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716 Words
Cairo Narrando Três dias. Parece pouco, eu sei. Mas quando alguém costuma fazer parte da sua rotina, três dias conseguem parecer uma eternidade. E eu nunca imaginei que diria isso, muito menos sobre uma mulher que eu nunca vi. No primeiro dia, não dei importância. Pensei que devia estar ocupada ou simplesmente tinha cansado de mandar mensagem. Seria o mais lógico, afinal, passou dois anos falando praticamente sozinha. No segundo dia, abri a conversa sem nem perceber. Li algumas mensagens antigas. Fechei o aplicativo. Balancei a cabeça. Ridículo. No terceiro dia, fiz exatamente a mesma coisa. Só que dessa vez não consegui fingir que era coincidência. Ela sumiu, e isso começou a me incomodar de verdade. Passei o dia resolvendo problemas, conversando com moradores, passando pela associação, encontrando o Grego e o Menor, rindo de alguma besteira que eles falaram. Mas em algum momento, sempre acabava olhando para a tela. E nada. Só no fim da noite, sentado sozinho na varanda de casa, peguei o celular mais uma vez. Fiquei encarando a conversa, o orgulho mandava guardar o aparelho. A curiosidade mandava escrever. Pela primeira vez em muito tempo... a curiosidade venceu. Eu: Sumiu? Olhei para a mensagem enviada e soltei uma risada sozinho. Quem diria? Depois de dois anos ignorando aquela mulher, agora sou eu quem está procurando. Ela não respondeu naquela noite. Nem no dia seguinte. Só no quarto dia o celular vibrou. Abri na mesma hora. Desconhecida: Olha quem sentiu saudade... Soltei uma risada baixa. Ela continua a mesma. Eu: Não força. Desconhecida: Então por que mandou mensagem? Passei a mão na barba. Ela me pegou. Eu: Achei estranho. Desconhecida: Estranhou meu silêncio? Eu: Acostumei contigo enchendo minha paciência. Ela demorou alguns segundos e depois respondeu. Desconhecida: Vou considerar isso um elogio. Sorri sozinho, sem nem perceber. Só depois de alguns minutos voltei a escrever. Eu: Tá tudo bem? Ela visualizou, mas não respondeu. Esperei. Dois minutos. Cinco. Quase desisti. Até que a mensagem chegou. Desconhecida: Mais ou menos. Franzi a testa. Eu: Aconteceu alguma coisa? Ela demorou novamente. Quando respondeu, o tom da conversa mudou de uma hora para outra. Desconhecida: Minha mãe fez aniversário. Li de novo. Estranho. Eu: Aniversário? Desconhecida: De morte. Senti o peito pesar. Fiquei olhando para a tela sem saber exatamente o que dizer. Pela primeira vez desde que começamos a conversar... ela não parecia misteriosa. Parecia só triste. Eu: Sinto muito. Desconhecida: Obrigada. Escrevi. Apaguei. Escrevi de novo. Eu: Faz muito tempo? Desconhecida: O suficiente para todo mundo dizer que eu já deveria ter superado. Desconhecida: Mas ninguém avisa que saudade não tem prazo. Fechei os olhos por um instante. Não conheço aquela mulher, mas conheço a saudade. Desconhecida: Ela era minha melhor amiga. Desconhecida: A única pessoa que me fazia acreditar que o mundo podia ser um lugar bom. Engoli seco. Eu: Ela devia ter muito orgulho de ti. Ela demorou mais do que das outras vezes. Quando respondeu, quase consegui imaginar ela sorrindo do outro lado. Desconhecida: Quero acreditar que sim. O assunto pesou. Percebi que ela também sente. Alguns segundos depois, mudou completamente de assunto, como se não quisesse ficar mais naquele lugar. Desconhecida: Chega de tristeza. Desconhecida: Como foi sua noite com a moça? Soltei uma gargalhada. Eu: Então tu não sabe de tudo. Desconhecida: Como assim? Eu: Eu desisti, fui pra casa. Tomei banho, dormi. Ela ficou um tempo sem responder. Depois escreveu. Desconhecida: Coitada da menina. Ri sozinho. Eu: Ela nem chegou. Desconhecida: Nunca imaginei que eu conseguiria estragar um encontro sem nem estar presente. Balancei a cabeça rindo. Eu: Convencida. Desconhecida: Realista. A conversa voltou a ficar leve, como se os minutos anteriores nunca tivessem existido. Desconhecida: Na verdade... eu só tirei uns dias de férias. Ri de novo. Eu: Férias? Desconhecida: Até pessoas misteriosas precisam descansar. Eu: Achei que vocês trabalhavam vinte e quatro horas por dia. Desconhecida: Muito engraçado. Fiquei olhando para a tela por alguns segundos. Ela voltou. E, sem perceber, o dia pareceu um pouco melhor. Desconhecida: Posso fazer uma pergunta? Eu: Depende. Desconhecida: Como você me imaginou? Soltei um sorriso e resolvi entrar na brincadeira. Eu: Quer mesmo saber? Desconhecida: Quero. Eu: Baixinha. Desconhecida: Isso você já sabia. Eu: Pele clara. Ela demorou alguns segundos. Desconhecida: Continua. Eu: Cabelo comprido. Olhos cor de mel.
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