Cairo Narrando
O dia está corrido. Mais do que o normal. Problemas chegando de todos os lados e, como sempre, todo mundo espera que eu tenha a resposta. É assim que funciona aqui. Quando alguma coisa dá errado, procuram o Cairo. Quando precisa de decisão, procuram o Cairo. Quando alguém precisa assumir a responsabilidade, procuram o Cairo. E eu assumo. Não porque gosto. Mas porque aprendi que, se eu não fizer, alguém faz errado.
Estou no meio de uma conversa séria quando o celular vibra no bolso. Ignoro. Não tenho tempo. Poucos segundos depois, vibra de novo. Olho de relance. Número desconhecido. Por um instante, o coração dá um salto, penso nela. Mas volto os olhos pra frente. Não posso parar agora.
O telefone toca de novo. Insistentemente. Respiro fundo, pego e atendo sem olhar direito.
— Fala.
Silêncio do outro lado.
— Alô?
Então eu escuto.
— Cairo...
Meu corpo inteiro para. Não pelo que ela diz. Mas pela forma como diz. É ela. A mesma pessoa das mensagens. Só que agora não existe mais uma tela entre nós. Existe uma voz.
Por alguns segundos, esqueço completamente onde estou. Passei tanto tempo imaginando como seria... o tom, o jeito de falar, a risada que eu nunca ouvi. E agora está ali, do outro lado da linha, tremendo.
— Cairo?
Fico mudo. Não porque não ouvi. Mas porque estou tentando entender essa sensação, finalmente ouvindo alguém que eu conheço sem nunca ter visto.
— Você está me ouvindo?
A pergunta me faz sorrir sozinho, sem querer.
— Tô.
Mas a verdade é que naquele instante eu não estava ouvindo direito. Estava preso na voz dela. Até que percebo, ela está nervosa. Não é brincadeira. Não é provocação. Alguma coisa está muito errada.
— O que aconteceu?
Ela respira fundo, e eu consigo sentir o medo naquela respiração.
— Você precisa sair daí.
Franzo a testa, alerta de uma vez.
— Como assim?
— Cairo, você precisa sair da Rocinha. Agora!
Olho ao redor, volto de um golpe à realidade.
— Por quê?
Ela hesita. E aquele silêncio de segundos me deixa em prontidão.
— Vai ter uma operação.
A palavra cai como uma pedra. Todo o meu corpo entra em alerta.
— Quando?
— Não sei o horário exato. — A voz dela treme de verdade — Mas você precisa se esconder. Sair daí. Agora.
Agora eu não estou mais pensando na voz. Estou pensando no perigo.
— Como você sabe disso?
Silêncio. Longo demais.
— Eu escutei.
Não é resposta completa. Eu percebo. Mas a urgência nela é maior que qualquer dúvida.
— Escutou de quem?
— Cairo...
A forma como ela fala meu nome me faz parar. Não é medo de responder. É medo do que pode acontecer se ela disser.
— Você precisa confiar em mim. Só isso. Confia.
Fico calado. Confiar. Palavra difícil pra mim. Mas aquela mulher acabou de ligar arriscando tudo. Podia ter ficado calada. Deixado acontecer. E não fez. Ligou. Pra me avisar.
— Você sabe que está se arriscando falando isso comigo? — pergunto baixo.
— Sei.
Resposta rápida. Seca.
— Então por quê?
Ela demora. Quando fala, a voz é quase um sussurro, mas me acerta em cheio.
— Porque eu não queria que acontecesse nada com você.
A frase é simples. Mas fica gravada. Ouvi muita gente dizer que se importa. Quase sempre havia interesse, medo, obrigação por trás. Com ela... parece diferente.
— Você ainda está aí? — pergunta, preocupada de novo.
Percebo que fiquei em silêncio tempo demais. E quase sorrio. Mesmo no meio do pânico, ela ainda se preocupa se estou ouvindo.
— Tô. — Falo firme agora — Estou ouvindo.
Ela solta o ar, aliviada.
— Então promete que vai tomar cuidado?
Fico em silêncio um instante. Não costumo prometer coisas. Principalmente coisas que não controlo. Mas pra ela... é diferente.
— Eu prometo.
Do outro lado, ela respira baixinho. A ligação continua aberta. E naquele instante eu entendo, ela não é mais só a mulher das mensagens. É alguém que se preocupou comigo. Alguém que, sem nunca ter me visto, escolheu arriscar por mim.
— Depois a gente conversa. — Diz ela, suave.
— Tá.
Antes de desligar, escuto de novo.
— Tchau, Cairo.
— Tchau.
A ligação termina. Fico parado, olhando o celular na mão. O mundo continua girando ao meu redor. Mas alguma coisa mudou pra sempre. Agora eu tenho a voz dela. E isso devia ser só um detalhe. Mas não é. Porque agora... a mulher que eu nunca vi parece ainda mais real do que muitas que eu vejo todos os dias.