Grego Narrando
O dia começa cedo. Na verdade, para mim, parece que o dia nunca termina. Quando finalmente consigo deitar, já tem outra coisa esperando para ser resolvida. Mas eu gosto disso. Gosto de estar no meio das pessoas. Diferente do Cairo, que carrega tudo como se o mundo inteiro estivesse nas costas dele, eu tento lembrar que, no meio dos problemas, ainda existe espaço para rir.
Chego na boca e o movimento já está firme. Sempre tem alguém chegando, alguém perguntando, algum problema que precisa de atenção. É a rotina. O morro não para.
— Bom dia, Grego.
— Bom dia.
— Dormiu?
Olho para o senhor parado na minha frente.
— Dormi.
Ele ri, balançando a cabeça.
— Mentira.
— Por quê?
— Porque tua cara está pior que ontem.
Rio.
— A idade está chegando.
— Tu fala isso como se tivesse cinquenta anos.
— Na minha cabeça tenho.
Ele segue rindo e se afasta. É assim que funciona por aqui, uma brincadeira aqui, uma conversa ali, e o dia vai se desenrolando.
No meio da manhã, vejo o Cairo chegando. E percebo de novo. Ele está diferente. Não é algo que qualquer um notaria. Mas eu noto. Conheço aquele cara há anos. Sei o jeito que ele anda, o jeito que olha, o silêncio que ele faz quando alguma coisa pesa. E agora tem alguma coisa acontecendo. Ele tenta esconder, mas está mais leve. Mais distraído. O problema é que o Cairo nunca foi distraído. Ele sempre percebe tudo. Menos quando o assunto é ele mesmo.
— Vai ficar me olhando ou vai falar alguma coisa? — pergunta sem nem me encarar.
Rio.
— Tu é assustador.
— Por quê?
— Parece que sabe quando estou pensando.
Ele finalmente me olha.
— Porque eu sei.
Reviro os olhos. Esse é o problema. Ele sempre tem razão.
Passamos a manhã resolvendo questões juntos. Até que, perto do almoço, lembro de uma coisa. Helena. Aquela mulher consegue passar o dia inteiro trabalhando e esquecer que precisa comer. Já perdi as contas de quantas vezes ela diz que "depois cuida disso". E esse depois nunca chega.
Vou até um lugar próximo, compro uma marmita e uma garrafa de refrigerante. Ao sair, um dos caras me olha nas mãos.
— Vai levar comida pra quem?
Olho de volta, sem pestanejar.
— Pra minha mãe.
Ele começa a rir.
— Tu acha que eu acredito?
— Não perguntei.
Saio antes que ele continue. Caminho até a loja dela e entro. Helena está organizando peças. Ela levanta o olhar, passa os olhos por mim, depois pela marmita e pela garrafa. Cruza os braços.
— O que é isso?
— Almoço.
— Sei que é almoço. — Ela aponta com o queixo — Estou perguntando por que você está trazendo.
Dou de ombros.
— Porque sim.
Ela estreita os olhos.
— Grego.
— Helena.
Ela segura o riso.
— Tu é muito r**m mentindo.
Sorrio de leve.
— Aprendi com o Cairo.
Ela ri de verdade.
— Então não aprendeu nada.
Coloco a comida sobre o balcão.
— Come.
Ela me olha de lado.
— Desde quando tu manda em mim?
— Desde que percebi que tu esquece de comer.
Fica em silêncio por um instante. Pouco tempo, mas eu percebo.
— Tu percebeu?
Dou de ombros.
— Eu percebo muita coisa.
Ela abaixa o olhar por um segundo, depois pega a marmita.
— Obrigada.
Sorrio.
— De nada.
Ela abre a embalagem e me avisa, com a boca quase cheia:
— Mas não pense que isso vai me fazer parar de reclamar de você.
— Eu nunca achei.
— Ainda bem.
Fico encostado ali, vendo ela comer. E percebo uma coisa, Helena é uma das poucas pessoas que não tenta impressionar ninguém. Ela simplesmente é. Talvez seja por isso que eu gosto de ficar perto.
— Tu brigou com o Cairo? — pergunta do nada.
Olho para ela.
— Não.
— Então aconteceu alguma coisa.
Rio.
— Tu também é assustadora.
Ela dá de ombros, tranquila.
— Eu conheço vocês dois.
Fico calado. Porque ela tem razão.
— Ele está diferente.
Ela continua comendo, sem parar.
— Diferente como?
Penso um instante antes de responder.
— Mais humano.
Ela para. Me olha. E parece entender de primeira.
— É uma mulher?
Solto uma risada baixa.
— Tu já sabia?
— Grego. — Fala meu nome como se fosse a coisa mais óbvia do mundo — O Cairo nunca fica distraído.
Balanço a cabeça.
— Ele está conversando com alguém.
— Conversando?
— É.
Ela sorri de um jeito suave.
— Então é sério.
— Como tu sabe?
Ela dá de ombros.
— Porque o Cairo não conversa.
Fico pensando. E é verdade. O homem fala quando precisa. Resolve quando precisa. Mas abrir espaço para alguém dentro da vida dele? Isso é outra história.
— Eu nunca vi ele desse jeito.
Helena fica séria de repente.
— Talvez ele nunca tenha permitido que alguém conhecesse esse lado dele.
Ela continua, com a voz calma e certa:
— Às vezes, as pessoas passam tanto tempo tentando parecer fortes que esquecem que também precisam de alguém.
Fico em silêncio. Porque ela acabou de falar do Cairo. Mas talvez tenha falado de mim também.
— Tu ficou sentimental hoje.
Ela ri, voltando ao tom leve.
— E tu ficou observador demais.
— Estou evoluindo.
— Milagre.
Rio. Ficamos alguns segundos em silêncio. Um silêncio bom. Aquele tipo que só existe quando duas pessoas já se conhecem o suficiente.
Depois de um tempo, meu celular toca. Olho a tela e sei que preciso voltar.
— Preciso ir.
Ela assente.
— Obrigada pela comida.
— Come tudo.
Ela revira os olhos, mas sorri.
— Sim, senhor.
Sorrio de volta e saio. Olho para trás antes de virar a rua. Ela já voltou ao trabalho, mas continua sorrindo. E isso faz alguma coisa dentro de mim ficar mais leve.
Caminho de volta pensando no Cairo. No homem que sempre achou que não precisava de ninguém. E agora está conversando todas as noites com uma mulher que ele nunca viu. A vida é engraçada. Às vezes, a pessoa que consegue mudar alguém não chega fazendo barulho. Às vezes... ela chega apenas com uma mensagem. E quando você percebe... já encontrou um lugar onde nunca imaginou procurar.