3. Leste

4872 Words
Astrea estava em agonia, e era pior do que qualquer coisa que ela já tinha experimentado antes. Uma agulha invisível vinda do inferno perfurava sua pele, enviando uma dor excruciante por todo o seu corpo. Sua loba, Nova, estava uivando por dentro, e isso era de partir o coração considerando que ela ainda não havia se recuperado de suas torturas anteriores. Demorava uma eternidade, e depois de um tempo, começava a parecer que nunca ia acabar. Ela m*l conseguia ficar de pé, agora apoiando a cabeça na mão sobre o vidro frio. Em pouco tempo, até a capacidade de gritar a abandonou. Ela não tinha certeza do que estava acontecendo mais, concentrando-se em tentar segurar seu vestido no lugar enquanto lágrimas quentes escorriam por suas bochechas. Isso não podia se comparar com nada que ela já tinha passado antes. Joran não parou e não lhe deu uma pausa, embora ela claramente precisasse de uma para voltar aos seus sentidos. Isso era uma nova forma de punição dele. Ele estava gostando. A única coisa que ela queria agora era resistir. De preferência com alguma dignidade restante, mas quando a escuridão começou a se fechar sobre ela, tornando a área que se podia enxergar cada vez menor até sobrar apenas um pequeno ponto, Astrea sabia que estava falhando miseravelmente. “Quase lá, Libélula." A voz rouca de Joran ecoou em seu ouvido enquanto ele continuava seu tormento, agora tocando sua clavícula, e parecia que ele a estava perfurando com facas. “Você está se saindo bem. Como sempre. Minha corajosa libélula…” Ela tentou respirar, mas parecia que alguma força estava a sufocando agora e aquele pequeno ponto de visão desapareceu quando a escuridão dominou, toda sua força a deixando. *** Astrea se esticou na cama, a seda macia acariciando seu corpo como uma brisa fresca. Ela se virou para abraçar o travesseiro como sempre fazia, e só então as memórias do dia anterior inundaram sua mente e a fizeram abrir os olhos. A luz de uma parede de vidro a cegou, mas apesar disso, ela sabia exatamente onde estava. No quarto de seu Professor. Os lençóis pretos, as almofadas douradas, a cabeceira de couro, e a parede espelhada ao lado da cama... Esse lugar era fácil de reconhecer. Ela esteve aqui apenas algumas vezes quando o Professor a chamava tarde da noite para lhe dar uma nova tarefa ou elogiá-la quando estava de bom humor. Ela se sentia realmente deslocada todas as vezes, tentando sair o mais rápido possível. Eles nunca tiveram o tipo de relacionamento que exigiria que ela ficasse aqui por mais tempo do que a duração de suas conversas. Hoje era diferente porque ela estava na cama dele, sem ter ideia de quanto tempo havia passado ali e o que tinha acontecido. Uma rápida verificação mostrou que seu vestido de ontem ainda estava no lugar, embora o colar de diamantes ainda estivesse desfeito e fora de seu pescoço, fazendo com que o tecido caísse até sua cintura quando ela tentava se sentar. Era hora errada para se lembrar de que os aprendizes de ontem não trouxeram nenhuma roupa íntima para ela. Astrea chiou e resmungou quando o movimento trouxe de volta a dor em seu pescoço. Sua pele parecia queimada e insuportável de se tocar. Ela ainda queria se levantar porque tinha que ver o que ele tinha feito com ela. “Vamos com calma.” Joran entrou, vestindo apenas uma calça de pijama solta de seda preta, cada músculo de seu corpo esculpido à perfeição. “Você vai precisar descansar depois disso.” Ela queria se levantar, mas de alguma forma, ele estava logo ao seu lado mais rápido do que ela esperava e gentilmente a empurrou de volta para a cama. “O que eu disse?” Ele perguntou em um tom repreensivo, entrelaçando os dedos em seus cabelos para pô-los de lado. “Descanse. Você não vai a lugar nenhum hoje.” Astrea não gostou do som disso. “Eu...Eu não posso ficar aqui!” Ela protestou, e sua mandíbula se apertou. “Tenho medo que você tenha que ficar.” Ele a informou de forma objetiva. “Sua nova tatuagem precisa ser verificada por mim para garantir que ela se fixe bem e não cause dor a você.” “Está tudo bem!” Ela tentou descartar toda a situação, mas a dor dominou todo o seu corpo no momento em que ela se atreveu a se mover novamente. “Você precisa ser tão teimosa?” Ele suspirou e passou os dedos sobre seu pescoço. Ela estava pronta para tremer de dor, mas seu toque trouxe sensações suaves e refrescantes, provocando um gemido de alívio. Isso fez seu mentor sorrir. “Viu?” Ele provocou. “Estou apenas fazendo o que é melhor para você.” Depois de ele a ter machucado primeiro. Ela ainda não tinha ideia do que havia em seu pescoço. “Obrigada, Professor.” Sua voz soava tão sem vida e monótona, mas ela sabia que era exatamente o que ele queria ouvir. Eles haviam se conhecido bem durante os anos que passaram juntos. “Não.” Ele balançou a cabeça, e sua mão se moveu para acariciar seu ombro, fazendo todo o seu corpo tremer, o peito subindo e descendo em um ritmo acelerado. “Não?” Astrea arqueou a sobrancelha, e desta vez, ele passou o polegar sobre seu queixo, embora ela pudesse perceber que não havia nada ali para checar. “Você tem me desobedecido muitas vezes para me chamar de Professor agora.” Ele disse, seus olhares se encontrando. “Use meu nome de agora em diante.” "Eu...Eu... Eu não posso.” Ela confessou, segurando seu vestido em frente ao peito. Aquilo parecia tão estranho. Até mesmo antinatural. “Eu temo que você terá que fazer isso. Me dói ouvir você me chamar de Professor quando sei que você não quer dizer isso.” “Vou tentar dar significado a ela... De verdade.” Ela respondeu desajeitadamente, sabendo que soava boba e ele não estava acreditando. “Astrea, desde quando nosso relacionamento ficou assim?” Ele entrelaçou os dedos em seus cabelos, brincando com suas mechas compridas e claramente gostando disso. “Em algum lugar entre você ordenar aos outros Primogênitos para me caçarem e me matarem e me jogar no poço de prata por meses.” Ela admitiu, finalmente conseguindo se sentar novamente “acidentalmente” o impedindo de se divertir com seu cabelo. “Se eu tivesse dado ordem para te matar, você estaria morta. Isso você sabe.” Joran retrucou e suspirou. “Quanto ao poço de prata... Que opção eu tinha exatamente? Você precisava morrer por seu crime, e eu... Eu queria te proteger em vez disso.” Ela não respondeu a isso. Não parecia proteção para ela, mas ela sabia que era melhor não dizer isso em voz alta. Ela queria sair, e para fazer isso... ela tinha que jogar o jogo. No entanto, ele não acreditaria nela se ela não fosse esperta sobre isso. Ela tinha que continuar em seu personagem. “Tinha que demorar tanto?” Ela perguntou, virando o rosto, e ele segurou sua bochecha em sua palma, fazendo-a olhar para ele novamente. “Tinha. Eu tinha as outras Libélulas me pedindo todos os dias para te matar, como eu deveria. Afinal, você matou Amber.” Joran olhou diretamente em seus olhos, e ela sabia que pelo menos essa parte era verdade. Amber era a outra espiã enviada junto com ela para o Reino do Norte, outra Libélula que a odiava com paixão, e no momento em que percebeu o plano de Astrea para escapar, sua vida acabou. Deixá-la viva não era uma opção. “Eu não a matei a sangue frio.” Astrea engoliu desconfortavelmente. “Nós lutamos, e foi uma luta honesta.” “Mas você sabia que ela não tinha chance contra você.” Ele zombou dela. “Eu sabia, mas ela não pensava assim.”A assassina encontrou o olhar de seu mentor. “Se houvesse uma escolha, eu nunca-” “Veja, agora você sabe como eu me sinto por não poder proteger você melhor,” Joran acariciou sua bochecha novamente, e ela suspirou. “Obrigada.” Sua voz era quase um sussurro, mas ele ouviu, e seus lábios se curvaram em um sorriso convencido. “Isso é muito melhor.” Joran se levantou da cama e ofereceu a mão a ela. “Agora, venha e veja meu novo presente para você.” Ela o seguiu, agora tentando manter o vestido no lugar com apenas uma mão enquanto ele a levava para a parede espelhada mais próxima. Joran amava espelhos. Seu cabelo estava cobrindo seu pescoço, e mais uma vez, seu Professor gentilmente passou os dedos por ele, puxando-o para trás. “Como estrelas líquidas.” Ele murmurou, mas ela não estava ouvindo. Seu olhar estava grudado no que agora estava em seu pescoço. Hipnotizada de choque, Astrea não conseguia formar uma única palavra enquanto observava uma serpente intrincadamente enrolada tatuada em torno de seu pescoço. Parecia um padrão de colar da moda gravado em sua pele, onde a cabeça m*l tocava a cauda, no entanto, aquela coisa parecia estar viva. A garota atônita tentou tocá-la, e ela se contorceu como se não quisesse ser perturbada. “Você gostou?” Joran envolveu um braço em volta da cintura dela, puxando-a para seu peito por trás enquanto sua mão acariciava a serpente em sua pele. E era esse toque que a serpente não se importava. Na verdade, ela adorava tanto que Astrea quase gemeu quando as duas se conectaram, jogando a cabeça para trás. “O que-” Ela tentou recuperar o fôlego. “Não se preocupe.” Ele riu suavemente. “Ainda dói e precisa se acostumar com você, mas logo vocês serão inseparáveis.” E era exatamente esse o problema. “Você disse que me deixaria ir.” Ela lembrou a ele, e ele pausou. “Eu disse, não é?” Seus lábios se curvaram ligeiramente. Ele sabia exatamente o que ela estava pensando. “Astrea, isso é para sua proteção. Enquanto você o tiver, vou ficar tranquilo sabendo que você está segura. Se estiver em perigo, eu irei atrás de você. Eu gostaria de ter criado uma conexão assim entre nós antes. Talvez então você soubesse que eu não teria te machucado se você simplesmente tivesse vindo até mim e me contado a verdade. Sinto como se... Nós estivessemos nos entendendo m*l ultimamente.” “Você vai saber tudo que eu faço?” Ela se viu perguntando, a voz quase quebrada. Isso era apenas outro tipo de coleira, e ela tinha acabado de se livrar da que tinha usado por meses. “Isso seria um problema?” Ele segurou o olhar dela no espelho e zombou dela, ainda brincando com a pequena serpente. “Eu pensei que você tivesse decidido ser uma garota boazinha a partir de agora.” “Garotas boazinhas também gostam de um pouco de privacidade.” Ela quase resmungou para ele, mas no último momento, ofereceu-lhe um sorriso provocante para encobrir sua frustração. “É apenas para proteção." Joran assegurou. “Isso vai mantê-la segura e no caminho certo. Eu vou poder me conectar com você onde quer que esteja e sentir se você está em perigo.” Ela não tinha certeza se queria saber mais agora. “Dito isso.” Ele se inclinou mais para baixo, e parecia que a pequena serpente o seguia, pois ela seguiu cada um de seus movimentos. “ Até mesmo serpentes precisam dormir. Você terá privacidade suficiente, mas eu nunca mais vou perder você. Não como da última vez.” Ela sentiu seus lábios pressionando contra a tatuagem que se contorcia, e esse toque fez toda a dor desaparecer, a tinta brilhando intensamente até que a pequena serpente se acomodou em sua posição original e congelou. Astrea realmente preferia assim. “Mas minha liberdade-” “Será sua.” Joran suspirou e se afastou imediatamente, como se quisesse evitar aquela conversa. “Tudo que você precisa fazer é completar sua missão e voltar para mim para reivindicá-la. Então, como prometi, se ainda quiser a liberdade, eu a darei a você.” Ela sentiu que havia uma pegadinha, mas não era hora de irritá-lo ainda mais. Ela já estava perigosamente perto de seu limite. “Gostaria de tomar café da manhã?” Joran perguntou como se fossem um casal antigo. Embora no passado, eles costumassem tomar as refeições juntos. Afinal, ela era sua Libélula favorita. Agora parecia desajeitado e fora de lugar. “Estou um pouco enjoada depois do jantar que tivemos.” Ela levantou a sobrancelha para ele, apontando para seu pescoço. “Vai demorar um pouco até eu poder comer. Então, prefiro me preparar para minha missão.” Ele não pareceu satisfeito com sua resposta, mas a contemplou mesmo assim. “Eu queria que você descansasse para esta noite.” Seus olhos voltaram para a enorme cama preta, e Astrea estremeceu. Ele nunca a havia convidado para sua cama ou oferecido algo além de orientação antes, e ela desejava esse mesmo tratamento novamente. “Você acabou de me curar.” Ela apontou para a tatuagem com um sorriso forçado. “Não há necessidade de perder tempo. E eu não tenho treinado há um tempo. Me sinto um pouco enferrujada.” “Nada de treinamento hoje.” Ele a proibiu imediatamente. “Você pode estudar a pesquisa que preparei para você, pode se encontrar com a Alisha em seu antigo quarto e preparar seu guarda-roupa e quaisquer armas ou dispositivos que você possa precisar. Mas só isso até que eu diga o contrário. Você não sai desta casa, você não encontra com nenhum Primogênito que não tenha sido convidado aqui, você come, você dorme, você cuida de si mesma. E você janta comigo todas as noites. Essa é uma ordem. Estamos entendidos?” Esconder sua decepção era difícil, mas ela assentiu com a cabeça. “Claro, Professor.” “Joran.” Ele lembrou a ela como preferia ser chamado agora e ela engoliu o nó na garganta. “Jor-an.” As palavras eram amargas em sua língua. “Mais uma vez.”A Serpente, no entanto, estava se divertindo com isso. “Joran.” Astrea repetiu, confiante desta vez enquanto seus olhos se encontravam. Ela era uma profissional, afinal. “Viu, não foi tão difícil, foi?” o deus Dragão soltou uma risada, sem tirar os olhos dela. “Essa é a evolução do nosso relacionamento, Astrea. Tantas coisas incríveis estão por vir.” Deus, ela realmente esperava que não fosse o caso. *** Ele permitiu que ela retornasse ao seu antigo quarto e no momento em que estava lá, ela sentiu que precisava fazer algo. Ao mesmo tempo, sabendo que, ela não podia fazer muito. Ela se olhou no espelho, ofegante e viu a coleira de cobra em seu pescoço. Astrea odiava coleiras, e agora ela era uma orgulhosa dona de uma permanente. Ou... Ela era a que estava sendo possuída? O olhar dela caiu em suas longas madeixas prateadas e brancas, e as palavras de Joran ecoaram em sua mente, “Como estrelas líquidas”. Ele realmente amava mexer em seu cabelo, e agora era a única coisa que ela poderia privá-lo. Então, Astrea pegou a tesoura e cortou a primeira mecha de cabelo antes que pudesse mudar de ideia. A cobra em seu pescoço se enrolou com raiva, e a sensação a fez continuar. Corte. A dor retornou, mas apenas aumentou sua raiva. Corte. Ela podia ouvir os sons de passos. Corte. As últimas mechas caíram a seus pés, e a porta se abriu com força. “Que p***a é essa?” Joran rangeu os dentes quando viu a prateada brilhante no chão. Um sorriso malicioso alcançou seus lábios. Pelo menos ela recuperou um pouco de controle. *** O dia em que Astrea tinha que partir para o Leste se aproximava rapidamente. Não que isso a incomodasse. Ela m*l podia esperar para escapar deste lugar. Joran a encontrou no helicóptero, o que também a lembrou do passado. Ele costumava acompanhá-la quando partia e saudá-la quando retornava. Um privilégio que ele só estendia a ela. A única vez em que ele não fazia isso era quando a arrastavam para aquela cela... “Faça rápido e volte para casa.” Ele disse, com as mãos nos bolsos da calça. “Eu voltarei pela minha liberdade.” Ela lembrou a ele da principal razão pela qual ela retornaria, e sua mandíbula tremeu. Ao mesmo tempo, a cobra em seu pescoço se contorceu ligeiramente. Ela nunca se acostumaria com isso. “Um acordo é um acordo.” A Serpente sorriu, mas não alcançou seus olhos. “Desde que a missão seja concluída e você volte em segurança, estou feliz. Aliás, tenho uma surpresa para você.” As últimas palavras fizeram Astrea ficar tensa, mas então ela viu Niki saindo do prédio mais próximo em seu uniforme de treinamento de batalha preto, e seus lábios se separaram. “Sabia que você ia gostar disso.” Joran se inclinou sobre ela e sussurrou, os lábios quase roçando em sua orelha. “Você tem um minuto. A Ascensão dela é hoje e ela está com um pouco de pressa.” Niki correu para os braços dela, e finalmente Astrea pôde abraçar sua protegida, o vento chicoteando seus cabelos enquanto permitiam a si mesmas um momento de fraqueza. No entanto, ela também tinha que estar ciente do tempo. Tantas coisas precisavam ser ditas, mas eles tinham que ter muito cuidado para não criar novos problemas. “Fico tão aliviada que você está bem!” Niki murmurou entre lágrimas, sabendo que não podiam falar mais alto. “E seu cabelo está mais curto! Fica tão legal!” “Escute-me muito atentamente.” Astrea sussurrou. “Você precisa sobreviver à Ascensão, e quando fizer isso, espere por mim voltar. Quando eu voltar, nós vamos sair deste lugar maldito. Eu prometo.” Ela sentiu o corpo de Niki ficar rígido em seus braços e percebeu seus olhos se arregalando ligeiramente. “Mantenha-se segura e não confie em ninguém.” Ela acrescentou, e exatamente neste momento Joran pigarreou, o que significava que eles teriam que se separar novamente. “Boa sorte em sua missão.” Niki ofereceu um sorriso fraco. Era provavelmente a pior hora para mexer com sua cabeça, mas não havia melhores opções. As lâminas do helicóptero começaram a girar. Era oficialmente hora de partir. “Estaremos esperando por você aqui mesmo.” Joran colocou uma mão no ombro de Niki, e isso fez o estômago de Astrea embrulhar. Ele sabia exatamente o que estava fazendo - garantindo que ela voltasse. No entanto, não havia nada que ela pudesse fazer agora. Sua missão a esperava e, com ela, os riscos para sua própria vida. “A missão vem em primeiro lugar.” Nova lembrou a ela por meio de sua ligação mental, sua voz era reconfortante e tranquilizadora. “Lidamos com um problema de cada vez.” “Como sempre.” Astrea pegou seu assento no helicóptero e colocou seus fones de ouvido enquanto se preparava para um longo voo. Havia maneiras de tornar seu trabalho no Leste curto e bem-sucedido, e ela os repassava mentalmente a caminho. Nova finalmente se recuperara de tudo e agora podia aconselhá-la adequadamente. “Estamos quase lá!” O piloto disse secamente através dos fones de ouvido, e ela reconheceu um dos homens-ursos que a capturaram durante sua tentativa de fuga. Isso não era um bom sinal, mas ela tentou não mostrar seu descontentamento. Sim, ela provavelmente matou os amigos dele durante sua tentativa de fuga. No entanto, isso provavelmente poderia ser dito sobre muitos outros também. Além de Niki, ela não tinha amigos ali. Para distrair a si mesma, ela decidiu olhar para baixo e viu a fronteira leste, facilmente reconhecível pela floresta em que ela lutou uma vez, e o deserto que a tocava suavemente com suas areias douradas, uma mistura difícil de encontrar em qualquer outro lugar do mundo. Astrea se lembrou de como viu uma magnífica criatura n***a por aqui. Agora era difícil saber com certeza se não era apenas produto de sua imaginação ou algo que realmente existia. Apenas a memória disso fazia seu coração bater mais rápido. A paisagem mudou novamente, e a primeira coisa que chamou a atenção de Astrea foram as cidades abandonadas. Havia tantas delas... A vida e a felicidade deixaram este reino há um tempo. Isso era algo que o tornava tão atraente para os renegados agora - não havia matilha aqui, não havia Alfas para servir ou temer. Ninguém queria essas terras, e os marginais foram os únicos a reivindicá-las. Em breve, eles chegaram a outra cidade, mas esta tinha sinais de vida. Não era muito impressionante, não como as cidades movimentadas e polidas da República. Não como o confortável Oeste ou aconchegante e antiquado Norte. Astrea notou pessoas nas ruas, lojas abertas, e carros velhos viajando por estradas desgastadas. Meus deuses, era com isso que ela teria que trabalhar? A República riria deles quando os vissem. Eles pousaram ao lado de uma longa mansão muito espaçosa que estava aninhada no meio de uma montanha seca, o prédio provavelmente servindo como uma espécie de fortaleza para proteção. Daqui, você podia ver a cidade abaixo e saber de antemão se ela estava sendo atacada. Quem quer que morasse ali tentava preservá-la da melhor maneira possível, mas claramente tinha visto alguma vida e precisava de muito trabalho. As colunas de luz e os arcos pareciam um pouco desgastados, o que, na opinião de Astrea, apenas lhes dava mais charme. Uma pequena delegação de quatro pessoas estava esperando por ela no local de pouso designado. Os marginais estavam ansiosos para conhecer a representante da República Lycan do Sul, e Astrea endireitou seu vestido de seda midi, se preparando para causar a primeira impressão. Ela sabia muito bem que isso contava muito. Seria especialmente crucial com os marginais, já que eles teriam que testá-la, já que claramente tinham suposições sobre ela. Quando as lâminas pararam de girar, um homem enorme com longos cabelos negros em dreads e uma grande cicatriz atravessando a pele morena de sua bochecha abriu a porta, os olhos se arregalando quando viu ela. “Uma garota?” Ele nem tentou esconder sua falta de entusiasmo e a decepção em seus olhos azul brilhantes. “A República nos enviou uma garota?” “Como adulta, eu sou chamada de mulher.” Astrea inclinou a cabeça, dando a ele um sorriso pequeno mas amigável. “Vocês estavam desesperados por um conselheiro e um profissional de relações públicas, e...Bem, aqui estou eu. Vocês não vão encontrar ninguém melhor.” “Ele não vai ficar feliz com isso.” O cara resmungou, mas ela o ignorou e saiu por conta própria, já que ele não parecia oferecer sua mão. “Quem é ele?” Ela perguntou diretamente enquanto o cara coçava a nuca, a observando atentamente. “O Rei.” Ele respondeu sem entusiasmo e ainda não se apresentou. Mas ela poderia descobrir seu nome depois. “Ah, tenho certeza de que encontraremos uma maneira.” Ela sorriu forçadamente. O Rei teria que lidar com a presença dela. Astrea seguiu na direção das outras pessoas e tentou descobrir qual delas era o rei. Se havia algum. Havia dois homens e uma mulher com cabelos castanhos claros, o que limitava suas opções. No entanto, nenhum deles transmitia uma aura real. Os renegados não gostavam de ouvir ninguém, então seu líder teria que possuir pelo menos algum tipo de aura de Alfa. Um dos homens estava usando um terno vermelho brilhante, seu cabelo comprido preso em um coque no alto de sua cabeça. Ele era o único que a olhava curiosamente, mas era muito improvável que os renegados o obedecessem. “Uma garota?” A outra mulher ergueu a sobrancelha enquanto avaliava Astrea, lhe oferecendo um olhar de desdém no final. “Você também, não é?” A Sulista provocou, devolvendo a expressão facial que recebeu e um cara mais jovem de cabelos loiros-escuros riu disso. Isso não estava indo exatamente como ela esperava. Os renegados eram os que precisavam da República. Não o contrário. No entanto, eles se comportavam como se ela fosse algo desagradável. “Eu discordo!” A outra mulher revirou os olhos, cruzando os braços sobre o peito. “Bem, temos o que temos.” O homem mais jovem disse simplesmente. “Vamos!” Nenhum deles disse mais uma palavra para ela, pois todos simplesmente se viraram e começaram a caminhar. Astrea tentou acompanhar seus grandes passos poderosos em seus saltos altos, mas não muito. Quanto mais fraca eles achassem que ela era, melhor. Eles não a levariam tão a sério quanto deveriam, e isso poderia, potencialmente, dar a ela mais liberdade para rondar no futuro. “Com licença, para onde estamos indo?” Ela perguntou depois de um tempo. Este palácio era longo, e o pátio interno parecia não ter fim! Estavam apenas mostrando o lugar a ela? “Para conhecer Fenrir.” O homem com a cicatriz e dreads respondeu como se tivesse que significar algo para ela. “Fenrir?” Ela riu. “Como o antigo deus lobo?” “Como o Rei do Leste!” A mulher resmungou. Algo dizia a Astrea que ela não gostava muito dela. Seus cabelos estavam trançados em um estilo guerreiro que parecia intrincado e excessivamente complicado, mas também...Provavelmente estava intocado há dias. “Entendi.” Astrea forçou um sorriso animado mesmo assim. “Isso é maravilhoso! Quanto mais cedo nos conhecermos, mais cedo poderemos começar a trabalhar juntos!” E havia muito trabalho a ser feito se eles tivessem que parecer apresentáveis para os esnobes da República assinarem a aliança. Estes quatro eram típicos renegados. Ok, três deles eram. Ela não tinha certeza sobre o Terno Vermelho ainda. Tudo isso levado em consideração, eles definitivamente não tinham a aparência que Joran queria que eles tivessem em sua próxima reunião. O grupo deles chegou ao pé de um longo conjunto de escadas que levavam a uma torre alta fechada. Ninguém disse mais uma palavra para Astrea e ela não tinha certeza se era uma boa ideia puxar assunto agora. Não, Nova riu em sua cabeça. Claramente, eles preferem ação a palavras e haverá tempo para isso. Astrea percebeu que todos estavam se comunicando através da ligação mental e provavelmente ela já sabia do assunto. Agora ela tinha que esperar pelo Rei, que provavelmente estava prestes a aparecer. A espera, no entanto, acabou sendo um pouco longa e ela estava ficando frustrada, embora nada em seu rosto mostrasse isso. As portas no topo das escadas se abriram com violência e ela viu o homem mais lindo em que já pôs seus olhos congelar quando seus olhares se encontraram. Astrea não esperava que ele fosse assim, não espera que se sentisse dessa forma... Ondas e ondas de poder bruto emanando dele, preenchendo tudo ao redor deles. Seus olhos eram uma estranha mistura de azul e vermelho. Como se chamas de fogo estivessem queimando no centro de um iceberg. Seus cabelos castanhos escuros estavam chegando aos ombros, e uma barba cuidadosamente aparada emoldurava seu rosto masculino com traços fortes e perfeitos. O homem era excepcionalmente alto, mesmo para um metamorfo, com músculos pulsantes sob sua camisa preta desabotoada, que também deixava vislumbrar seus tanquinhos esculpidos. O Rei Renegado, e ela não tinha dúvida de que era ele, foi feito para o pecado, e até mesmo Astrea engoliu em seco, percebendo para onde seus pensamentos foram. Droga, aquele lobo era bom de se ver. Além disso, ele a encarava como se ela fosse uma gota de chuva no meio do deserto incandescente, os olhos percorrendo seu pequeno corpo, garganta engolindo em seco algum sentimento que ele não conseguia expressar. Havia desejo e anseio, e tudo parecia estranhamente familiar,a desviando de seu jogo. Ele a fazia lembrar de alguém, mas no momento, seu cérebro não conseguia entender se eles já tinham se encontrado antes. Ela não achava que sim porque... ela definitivamente se lembraria dele. "Fenri..." Um dos homens começou a falar e depois tossiu, "Quer dizer, meu Rei. Esta é a representante da República Licana do Sul. Er...” Ela estava tentada a não preencher a pausa constrangedora. Afinal, nenhum deles se deu ao trabalho de perguntar seu nome. E era divertido vê-los sofrer por isso agora. No entanto, ela estava em uma missão aqui. A missão que exigia que ela fosse amigável. "Astrea Sade." Ela deu ao Rei seu sorriso mais brilhante e doce. "É um prazer trabalhar com você. Tenho certeza de que..." "Não!" Ele a interrompeu, os olhos não a deixando por um segundo. "Considere o pedido cancelado e volte." Sua boca se abriu, já seca nesse clima insuportavelmente quente, e ela teve que lamber os lábios antes de falar, fazendo o Rei rosnar em resposta. "Com licença, vossa majestade." Ela disse o mais educadamente possível. "Eu vim aqui para ajudar você e seu... País com a nova aliança." "Peça para mandarem outra pessoa então!" Ele a interrompeu e, virando-se, saiu de onde veio.
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