Augusto Narrando
As pessoas confundem poder com exposição. Acham que aparecer na televisão, ocupar um cargo importante ou ser reconhecido nas ruas é o que faz alguém poderoso. Elas não entendem.
Poder de verdade não está no que todos veem. Está no que poucos sabem. Está em controlar informações. Controlar pessoas. Controlar situações.
Sorrio para as câmeras enquanto aperto mãos. O mesmo sorriso que aparece em todas as entrevistas. O mesmo sorriso que faz as pessoas acreditarem que sabem quem eu sou. Um homem de família. Um homem preocupado com a segurança pública. Um homem que luta pelo bem do povo. É curioso como as pessoas acreditam facilmente naquilo que desejam acreditar.
Entro no carro assim que o evento termina. No instante em que a porta se fecha, o sorriso desaparece. Não preciso manter aparências quando estou só. Meu assessor segue ao meu lado, com uma pasta nas mãos.
— A situação na Rocinha continua sendo acompanhada de perto.
Olho para ele, sem expressão.
— E a operação?
Ele abre os documentos sobre o colo.
— Confirmada.
Passo os olhos pelas folhas.
— Quando?
— Amanhã, bem cedo.
Fico em silêncio. Nada pode sair errado. Uma operação não é apenas uma ação. É estratégia. É momento. É palanque e estratégia política. É informação. E informação errada, nas mãos erradas, pode destruir tudo o que construí.
— Essa informação não pode circular, sigilo total.
Ele assente, firme.
— Não vai.
Fecho a pasta com um movimento seco.
— Quero que mantenham o elemento surpresa até o último segundo.
— Tudo já está alinhado.
Olho pela janela. A cidade segue seu ritmo. Gente passando. Carros trafegando. Milhares de vidas acontecendo, sem saber que decisões estão sendo tomadas longe dos olhos delas. É assim que o mundo funciona. Alguns comandam. Outros apenas seguem.
Chego em casa e encontro silêncio. Sempre gostei do silêncio. Ele não questiona. Não discorda. Não decepciona. Minha filha está na sala. Ela levanta o olhar quando entro. Por um instante, vejo traços da mãe dela. O mesmo olhar. A mesma maneira de observar tudo em silêncio. E isso me incomoda mais do que deveria.
— Você chegou cedo. — Diz ela.
Tiro o paletó e o coloco sobre o braço.
— Tinha compromissos que acabaram antes.
Ela assente. Existe uma distância entre nós. Uma distância que eu mesmo criei. Mas algumas pessoas precisam entender que a vida exige certas posturas. Minha filha sempre foi sensível demais. Sempre acreditou que o mundo era mais justo do que realmente é.
— Tem saído muito? — Pergunto, direto.
Ela parece surpresa com a pergunta.
— Não.
— Tem certeza?
Ela desvia o olhar. Conheço esse gesto. Faz isso desde criança, quando esconde algo.
— Tenho.
Fico observando-a por alguns segundos.
— Você precisa entender uma coisa. — Ela me olha de volta — O mundo não vai facilitar as coisas para você. As pessoas procuram fraquezas nos outros. Sempre.
Minha voz segue calma, firme. Porque acredito no que digo. Acredito que estou preparando ela. Protegendo-a de se decepcionar.
— Eu sei me cuidar. — Responde ela, baixo.
Mas há algo diferente naquela resposta. Uma firmeza que eu não costumava ver nela. Não respondo. Apenas observo. Ela vira e sobe as escadas. Fico parado ali, vendo-a se afastar. Minha filha nunca compreendeu completamente o peso do nome que carrega. Acha que pode viver como qualquer pessoa. Mas não pode. A vida dela sempre esteve entrelaçada à minha. À minha imagem. À minha posição. Àquilo que construí com tanto esforço.
Vou até meu escritório. Minutos depois, o celular toca. Atendo de imediato.
— Fala.
— Augusto, só confirmando. — Escuto com atenção — A operação segue para amanhã.
— Alguma mudança?
— Nenhuma.
Assinto sozinho.
— Ótimo.
Desligo e coloco o aparelho sobre a mesa. Tudo segue exatamente como planejado. Sempre foi assim. Porque eu não cheguei até aqui deixando as coisas ao acaso. Aprendi cedo, quem controla a informação, controla o jogo. E, enquanto todos só enxergarem aquilo que eu permito... nada foge do meu controle.