Marcelo dedilhava o violão em sua cama. Edgar observava tentando não intervir. O amigo até tocava relativamente bem algumas músicas, mas precisava de treino. Conhecendo a inteligência dele e sua facilidade em aprender coisas, quase apostava que as notas que tocava errado era algum tipo de brincadeira para tirá-lo sério.
Dos dois, o Bolivatto sempre foi aquele que tinha o ouvido musical mais exigente. E um olhar muito crítico sobre qualquer harmonia.
O sorrisinho de canto de boca de Marcelo quando o amigo franziu o cenho diante de mais uma nota errada o fez perceber que ele realmente o estava provocando.
— Como vão suas aulas de piano? — A pergunta do Gigante foi repentina, mas Edgar soube manter a expressão neutra.
— Bem, a professora é exigente, mas é boa.
— Meu pai disse que ela é gostosa.
— É uma excelente professora. Tem composições maravilhosas.
— Mas é gostosa?
— Isso é irrelevante. — Edgar quase se felicitou por aguentar firme, teria que cobrar uma recompensa no dia seguinte a professora. — Meu tempo com ela é muito bem aproveitado, mas confesso que acho uma pena sua aposentadoria precoce. O mundo da música perdeu muito.
— E o que essa ninfa está fazendo perdida em nossa humilde cidade?
— Descansando. Pensando o que fazer da vida, agora que tocar já não é uma opção. Pelo que me contou, é prima do desembargador, então, tem propriedades que foram herdadas na região.
— Parentes dos Mendonça? Interessante, nunca ouvi Rosana falando sobre ela.
— Talvez por que você não faça parte do seu círculo íntimo. Parece que ela não se dá bem com o primo. Na verdade, ela não curte muito vida social. Ela já admitiu que as pessoas costumam cansá-la com muita facilidade. Além de uns poucos empregados, a única que vejo por lá com alguma regularidade é Heidi.
— Heidi?
— Sim, ela faz um serviço muito parecido com o que faz para minha avó.
A menção da moça, Marcelo se mostrou ainda mais interessado.
— Tem certeza? Por que até onde a gente sabe, Heidi foi trabalhar em sua casa com terceiras intensões sobre você. O dinheiro que sua avó paga para ela é apenas um bônus adicional. A gostosona tem algum filho boa pinta?
— Não que eu saiba. Ela vive sozinha na propriedade.
— Isso é muito suspeito. A Heidi não dá ponto sem nó,
— Isso eu não sei. Dona Irina gosta muito dela...
Mas a imaginação de Marcelo já estava tecendo suas próprias fantasias.
— Será que as duas...?
— Cara, por que para você tudo tem que sempre terminar em sexo?
— Por que é a Heidi, cara.
Edgar ficou olhando para o amigo fingindo descrença. Há pouco tempo ele havia perguntado por que a moça o escolheu para aquela aventura e não o Marcelo que além de ser mais velho, já era maior de idade. Já havia percebido que a madame se incomodava (e muito) com sua idade.
— Você é muito mais maduro que seu amigo, digo mais, você é mais maduro que muito homem casado que conheço. Sei que não vai usar nosso caso para impressionar seus amigos, por mais tentador que seja. Sei que será sensível a tristeza da madame sem ser piegas. Acho que no final, tudo mundo sai ganhando. A madame vai ter uma boa distração. Você terá a oportunidade de decidir se quer mesmo largar a música e eu terei meus dois melhores amantes na mesma cama. É a solução perfeita para tudo. Se você conseguir manter o segredo.
— Eu não posso contar nem para o Marcelo? — Edgar perguntou na ocasião.
— Começa com você contando ao seu melhor amigo, que é de confiança. Ele conta a outra pessoa que também é de confiança. Que conta para outra e mais outra. Logo cai nos ouvidos de sua avó e a coisa fica feia. Foi por causa de amantes linguarudos que eu fiquei m*l falada e de vez em quando tenho alguns problemas. Você não conta a ninguém e a nossa brincadeira acontece por tempo indeterminado. É uma escolha simples.
Assim, quando ele se sentia tentado a contar as aventuras para o amigo, lembrava que poderia ser o fim delas, aí controlava a língua.
Por isso, fez questão de mudar de assunto.
— Soube que seu pai está na cidade.
— O seu também. — Marcelo rebateu. Sabia onde o amigo queria chegar e não queria ter aquela conversa.
As ausências cada vez maiores do Chaveiro estavam dando o que falar. Normalmente não havia grandes segredos em cidade relativamente pequena, mas um chaveiro vivia cercado de muitas lendas e poucas verdades.
O novo boato dizia que ele estava vendendo tudo o que possuía e deixando a cidade para sempre no final do ano. O fato do filho dele ter sido aceito em Oxford era o segredo recém descoberto que foi muito comemorado pelo prefeito, como se aquele feito fosse algo possibilitado pela sua gestão.
— Então vocês estão mesmo de mudança?
— Papai já está tirando a poeira dos sapatos. — O rapaz sorriu com ironia. — Ele m*l consegue esperar que esse ano acabe.
O chaveiro dizia que quando fosse embora não queria nem mesmo levar a poeira daquele fim de mundo.
— Conhecendo o seu pai, acredito que ele não levará nem mesmo os sapatos.
— Sim, vai doar todos os nossos pertences e começar do zero.
— Vocês vão vender mesmo a fazendinha de sua avó?
— Tudo. — O gigante respondeu com certa satisfação. Sonhava com o dia que deixaria aquele lugar e aquelas pessoas.
E agora que sabia que seria possível encontrar Rosana na Europa e continuar seu romance longe dos olhos de todos, tudo se tornava ainda mais perfeito.
No fim, sabia que poderia convencê-la a ficar com ele de uma vez. Ela já seria maior de idade e poderia escolher.
— Vovó vai sentir falta de vocês.
— Ela não vai morar com o Carlos?
— Está irredutível. Ele já tentou de tudo, mas ela diz que só vai deixar sua casa quando morrer. No fim, pai está tentando convencer uma prima dela a mudar para cá.
— Até agora ninguém propôs que você escolhesse uma universidade no estado?
— Vovó ficaria magoada se fizesse isso. Ela sabe que tenho grandes planos e não quer ser aquela que vai atrapalhá-los.
— Entendo. De o jeito ou de outro ela vai colocar você porta a fora.
— Exatamente.
— E você ainda não pensou em um plano B?
— Na verdade sim. Acho que terei alguns resfriados no primeiro semestre, ligar dizendo que estou m*l e aposto que em dois tempos ela bate lá.
— E uma vez lá, você vai alegar que não vive sem ela.
— De jeito nenhum. Vou ficar todo tempo dizendo que me viro sozinho. Mas a geladeira estará vazia e o apartamento um chiqueiro.
— Cara, quero morrer seu amigo.
— Pois é. Ontem eu contei para papai meus planos. Ele ficou aborrecido, mas sei que vai se acostumar. Ele tem uma nova família agora, não sei porque essa insistência em colocar no meio dela.
— Pensei que você gostasse da Raquel e da Beth.
— Eu gosto.
— Mas não quer viver com elas.
— Isso é diferente.
— Desculpe, mas preciso de uma resposta mais elaborada.
Edgar pensou em que maneira ela poderia explicar melhor aquela situação, sem parecer um playboyzinho mimado. Era uma missão quase impossível.
— Ele nunca me perguntou o que eu queria. Quando foi embora, quando me deixou com a vovó. Quando se casou, quando adotou a Beth. Eu sempre fui informado quando já estava decidido. E nem podia opinar: como poderia reclamar de ficar com a vovó quando ela estava tão triste? Como eu poderia reclamar de uma madrasta que era um doce? Como reclamar de uma irmã que precisava de um lar? No fim, eu tenho que me adaptar a mudanças bruscas em minha vida e ainda ficar feliz com elas.
— Cara, eu acho que você está exagerando... o Carlos não é esse tipo de cara.
— Eu sei que você não vai conseguir entender como eu me sinto. Seu pai nunca o colocou em último plano em sua vida, você nunca teve que aceitar as sobras e viver satisfeito com o que tinha.
— Como você fala, parece que seu pai o deixou no relento e não em uma mansão.
— Exatamente. Eu não posso reclamar por que eu sempre tive tudo. No final eu sou apenas um garoto mimado que quer se vingar do pai por ter sido deixado de lado.
— Eu não disse isso, só acho que...
— Eu sei o você acha. Aliás, sei o que todos vão pensar, mas agora que posso mandar em minha própria vida, se papai decidiu que quer ter uma vidinha de família esse é um problema dele, não meu.
*~*~*
Muito mais tarde, Marcelo olhava para o teto da cabana, perdido em pensamentos, enquanto acariciava as costas de Rosana. A moça estava parcialmente deitada sobre o peito do namorado.
— O que está preocupando você? — Ela perguntou em determinado momento.
— O quê?
— Você está muito calado hoje. Seu corpo está aqui comigo, mas seus pensamentos não. Alguma coisa está o aborrecendo?
O rapaz sorriu.
— O Edgar.
A moça ergueu o tronco para olhar nos olhos do namorado.
— Vocês brigaram?
— Edgar brigar com alguém? Impossível. Ele é bonzinho demais. Sempre entende o lado de todo mundo.
— Mas você está aborrecido com ele.
— Não exatamente.
— O que aconteceu?
— Tivemos uma conversa hoje. A mais longa de que tivemos nos últimos meses.
— Acho que isso é minha culpa. Todo tempo livre que você consegue passa comigo.
— Não é isso. O Edgar é uma pessoa dificil.
— O Edgar?! Mas ele é sempre tão apaziguador. Fiz um trabalho com ele no grêmio e em enquanto todo mundo estava brigando, ele tomou as rédeas da situação e organizou tudo. De um jeito que nem eu conseguiria. Acho que ele é um líder nato.
— Edgar é muito observador e um excelente ouvinte.
— E como isso o torna uma pessoa dificil?
— Exatamente por isso. Enquanto ele escuta todo mundo, não fala de si mesmo com ninguém. Enquanto ele observa, é muito pouco observado. Nós somos amigos, mas a maior parte do tempo eu não faço ideia do que ele quer, ou o que vai fazer.
— Pensei que vocês fossem confidentes.
— E somos... tanto como podemos ser. Edgar para mim é como um livro aberto, mas um bom livro de mistério. É preciso ir juntando as pistas que ele deixa para montar o quebra-cabeça, ainda assim, no final quase sempre eu percebo que entendi tudo errado.
— E o que você entendeu agora que o deixou aborrecido?
— Eu nunca havia percebido o quanto ele se ressentia pela nova família do pai.
— Pensei que eles se davam bem.
— E se dão. Eu já passei muitas férias com eles e quando juntos, eles se comportavam como uma família normal. A Beth, irmãzinha do Edgar é uma peste, mas a gente nunca fica muito tempo irritado com ela. E ele a adora.
— Mas...?
— Ele se sente deixado de lado pelo pai. Tanto que vai cursar uma universidade bem longe de casa apenas para não morar com eles.
— Bem, até aí eu acho natural que ele busque independência, muita gente faz isso.
— Nada do que Edgar faz é aleatório. Ele está marcando uma posição.
— Que posição?
— Ele está se afastando da família. Acho que uma vez que ele coloque essa distância, vai tentar se afastar cada vez mais.
— E isso seria tão r**m porque?
— Edgar vai ficar sozinho. Eu conheço meu amigo, não deixa as pessoas entrarem em sua vida facilmente. É simpático e sociável, mas você já observou o quanto reservado ele é?
A moça pensou um pouco e Marcelo percebeu que ela começava a entender a preocupação dele.
— E agora você estará do outro lado do mundo.
— É, ele não vai poder correr para minha casa quando as coisas estiverem incomodando-o só para falar bobagens, enquanto tenta entender como deve lidar com o problema da vez.
— Mas ele não fala nada? Nunca?!
— É como eu disse. Quando ele está disposto temos pedaços de conversas que preciso contextualizar para tentar entender o que está acontecendo. Quando está com algum problema, ele aparece em minha casa, passamos a noite jogando videogame e no dia seguinte, ele vai para casa. Então até que a apareça o próximo problema, seguimos com nossas vidas.
— Que coisa estranha.
— Funciona com a gente.
— Você se incomoda em guardar dele segredo sobre a gente?
— Não. Um dia ele vai saber. Não precisamos contar tudo um para o outro. Nossa amizade não é medida em quanto segredos guardamos, mas em quantas vezes podemos contar um com o outro. Meu pai diz que em alguns aspectos eu sou muito parecido com meu amigo. Eu sei posso contar com ele em qualquer situação, mas não somos bons em expressar nossos sentimentos.