Ele voltou a chorar, dessa vez sem conseguir dizer uma palavra. Dona Lourdes agradeceu baixinho antes de ir embora com o botijão de volta. Eu apenas sentei novamente na cadeira e observei o movimento da boca voltar ao normal. Muita gente acha que ser respeitado é fazer os outros terem medo de você. Eu nunca pensei assim. Respeito de verdade é quando as pessoas sabem que existe alguém para colocar ordem nas coisas sem esquecer que todo mundo ali, antes de qualquer erro, continua sendo gente.
O resto do dia passou do jeito que quase todos os dias passam. Problema para resolver, gente chamando meu nome de um lado para o outro, carga chegando, carga saindo, dinheiro entrando, rádio não parando um segundo. Quando a noite finalmente caiu sobre a Rocinha, senti o corpo inteiro pedir descanso. Entrei no carro e subi para casa. A única coisa que eu queria era um banho quente e algumas horas sem ouvir ninguém me chamando de chefe.
Joguei a camisa em cima da cama, entrei no banheiro e deixei a água cair por alguns minutos. Era estranho como um dia inteiro podia passar voando e, mesmo assim, minha cabeça continuar presa na mesma coisa. Saí do banho, vesti uma bermuda, peguei um baseado já bolado e fui para a varanda. Dali dava para enxergar boa parte da comunidade. As luzes acesas, o som das motos subindo e descendo, gente conversando nas lajes, música tocando ao longe... Era uma rotina que eu conhecia desde moleque.
Traguei devagar, soltando a fumaça enquanto observava o movimento lá embaixo. Passei o dia inteiro ocupado, mas bastou o silêncio aparecer para minha cabeça voltar naquela conversa do almoço.
"Responde."
Era isso que o Grego tinha dito.
"Dá corda."
Bufei sozinho.
— Tu tá ficando maluco também, Grego.
Peguei o celular.
Nada.
Guardei de novo.
Cinco minutos depois, peguei outra vez.
Nada.
Balancei a cabeça e ri de mim mesmo.
— Olha a merda... Dois anos bloqueando essa mulher e agora eu tô olhando celular igual adolescente.
Joguei o aparelho ao meu lado e dei mais um trago. Eu me recusava a acreditar que estava esperando uma mensagem dela. Não era isso.
Era curiosidade, pelo menos era o que eu tentava convencer a mim mesmo.
O celular vibrou.
Olhei para a tela no mesmo instante.
Número desconhecido.
Soltei uma risada sem humor.
— Tu não cansa, não?
Abri a conversa.
Desconhecida:
"Eu vi o que você fez hoje."
Meu maxilar travou.
Ela não estava falando da roupa, nem do carro, nem de onde eu estava. Ela estava falando do rapaz que roubou o botijão.
Respondi quase sem pensar.
Eu:
Quem é você?
A mensagem foi entregue.
Visualizada.
Demorou quase um minuto para responder.
Desconhecida:
Alguém que ficou orgulhosa de você.
Franzi a testa.
Orgulhosa?
Eu:
Orgulhosa por quê?
Desconhecida:
Porque você podia ter escolhido o caminho mais fácil.
Era muito mais simples dar o fim nele.
Você escolheu dar uma oportunidade.
Pouca gente faria isso.
Fiquei olhando para aquelas mensagens por alguns segundos.
Era estranho, ela falava como se realmente me conhecesse. Como se enxergasse coisas que nem eu fazia questão de mostrar.
Logo outra mensagem apareceu.
Desconhecida:
Mas você também precisa parar de cuidar de todo mundo e esquecer de você.
Franzi a testa.
Eu:
Como assim?
A resposta veio quase na mesma hora.
Desconhecida:
Você anda comendo muito m*l.
Pula o café da manhã quase todos os dias.
Almoça qualquer coisa quando lembra.
E, quando trabalha até tarde, troca a janta por cigarro e baseado.
Seu corpo aguenta hoje. Mas não vai aguentar para sempre.
Meu coração desacelerou por um instante.
Como ela sabia daquilo? Aquilo não era uma coisa que alguém via passando na rua. Era rotina, era detalhe, era atenção.
Eu:
Quem é você?
Sério.
Para de brincar.
Quem tá te passando essas informações?
Ela demorou alguns segundos.
Desconhecida:
Ninguém.
Eu só presto atenção em você.
Respirei fundo.
Aquilo já estava passando dos limites.
Eu:
Tu tava na Rocinha hoje?
Ela visualizou.
Demorou um pouco mais dessa vez.
Quando respondeu, senti um arrepio subir pela nuca.
Desconhecida:
Eu sempre estive.
Fiquei encarando a tela. Sempre?
Lembrei da conversa com o Grego, mais uma vez.
"Dá corda."
Resolvi seguir o conselho dele.
Eu:
Dois anos mandando mensagem.
Nunca cansou?
Ela respondeu quase imediatamente.
Desconhecida:
Não.
Eu:
Por quê?
A bolinha de digitação apareceu.
Sumiu.
Voltou.
Como se ela estivesse escolhendo cada palavra.
Desconhecida:
Porque algumas pessoas valem a espera.
Passei a mão no rosto. Que mulher estranha!
Eu:
Tu nem me conhece.
A resposta veio no mesmo instante.
Desconhecida:
Conheço mais do que você imagina.
Meu peito apertou, não o de medo. De curiosidade.
Eu:
Então me fala uma coisa.
Eu:
Por que eu?
Ela demorou quase um minuto.
Desconhecida:
Porque, no meio de tanta gente que te respeita...
Desconhecida:
Eu aprendi a admirar o homem que existe quando ninguém está olhando.
Desconhecida:
Fiquei alguns segundos sem saber o que responder. Ninguém nunca tinha falado comigo daquele jeito, todo mundo enxergava o Cairo chefe. Ela parecia enxergar só...Eu.
Eu:
Isso não é normal.
Ela visualizou.
Demorou alguns segundos.
Desconhecida:
Talvez não seja.
Mas também nunca foi normal o jeito que eu te amo.
Meu dedo ficou parado sobre a tela, pela primeira vez em muito tempo, eu não sabia o que responder. Ela não pediu dinheiro, não pediu encontro, não pediu foto, não pediu nada. Só disse que me amava. E pela primeira vez em dois anos...Eu não bloqueei.