Fiquei esperando. Ela visualizou. Não respondeu. Quase um minuto depois...
Desconhecida:
Pelo incrível que pareça... você acertou tudo.
Franzi a testa.
Eu:
Tá de s*******m.
Desconhecida:
Juro.
Eu:
Impossível.
Desconhecida:
Às vezes você tem sorte.
Soltei uma risada desacreditada.
Eu:
Ainda acho que tu tá mentindo.
Desconhecida:
Você só vai descobrir no dia em que eu criar coragem para deixar de ser um mistério.
Li aquela mensagem mais uma vez. Depois outra. E outra. Coragem. Ela não fala em vontade, não fala em oportunidade. Ela fala em coragem. Pela primeira vez entendo que talvez ela não esconda o rosto porque quer brincar comigo. Talvez... ela só tenha medo do que vai acontecer quando eu finalmente souber quem ela é.
Guardei o celular no bolso e me levantei. O céu da Rocinha já estava escuro, as luzes das casas começavam a acender uma por uma. Respirei fundo e percebi uma coisa que, até semanas atrás, eu jamais imaginaria. Ela não é mais apenas a mulher das mensagens. Agora... ela é alguém cuja ausência eu sinto. E isso, sinceramente... me assusta mais do que qualquer coisa.
Dei alguns passos em direção ao quarto, mas parei. Balancei a cabeça. Que p***a é essa, Cairo?
Tirei o aparelho do bolso outra vez. A conversa continuava aberta. Ela ainda estava online. Fiquei olhando aquela palavra como se esperasse alguma coisa acontecer. Ela não mandou mensagem. Eu também não. Mesmo assim... não consegui guardar o celular. Pela primeira vez em muito tempo... não queria que essa conversa acabasse.
Passei o polegar sobre a tela algumas vezes até resolver escrever.
Eu:
Ainda tá acordada?
Desconhecida:
Achei que você tinha ido dormir.
Soltei um sorriso sem perceber.
Eu:
Também achei.
Ela mandou um emoji rindo. É simples, mas consegui imaginar ela rindo do outro lado da tela. Voltei para a varanda e me encostei. O vento da madrugada batia no rosto. Lá embaixo, a Rocinha nunca dorme completamente. Sempre tem alguém andando, algum bar aberto, alguma moto subindo, alguma criança insistindo em brincar mesmo tarde da noite. Olhei de novo para o celular.
Eu:
Posso perguntar umas coisas?
Desconhecida:
Hoje você tá curioso.
Ri sozinho.
Eu:
Responde.
Desconhecida:
Depende da pergunta.
Eu:
Tu é maior de idade pelo menos?
Ela demorou de propósito, tenho certeza. Quando respondeu, quase consegui ouvir a risada dela.
Desconhecida:
Sou.
Eu:
Quantos anos?
Desconhecida:
Vinte e um.
Fiquei olhando para a tela. Vinte e um. Por algum motivo, imaginei que fosse mais velha.
Eu:
Caralho... achei que tu tivesse uns vinte e cinco.
Desconhecida:
Isso foi um elogio ou uma ofensa?
Eu:
Nenhum dos dois. Pela forma que tu fala... parece viver há muito mais tempo.
Ela demorou. Dessa vez demorou de verdade. Quando respondeu, senti um peso escondido nas palavras.
Desconhecida:
Algumas pessoas precisam crescer antes da hora.
Fiquei olhando aquela frase. Ela não explicou. Mas também não precisou.
Eu:
Mora sozinha?
Dessa vez demorou mais. Muito mais. Quando respondeu, a leveza tinha sumido de vez.
Desconhecida:
Não.
Eu:
Com quem?
Ela visualizou. Alguns segundos depois...
Desconhecida:
Com uma pessoa que eu gostaria de nunca mais encontrar.
Li a mensagem duas vezes. Não perguntei mais nada. Percebi que existem perguntas que ainda não merecem resposta. Mudei de assunto.
Eu:
Tu trabalha?
Desconhecida:
Trabalho.
Eu:
Faz o quê?
Desconhecida:
Se eu contar... você descobre quem eu sou muito rápido.
Soltei uma risada.
Eu:
Então deixa.
Desconhecida:
Obrigada por entender.
Agradeceu. Guardei essa informação. Talvez esteja acostumada com pessoas que nunca respeitam os limites dela.
Eu:
O que tu faz quando não tá me perturbando?
Desconhecida:
Leio.
Desconhecida:
Escuto música.
Desconhecida:
Converso com minha melhor amiga.
Franzi a testa.
Eu:
Achei que sua melhor amiga era sua mãe.
Desconhecida:
Era. Hoje... minha melhor amiga é uma senhora de setenta e dois anos que mora ao lado da minha casa. Ela briga comigo quando eu pulo refeições.
Soltei uma gargalhada.
Eu:
Tu consegue fazer uma senhora de setenta e dois anos cuidar de ti?
Desconhecida:
Ela se voluntariou.
Eu:
Então tu dá trabalho.
Desconhecida:
Um pouquinho.
Percebi que voltou a brincar. Fiquei aliviado. Não queria terminar a noite vendo ela triste. Olhei para o relógio, já passou da meia-noite. Nem percebi.
Eu:
Já namorou?
Desconhecida:
Não.
Levantei uma sobrancelha.
Eu:
Sério?
Desconhecida:
Muito sério.
Eu:
Impossível.
Desconhecida:
Por quê?
Eu:
Porque tu conversa bem.
Ela demorou e depois respondeu.
Desconhecida:
Conversar por mensagem é muito mais fácil.
Aquela resposta me fez pensar. Talvez ela seja tímida. Muito mais do que demonstra. Sem perceber, comecei a querer entender como funciona a cabeça daquela mulher. Ela não parecia em nada com a imagem que criei. Não é invasiva. Não é maluca. Não é obcecada. Ela só... parecia muito sozinha. E essa constatação me pegou desprevenido.
Continuei olhando a tela, pensando na próxima pergunta. Mas, pela primeira vez... eu não estava tentando descobrir quem ela é. Estava tentando conhecer quem ela é. E talvez essa seja a maior diferença de todas.