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848 Words
Cairo Narrando Depois que eu e o Grego saímos do restaurante, cada um seguiu seu rumo. Ele voltou para resolver as pendências dele, e eu subi para a boca. Minha cabeça ainda insistia em voltar naquela conversa sobre a desconhecida, mas eu não podia me dar ao luxo de ficar pensando nisso o dia inteiro. Quem escolhe ocupar o lugar que eu ocupo aprende cedo que os problemas não esperam você organizar a mente. m*l coloquei os pés na boca, um dos vapores veio quase correndo na minha direção, já com a expressão de quem sabia que alguma coisa tinha saído do controle. — Chefe... tá dando r**m ali. Nem perguntei o que era. Apenas caminhei na direção que ele apontou. Assim que dobrei a viela, encontrei os dois no meio da rua, discutindo na frente de todo mundo. Os dois estavam armados, alterados e rodeados pelos outros vapores, que assistiam sem coragem de se meter. Antes que qualquer um pensasse em fazer uma besteira, minha voz cortou o barulho. — Acabou. Os dois viraram na minha direção na mesma hora. O silêncio tomou conta da viela. — Qual dos dois quer começar? Um deles apontou para o outro. — Chefe, ele... Levantei a mão. — Eu perguntei quem quer começar. Não perguntei quem quer apontar dedo. Os dois abaixaram a cabeça. Respirei fundo antes de continuar. Aquilo era exatamente o tipo de coisa que eu não admitia dentro da Rocinha. — Vocês sabem qual é a pior coisa que existe numa organização? Os dois permaneceram calados. — Ego. Enquanto vocês tão brigando pra ver quem tá certo, quem tá errado ou quem falou mais alto, tem gente lá fora querendo ver nós se matar aqui dentro. Vocês acham que rival precisa invadir a Rocinha quando vê dois vapores do mesmo lado quase puxando arma um pro outro? Quem cria rachadura dentro de casa faz o serviço do inimigo de graça. Nenhum dos dois teve coragem de levantar os olhos. — Agora vocês vão apertar a mão um do outro. Eles hesitaram. — Eu mandei. Os dois estenderam a mão, mas o aperto foi fraco, sem vontade. — Isso aí não é aperto de homem. Eles respiraram fundo e apertaram as mãos de verdade. — Da próxima vez que eu precisar separar briga de vocês dois, nenhum continua trabalhando comigo e com as pernas inteiras. Não precisei aumentar o tom de voz. Eles sabiam quando eu estava falando sério. Dei as costas e voltei para a boca. O assunto morreu ali. Pouco tempo depois, Dona Lourdes apareceu na porta da sala. Conheço aquela mulher desde moleque. Ela mora na Rocinha há mais tempo do que muita gente que vive aqui hoje. Assim que vi seus olhos vermelhos, entendi que alguma coisa tinha acontecido. — O que houve, Dona Lourdes? Ela respirou fundo antes de responder. — Entraram na minha casa, Cairo. Meu semblante fechou. — Levaram o quê? — Meu botijão de gás. Fechei os olhos por um instante. Não era pelo valor do botijão. Era pela covardia. Roubar uma senhora que vivia sozinha era coisa de quem tinha perdido qualquer noção de respeito. Chamei dois rapazes. — Descobre quem foi. Não demorou nem vinte minutos. Encontraram o botijão escondido na casa de um rapaz conhecido da comunidade e o trouxeram até mim. Ele chegou tremendo, sem conseguir sustentar meu olhar. — Foi tu? Ele baixou a cabeça. — Foi. — Por quê? — Eu tava sem comida em casa. Olhei para ele por alguns segundos. — E resolveu roubar justamente de uma senhora? Ele começou a chorar. — Me desculpa... eu não pensei. Ao redor, todo mundo esperava que eu mandasse bater nele. Eu não mandei. Continuei olhando nos olhos dele até que levantasse a cabeça. — Tu sabe qual foi teu erro? Ele fez que não. — Não foi roubar. Os meninos se entreolharam sem entender. — Foi escolher a pessoa errada. Aquela mulher podia ser tua mãe. Se tu tivesse batido na minha porta e falado que tua família tava passando fome, tu acha mesmo que eu ia deixar vocês sem comer? Ele não respondeu. Só chorava. — Hoje tu vai embora andando. Os olhos dele arregalaram. — Mas presta atenção no que eu vou te falar. Se eu descobrir que tu roubou qualquer outra pessoa aqui dentro, eu mesmo faço questão de te tirar a sua vida. Dessa vez tu tá recebendo uma oportunidade. A próxima não existe. Ele assentiu rapidamente. — Obrigado... eu juro... Levantei a mão, interrompendo. — Não promete. Muda. Virei para um dos rapazes que estavam comigo. — Devolve o botijão pra Dona Lourdes. Ele fez que sim. — E faz uma compra completa pra casa dele. O rapaz franziu a testa. — Compra de mês. Arroz, feijão, óleo, macarrão, mistura, leite... tudo. Entrega lá hoje. O garoto que tinha roubado me olhava sem acreditar. — Chefe... Balancei a cabeça. — Tu roubou porque tava com fome. Se eu resolver tua fome e tu continuar roubando, aí o problema nunca foi comida. Foi caráter. E caráter ninguém compra no mercado.
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