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823 Words
Fiquei esperando. Ela visualizou. Não respondeu. Quase um minuto depois... Desconhecida: Pelo incrível que pareça... você acertou tudo. Franzi a testa. Eu: Tá de s*******m. Desconhecida: Juro. Eu: Impossível. Desconhecida: Às vezes você tem sorte. Soltei uma risada desacreditada. Eu: Ainda acho que tu tá mentindo. Desconhecida: Você só vai descobrir no dia em que eu criar coragem para deixar de ser um mistério. Li aquela mensagem mais uma vez. Depois outra. E outra. Coragem. Ela não fala em vontade, não fala em oportunidade. Ela fala em coragem. Pela primeira vez entendo que talvez ela não esconda o rosto porque quer brincar comigo. Talvez... ela só tenha medo do que vai acontecer quando eu finalmente souber quem ela é. Guardei o celular no bolso e me levantei. O céu da Rocinha já estava escuro, as luzes das casas começavam a acender uma por uma. Respirei fundo e percebi uma coisa que, até semanas atrás, eu jamais imaginaria. Ela não é mais apenas a mulher das mensagens. Agora... ela é alguém cuja ausência eu sinto. E isso, sinceramente... me assusta mais do que qualquer coisa. Dei alguns passos em direção ao quarto, mas parei. Balancei a cabeça. Que p***a é essa, Cairo? Tirei o aparelho do bolso outra vez. A conversa continuava aberta. Ela ainda estava online. Fiquei olhando aquela palavra como se esperasse alguma coisa acontecer. Ela não mandou mensagem. Eu também não. Mesmo assim... não consegui guardar o celular. Pela primeira vez em muito tempo... não queria que essa conversa acabasse. Passei o polegar sobre a tela algumas vezes até resolver escrever. Eu: Ainda tá acordada? Desconhecida: Achei que você tinha ido dormir. Soltei um sorriso sem perceber. Eu: Também achei. Ela mandou um emoji rindo. É simples, mas consegui imaginar ela rindo do outro lado da tela. Voltei para a varanda e me encostei. O vento da madrugada batia no rosto. Lá embaixo, a Rocinha nunca dorme completamente. Sempre tem alguém andando, algum bar aberto, alguma moto subindo, alguma criança insistindo em brincar mesmo tarde da noite. Olhei de novo para o celular. Eu: Posso perguntar umas coisas? Desconhecida: Hoje você tá curioso. Ri sozinho. Eu: Responde. Desconhecida: Depende da pergunta. Eu: Tu é maior de idade pelo menos? Ela demorou de propósito, tenho certeza. Quando respondeu, quase consegui ouvir a risada dela. Desconhecida: Sou. Eu: Quantos anos? Desconhecida: Vinte e um. Fiquei olhando para a tela. Vinte e um. Por algum motivo, imaginei que fosse mais velha. Eu: Caralho... achei que tu tivesse uns vinte e cinco. Desconhecida: Isso foi um elogio ou uma ofensa? Eu: Nenhum dos dois. Pela forma que tu fala... parece viver há muito mais tempo. Ela demorou. Dessa vez demorou de verdade. Quando respondeu, senti um peso escondido nas palavras. Desconhecida: Algumas pessoas precisam crescer antes da hora. Fiquei olhando aquela frase. Ela não explicou. Mas também não precisou. Eu: Mora sozinha? Dessa vez demorou mais. Muito mais. Quando respondeu, a leveza tinha sumido de vez. Desconhecida: Não. Eu: Com quem? Ela visualizou. Alguns segundos depois... Desconhecida: Com uma pessoa que eu gostaria de nunca mais encontrar. Li a mensagem duas vezes. Não perguntei mais nada. Percebi que existem perguntas que ainda não merecem resposta. Mudei de assunto. Eu: Tu trabalha? Desconhecida: Trabalho. Eu: Faz o quê? Desconhecida: Se eu contar... você descobre quem eu sou muito rápido. Soltei uma risada. Eu: Então deixa. Desconhecida: Obrigada por entender. Agradeceu. Guardei essa informação. Talvez esteja acostumada com pessoas que nunca respeitam os limites dela. Eu: O que tu faz quando não tá me perturbando? Desconhecida: Leio. Desconhecida: Escuto música. Desconhecida: Converso com minha melhor amiga. Franzi a testa. Eu: Achei que sua melhor amiga era sua mãe. Desconhecida: Era. Hoje... minha melhor amiga é uma senhora de setenta e dois anos que mora ao lado da minha casa. Ela briga comigo quando eu pulo refeições. Soltei uma gargalhada. Eu: Tu consegue fazer uma senhora de setenta e dois anos cuidar de ti? Desconhecida: Ela se voluntariou. Eu: Então tu dá trabalho. Desconhecida: Um pouquinho. Percebi que voltou a brincar. Fiquei aliviado. Não queria terminar a noite vendo ela triste. Olhei para o relógio, já passou da meia-noite. Nem percebi. Eu: Já namorou? Desconhecida: Não. Levantei uma sobrancelha. Eu: Sério? Desconhecida: Muito sério. Eu: Impossível. Desconhecida: Por quê? Eu: Porque tu conversa bem. Ela demorou e depois respondeu. Desconhecida: Conversar por mensagem é muito mais fácil. Aquela resposta me fez pensar. Talvez ela seja tímida. Muito mais do que demonstra. Sem perceber, comecei a querer entender como funciona a cabeça daquela mulher. Ela não parecia em nada com a imagem que criei. Não é invasiva. Não é maluca. Não é obcecada. Ela só... parecia muito sozinha. E essa constatação me pegou desprevenido. Continuei olhando a tela, pensando na próxima pergunta. Mas, pela primeira vez... eu não estava tentando descobrir quem ela é. Estava tentando conhecer quem ela é. E talvez essa seja a maior diferença de todas.
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