Helena Narrando
Meu nome é Helena, mas quase ninguém me chama assim. Para a maioria das pessoas, eu sou Lena.
Eu cresci na Rocinha. Conheço essas ruas desde antes de muita coisa mudar. Conheço os rostos antigos, as histórias escondidas em cada viela e as pessoas que ficaram mesmo quando a vida tentou mandar todo mundo embora. Eu sempre pertenci a esse lugar.
Foi aqui que cresci, foi aqui que construí minha vida e foi aqui que abri minha loja de roupas. Ela não é a maior da comunidade, mas é o meu orgulho. Cada peça escolhida, cada detalhe da vitrine, cada cliente que entra pela porta faz parte da minha história.
Minha loja fica em uma das partes mais movimentadas da Rocinha. Todo mundo acaba passando por aqui em algum momento, e talvez seja por isso que eu conheça tanta gente.
Inclusive duas pessoas que fazem parte da minha vida há muitos anos. Cairo e Grego. Eu conheço os dois desde antes deles se tornarem os homens que são hoje. Antes dos títulos, antes do respeito que carregam, antes de todo mundo olhar para eles e enxergar apenas poder.
Para mim, eles ainda são os mesmos garotos que cresceram por essas ruas. Bom... quase os mesmos, porque Grego sempre teve o mesmo problema desde novo.
Ele se achava demais, sempre foi aquele tipo de homem que entrava em qualquer lugar sabendo que chamaria atenção. O sorriso de canto, a confiança exagerada e aquela mania irritante de achar que conseguia convencer qualquer pessoa. E, para piorar, ele conseguia.
Muitas mulheres caíam no papo dele, talvez por isso eu nunca tenha dado confiança. Eu conhecia o tipo dele, Grego gostava de facilidade. Gostava de mulheres que aceitavam qualquer conversa bonita, qualquer elogio e qualquer promessa vazia. Eu nunca quis ser só mais uma na lista dele. Eu conhecia o suficiente para saber que eu merecia mais.
Depois de algumas situações complicadas no alto do morro, decidi mudar minha casa para uma parte mais baixa da Rocinha. Não foi uma decisão fácil. Eu cresci lá em cima, conhecia cada canto, mas algumas coisas começaram a ficar perigosas demais e eu precisava de um pouco mais de tranquilidade.
Minha loja, porém, continuou no mesmo lugar. Eu não conseguiria abandonar, era ali que eu tinha construído meu nome, era ali que minhas clientes me procuravam e era ali que eu me sentia em casa.
Estava organizando algumas peças novas quando vi um carro conhecido parar em frente à loja. Nem precisei esperar a pessoa sair, eu já sabia quem era.
Grego!
Revirei os olhos antes mesmo de ele entrar, algumas coisas nunca mudam. Continuei dobrando uma blusa, fingindo que não tinha percebido sua presença.
A campainha da porta tocou alguns segundos depois.
— Nem vai falar comigo?
Levantei os olhos devagar.
— Eu deveria?
Ele colocou a mão no peito, fazendo uma expressão ofendida.
— Caramba, Lena. Eu sumo alguns dias e é assim que tu me recebe?
Voltei a organizar as roupas.
— Tu percebeu que sumiu?
Por um instante, ele ficou em silêncio, pouco tempo, mas eu percebi.
— Então tu sentiu minha falta.
Soltei uma risada.
— Eu senti falta de paz.
Ele riu.
— Tu continua a mesma.
— E tu continua achando que todo mundo cai no teu papo.
Ele se aproximou do balcão com aquele sorriso convencido de sempre.
— Mas tu sabe que é diferente.
— Sei.
— E mesmo assim continua falando comigo.
Olhei para ele.
— Porque essa é minha loja. Tu que entrou.
Ele soltou uma risada, era irritante.
Mas eu precisava admitir que Grego tinha esse talento. Ele conseguia deixar qualquer conversa mais leve.
— Onde tu tava?
A pergunta saiu antes que eu pudesse segurar.
Ele levantou uma sobrancelha.
— Preocupada comigo?
— Curiosa.
— Mesma coisa.
— Não é.
Ele sorriu.
— Tirei uns dias.
— Férias?
— Pode chamar assim.
— Milagre. Achei que tu não sabia descansar.
Ele balançou a cabeça, divertido.
— E tu? Continua achando que eu sou um problema?
Cruzei os braços.
— Tu quer a resposta sincera?
— Sempre.
— Acho.
Ele levou a mão ao peito.
— c***l.
— Realista.
Grego ficou me olhando por alguns segundos e eu odiei perceber que aquele olhar ainda era o mesmo. Aquele jeito de provocar só para ver minha reação.
— Tu sabe que um dia eu ainda vou conseguir te convencer.
Balancei a cabeça.
— Sonha.
Ele abriu aquele sorriso de canto.
— Eu não preciso sonhar. Tu tá aí faz dez anos.
Revirei os olhos.
— Dez anos tentando entender como alguém consegue falar tanta besteira.
Ele soltou uma gargalhada.
E, apesar de toda a fama, todo o respeito e toda a postura que ele carregava para o mundo...Naquele momento, ele ainda era apenas o Grego que eu conhecia há anos.
O problema é que algumas pessoas passam tanto tempo fazendo parte da nossa rotina que a gente esquece de perceber quando elas começam a ocupar um espaço diferente.