilo e não queria admitir. Posar com cara de que está tudo bem, está tudo certo, era um dos motivos pelos quais Louis era chefe do Departamento: ninguém lidava melhor com a imprensa do que ele. — Onde estava? — A voz de Liam Payne soava dentro daquele apartamento dando tanto eco que Zayn quase sacou sua arma das costas, como reflexo ao constante estado de alerta. Ele fechou os olhos e respirou fundo se acalmando rapidamente quando reconheceu quem era. — O que está fazendo aqui? — Ele perguntou como se não tivesse prestado atenção no que Liam havia dito. Tirou o sobretudo preto colocando-o no cabideiro perto da porta e, com passos lentos, foi ao encontro do outro. — Não me avisou que viria passar a noite. — Vim com essa intenção. — Liam respondeu sem desfazer a ligeira cara amarrada. O caso dos dois datava já de seis meses e se davam por satisfeitos se não levantassem suspeitas apenas. — Mas já que demorou tanto, melhor eu ir embora agora antes que fique mais tarde. Sem muita pressa, Liam andou até o sofá de couro preto da sala não muito grande do apartamento de Zayn e pegou seu terno e a gravata, que havia tirado. O fogo da lareira estava aceso e duas taças poderiam ser vistas em cima da mesa de centro, bem como meia garrafa de vinho. De relance, quando Zayn viu tudo aquilo, percebeu que Liam provavelmente já estava ali há um tempo esperando por ele e, pela quantidade de bebida sobrando, soube que ele certamente ficou entediado. — Liam... — O moreno alto que tinha um poder absoluto quando se tratava de acalmar os nervos de alguém, seguiu o namorado até o sofá da sala, pondo as duas mãos sobre os ombros dele, mesmo que de costas. — Não comece, por favor... — Começar o que? — Liam virou-se abruptamente, já era de conhecimento total de Zayn o ciúmes que aquele homem sustentava desde o começo da relação. Especialmente quando se tratava da amizade de Louis com Zayn. — Eu nem sei porque pergunto onde estava, sendo que claramente dá pra ver na sua cara que você foi ver Louis. — Ele disse se afastando enquanto Zayn apenas suspirou cansado, mas mantendo a paciência. Essa arte de domar aquele tigre raivoso chamado Liam Payne era algo que ele vinha melhorando com o tempo. — Fui. — Zayn disse por fim, fazendo Liam parar de andar em direção à porta apenas para ouvir. — E não tenho absolutamente nenhum motivo para mentir pra você. Fui vê-lo, estava preocupado, e ainda estou, com a sanidade mental dele, de ter Harry Styles de novo por perto. — Malik tinha a calma numa medida tão certa que fez até Payne relaxar os ombros ao ouvir aquilo. — Não há motivos, Liam, não há motivos para você continuar insistindo em bater nessa tecla toda vez que me ver falando com Louis. Ele é seu amigo também, ele é nosso chefe. — Aos poucos, conforme falava e explicava como se conversasse com um menino rabugento de cinco anos, Zayn Malik testava o namorado tocando seu braço devagar, até o segurar em uma de suas mãos. — Desculpe se o fiz esperar, mas eu não sabia que estaria aqui. — Ele concluiu de uma forma tão elegantemente óbvia que foi capaz de fazer Liam realmente sentir-se culpado por incitar qualquer briga. Payne passou uma das mãos pelos cabelos curtos e cobriu os olhos suspirando antes de virar-se de frente para o namorado, que apenas o encarava de um jeito carinhoso, compreensivo, como se realmente falasse sério ao dizer cada uma de suas palavras. Liam sentiu-se momentaneamente um dos homens mais injustos que pisavam sobre a face da terra. — Desculpe. — Ele sussurrou segurando o rosto de Zayn por alguns segundos antes de beijá-lo lenta e demoradamente. Zayn correspondeu sorrindo tirando o terno e a gravata das mãos de Liam. — Eu sou um i****a. — É, você é. — Zayn brincou fazendo o outro rir com a testa colada na dele. — Gosto mais quando sorri pra mim do que quando me olha querendo me matar sem motivo aparente. Liam sorriu e pensou naquilo por um longo tempo antes de responder. Com Zayn, ele tinha essa espécie de comunicação telepática, onde sabia sempre que poderia passar o dia inteiro encarando aqueles olhos castanhos enormes sem dizer uma palavra e ainda assim não haveria nenhum tipo de estranheza. Malik o acalmava, o moldava e tinha quase uma magia ao redor de si capaz de despertar sempre o melhor lado de Liam Payne, que não era um lado exatamente sempre visto por todos ao redor dele. — Eu te amo, Zain Javadd Malik. — Ele disse fazendo o namorado rir. Era sempre engraçado o tom de seriedade que Liam tentava dar às situações quando chamava Zayn pelo nome completo. — O que eu faria sem você? — É bem provável que já teria tomado um tiro na cabeça, graças a esse seu temperamento maravilhoso. — Zayn dizia despreocupado, mas aquilo era provavelmente verdade. Liam tinha mudado significativamente após terem começado a trabalhar juntos e começado o relacionamento. — i****a. — Liam não conteve o riso e abraçou o namorado por longos segundos. — Falo sério, me desculpe por sempre querer controlar tudo assim... Querer controlar você, me sinto infantil depois que retomo consciência disso as vezes. Você mexe comigo. — Está tudo bem. — Zayn respondeu enquanto Liam o segurava pela mão andando até a sala. Os dois sentaram no chão, sobre o tapete preto e branco em cortes retangulares desiguais. — Não quero que se sinta assim, quero só que confie em mim e pare com esse ciúmes sem sentido de mim quando estou com Louis. — Não é sem sentido. — Liam serviu uma taça de vinho ao namorado quando sentaram-se perto da mesa. Ele referia-se ao fato de saber que Zayn já nutriu no passado sentimentos por Louis quando eram parceiros. Segredo confesso do próprio Zayn apenas para Liam, já que Louis nunca tinha ouvido uma palavra sobre aquilo. — Já fazem muitos anos, Liam, por favor. — Zayn tinha o mesmo olhar compreensivo enquanto acariciava a nuca do outro. — Falamos tanto disso nos últimos meses que achei que tivesse entendido que nunca aconteceu nada e não me interessa mais. Não é como se você nunca tivesse se apaixonado antes. — Eu sei, mas não trabalho com ninguém com quem já me relacionei, tampouco são amigos próximos. — Payne rebateu tentando argumentar de maneira a embasar seus motivos em algo sólido e parecia mais interessado em convencer a si mesmo de que seu próprio comportamento fazia sentido. Mais do que para Zayn, não queria ser o "cara que tem ciúmes a toa", mas era muito difícil pra ele se imaginar sem o outro. Malik exercia uma força quase que vital quando estava presente, Liam sentia precisar dele numa intensidade desesperada. — Liam, podemos trabalhar num departamento inteiro de ex-namorados e namoradas que tive. — Malik sorriu aberto, quase gargalhou ao ver a expressão de pânico nos olhos de Liam, que franziu o cenho como se afastasse qualquer insanidade como aquela da sua vida. — Nunca ninguém ocupará o lugar que você ocupa, eu não quero mais ninguém. Por favor, entenda isso e pare de brigar comigo. — Zayn disse numa forma real, não eram apenas palavras vazias, não eram apenas frases feitas para surtir o efeito esperado. Ele realmente queria dizer tudo aquilo e colocava em prática diariamente. Ele sabia que Liam não tinha problemas em acreditar nele ou em confiança, tudo acontecia de uma forma distorcida na mente de Payne e Zayn sabia. A possessividade e uma certa insegurança quanto ao que tinha a oferecer para Malik, faziam Payne constantemente se sentir à prova, mesmo que colocado por ele mesmo. Para Zayn, as coisas iam bem, o moreno alto não tinha absolutamente nenhuma reclamação e achava que o Liam não era apenas bom o suficiente, como muito mais do que ele esperava. — Está falando muito, agente Payne, e me beijando pouco. — Zayn brincou tirando a taça das mãos de Liam, que riu com a colocação percebendo que realmente não estava ali para discutir relação. Zayn imediatamente começou a beijá-lo sem a menor pressa para coisa alguma. Aproveitava todo e qualquer momento que tinha ao lado do namorado, que algora mais relaxado, o puxava contra si fazendo Zayn sentar-se em seu colo. Ajudou-o a tirar o terno e a gravata, deixando-o mais a vontade, sem descolar os lábios. Liam nunca foi um homem muito romântico com relação à gestos, mas com Malik, era tudo diferente. Ele gostava de sentir os toques, o gosto da língua, o cheiro da pele e a barba do outro roçando em seu rosto. O segurava pelo quadril sem necessitar que aquilo fosse s****l ou que levasse à sexo em qualquer lugar, mas simplesmente para poder senti-lo seguro, perto e ouvir sua respiração, podendo tocar seu peito e provocar arrepios em suas costas. Liam amava as costas de Zayn. Era uma noite típica no apartamento de Malik, nada daquilo era novidade, mas ao mesmo tempo, não havia virado rotina. Ainda lembrava-se da noite de chuva torrencial no outono londrino quando Liam bateu a sua porta, encharcado pela água e respirando como se m*l conseguisse encher seus pulmões de ar. Zayn abriu a porta com cara de espanto, especialmente porque Liam tentou fingir uma casualidade teatral tão m*l feita, que não foi difícil para ele perceber que Payne estava, assim como ele, completamente apaixonado. .x.1D.x. A principal sala de conferências da Scotland Yard estava lotada de pessoas, completamente preenchida com seus melhores agentes e um grupo de policiais, profilers do centro comportamental e alguns profissionais da Segurança Nacional Britânica. Não era intenção de Louis criar alarde com aquilo, mas as coisas estavam, aos poucos, voltando aos eixos desde que a busca pelo Limpador havia começado. Num canto específico da sala enquanto todos se acomodavam, Louis conversava com seu superior, Oliver Declan, um homem n***o extremamente bem vestido que usava óculos com aros finos e beirava os cinquenta anos. Louis parecia receber instruções mas não estava muito interessado em ouvir o que estava sendo dito. Segurava um maço de papéis como se já tivesse o próprio script pronto. Estava sério e olhava o público de maneira inexpressiva, muitos tomavam nota e conversavam sobre o caso em si. Foi apresentado à algumas pessoas e colaboradores de outros setores policiais e, finalmente quando a imprensa foi autorizada a entrar na sala, ele foi até o meio do cômodo, onde um púlpito havia sido colocado assim como alguns slides que ele passaria enquanto explicava o caso. Ele andou até onde deveria se posicionar e colocou os papéis sobre o púlpito, que continha o símbolo da Scotland Yard em frente. Algumas fotos eram tiradas e o silêncio ia se instaurando aos poucos. — Bom dia a todos, gostaria de agradecer por estarem aqui. — Ele disse pigarreando em seguida. Tinha segurança e confiança na voz. — A Scotland Yard gostaria de atualizar todos sobre a nossa investigação em relação ao caso do Limpador, estamos fazendo progressos e precisamos continuar contando com a colaboração de todos. Agradeço à Polícia de Londres e o trabalho investigativo fundamental da imprensa. — É verdade que Harry Styles está no caso? — Uma moça loira com crachá de um famoso jornal britânico apontava o celular para Louis, como se estivesse gravando a resposta dele. — Ainda não abrimos para perguntas. Gostaria de fazer alguns esclarecimentos antes. — Ele tentou novamente prosseguir sem dar a entender que enrolaria no assunto Harry Styles o máximo que conseguiria. Apesar de estar preparado para aquilo, a última coisa que ele precisava era que o assunto ficasse focado no criminoso que ajudou a prender anos atrás. — A conversa que circula nos corredores da Polícia Metropolitana é de que Harry Styles conseguiu um bom benefício por ajudar nesse caso. — Outro jornalista voltou a interromper Louis. — Isso é verdade, Comandante? Louis percebeu naquele momento que qualquer firula que ele tentasse realmente seria totalmente inútil. As pessoas não queriam saber de seus recursos, suas ideias e seu processo de investigação: queriam saber se Harry Styles estava no prédio ou não. E a última coisa que ele precisava era de Styles se achando o próprio Elvis Presley em termos de celebridade. Ele suspirou, olhou para seu superior, o Delegado Oliver Declan, que apenas o encarava com o típico olhar de quem constantemente colocava Tomlinson em situações que precisava provar que merecia o cargo que tinha. — Sim. — Louis respondeu deixando seus próprios papéis de lado. Eram inúteis àquela altura. — Me foi sugerida a participação do senhor Styles para resolver esse caso e ele, de muito bom grado, aceitou. — Era óbvio que Louis começaria com meias-verdades, não ia ser tão simplesmente fazer a imprensa entender a importância real do que aquilo significava se apenas ficassem especulando que Harry teria realmente um benefício que muitos não aceitariam que ele tivesse. — Comandante, já existem suspeitos? Styles conhece o Limpador? — Foi a pergunta de uma repórter do jornal The Sun. — Não estamos certos ainda, mas o sistema nos levará ao criminoso, e é por isso que apreciamos a ajuda do senhor Styles, que como todos sabem, tem conhecimentos tanto de pessoal quanto da área. — Louis respondeu num tom diplomático e sabia que, o assunto uma vez aberto, iria lhe tomar a manhã inteira. — Vai ser possível falarmos com Styles? — Um homem de óculos perguntou como se fosse a pergunta mais esperada daquele dia. Todos os olhos da imprensa estavam voltados para um Louis Tomlinson que não tinha certeza se iriam gostar daquela resposta ou não, afinal a última coisa que ele precisava agora era um bando de jornalista querendo "uma exclusiva" com Harry Styles, apenas para acabar massageando seu ego ainda mais. — Não. — Tomlinson foi seco e soube que aquela era sua deixa para acabar com as entrevistas. — Senhor Styles não estará disponível para a imprensa, apenas para a polícia e os órgãos federais. — Ele concluiu e uma sucessão de pessoas falando ao mesmo tempo o bombardeavam com perguntas as quais ele não estava se dando ao trabalho de prestar atenção. — Por enquanto é só, obrigado. — Ele deixou o púlpito sob protestos de alguns repórteres, que tinham mais perguntas e tentavam reivindicar o acesso à Harry, acesso esse que, no que dependesse de Tomlinson, jamais teriam. Em seu lugar, o Delegado Declan tomou a palavra respondendo perguntas de cunho administrativo usando frases prontas como respostas, apenas para acalmar os ânimos dos presentes. Louis entrou numa sala separada já longe de onde o barulho e a confusão se instaurava. A sala de conferências ficava no andar de cima onde seu escritório originalmente ficava e, assim que entrou, já sabia quem estava lá. Dois policiais escoltavam um Harry Styles mascando chicletes, com os cabelos presos e vestindo roupas que não lembravam um condenado à mais de trinta anos de prisão. — Posso saber qual a necessidade disso? — Harry foi quem começou a conversa assim que Louis fechou a porta. Ele referia-se ao fato de ainda estar algemado. Tomlinson trocou olhares com um dos policiais, como se autorizasse-o a tirar as algemas barulhentas de Harry. O policial assim o fez e ambos se retiraram a pedido do próprio comandante, que estava agora sentado ao lado de Harry, que vestia um jeans surrado e um suéter vermelho. Louis grudou os olhos na boca de Styles meio que involuntariamente quando ele fez uma bola de chiclete estourando em seguida. — Jogue isso no lixo. — Louis disse tirando os olhos do outro e ligando seu laptop, colocando-o na mesa em frente a Harry. — Sei que estou preso há muito tempo, mas não lembro de mascar chiclete configurar crime. — Harry provocou num tom sarcástico. Riu mais da cara amarrada de Louis do que da própria piada. — Joga essa merda fora. — Louis não era de perder a paciência e nem muito menos deixar seu temperamento afetar com algo tão trivial. Mas todas as suas regras não chegavam nem perto de se enquadrar às atitudes de Harry Styles. Styles não se incomodou apesar de ser um deleite absoluto pra ele irritar Tomlinson a ponto de fazê-lo usar um palavrão apenas para dar ênfase no quão algo tão insignificante o afetava. O moreno alto levantou-se de onde estava e jogou o chiclete numa lata de lixo perto da porta. Movimento esse acompanhado pelo olhar cuidadoso do Comandante, que esperava pacientemente seu próprio laptop ligar. — Conte-me sobre esse cara, Louis. — Styles disse e novamente sentiu uma onda de irritação vinda de Louis, que não gostava quando Harry o chamava pelo primeiro nome. Naquela manhã, no entanto, antes de sair de casa, prometeu que não deixaria Styles o atingir. Ao contrário do que disse que faria, realmente pensou muito do que Zayn disse na noite anterior. — Vou deixar que você veja por si mesmo. — Louis disse olhando pela janela de vidro e vendo o homem loiro apenas esperando seu sinal para entrar. Louis o chamou usando uma das mãos e Niall Horan estava na sala em menos de cinco segundos. — Senhor Styles, este é Niall Horan, nosso especialista em algoritmos de encriptação e decriptação de informações da Polícia Metropolitana e na Agência de Segurança Nacional. — Como vai? — O homem tímido já entregava no sotaque que era irlandês e Harry percebeu. Ele estendeu a mão na direção do moreno com aquele sorriso de canto, como se estudasse as feições de Niall, que parecia estar conhecendo uma celebridade. Louis revirou os olhos. — Estou ótimo, muito prazer senhor Horan. — Styles disse abrindo o sorriso ao ver que o homem fazia o mesmo. — Sou Harry, presidiário do Belmarsh. — Ele riu ao dizer como se realmente aquilo fosse uma ótima piada. Tomlinson estreitou o olhar reprovando a atitude especialmente por ver que Niall também riu. — Niall, pode colocar o senhor Styles a par de tudo. — Louis disse levantando-se de onde estava. — Tenho certeza que vão poder conversar melhor, eu tenho uma imprensa para acalmar. — Tomlinson fechou os olhos suspirando ao lembra-se daquele nada pequeno detalhe. — Volto em mais ou menos duas horas. — Ele complementou checando o relógio. — Preciso fazer uma saída de campo e verificar novas denúncias. Nem tudo que ligam pra contar é verdade, mas há sempre uma agulha no palheiro. — Sim, senhor. — Niall respondeu competente. — Vou buscar meu computador e meus arquivos pessoais. Volto logo. — O loiro retirou-se rindo quando Harry fingiu bater continência pra ele de um jeito infantil. Louis preparava-se para deixar a sala arrumando alguns arquivos em suas gavetas, trancando outras, verificando chaves do carro, celular e a hora. Louis era viciado em checar as horas e Harry já sabia disso desde que o agente o prendeu. O moreno alto — mais alto que Louis — levantou-se de onde estava como se tivesse descoberto que observar Louis era muito mais interessante do que encarar a tela de um computador — o que era raro se tratando de Styles, que sentia-se mais confortável na presença de máquinas do que de pessoas. Ele encostou-se na janela e, por mais que não visse uma vista como aquela já fazia um bom tempo, observar Louis enlouquecendo a procura de algo que Harry teve certeza estar no bolso esquerdo dele, o hacker resolveu se manifestar. — Está no seu bolso, Louis. — Ele disse calmamente aproximando-se do agente, que olhou pra ele de longe estranhando a colocação. Relutando, Louis pôs as mãos no bolso do terno e encontrou o que buscava: sua caneta Mont Blanc, com seu nome em prata. — Não saia desta sala. — Louis disse sem dar créditos ou se perguntar como Harry Styles sabia o que ele procurava e, ainda mais, como sabia onde estava. Nunca se acostumaria com aquilo. — Não fale com ninguém, somente com Niall. Entendeu, Styles? — Ele disse já se aproximando da porta. Não queria ir, não confiava em deixar Harry ali e o hacker percebeu. Ele estava com pressa mas demorava mais do que o normal para deixar a sala, ponderando se haveria outra forma de fazer aquilo sem ter que deixar Harry sob a responsabilidade de outra pessoa. Ele pôs a mão na maçaneta da porta e trocou um último olhar com Styles, que tinha as mãos enterradas no bolso do jeans e olhava pra ele com uma expressão impossível de ser analisada. — Ei, Louis. — Harry disse no momento em que o agente preparava-se para deixar o local. Louis não olhou imediatamente pra ele, queria apenas ouvir, mas foi obrigado a encarar aqueles olhos verdes, já que Harry parecia não continuar seu raciocínio antes que Louis olhasse pra ele. — Eu realmente quero fazer isso, eu vim pra ajudar. — Ele disse sério e usando um tom de voz que, em todos aqueles anos, era completamente desconhecido para Louis. Tomlinson, nem em mil vidas, estava pronto para dizer que confiava naquilo, mas Harry sabia disso. Ele realmente considerou dizer algo como "confie em mim", mas pensou mesmo no quão ridículo aquilo soaria. — Não tenho dúvidas que quer ajudar, Styles. — Louis disse numa voz menos repreensiva, mas ainda acusatória. — Sei o quanto quer sua liberdade condicional. — Não é só por isso. — Harry respondeu no momento em que Tomlinson abriu a porta. Sabia que aquilo não significaria muito para Louis, mas a breve troca de olhares foi suficiente para que o hacker pudesse ver a uma nuance de surpresa nos olhos bonitos do agente. Fez-se silêncio entre eles e Harry esperava por uma resposta, nem que fosse um sutil interesse de Louis em saber porque mais ele gostaria de fazer aquilo que não fosse em benefício próprio. Tomlinson queria perguntar, queria voltar a entrar naquele labirinto que era a mente de Harry Styles, queria sentar ao lado dele e ouvir tudo que ele tinha a dizer, voltar a ter aquela conexão quase siamesa que seus cérebros compartilhavam. Mais do que isso, queria mesmo ouvir Harry Styles dizer que "havia mudado" mesmo que ele não acreditasse verdadeiramente naquilo. — Vá cortar esse cabelo depois. — Foi a última frase que Louis disse quando olhou para o outro sem conseguir decifrar em que ele estava pensando, já que seu olhar era vago, porém fixo. Mas Louis apenas deixou a sala sem olhar para trás, mesmo sentindo os olhos de Harry Styles o acompanharem pelo vidro da janela até que ele sumisse de vista.
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