4. Boas-vindas Calorosas

2256 Words
Ele simplesmente foi embora assim, deixando Astrea sozinha com seu grupo de renegados. Ela não conseguia entender isso. Ele estava falando sério? Era o fim para ele? Isso tinha que ser uma piada i****a dos renegados! Eles precisavam dessa união mais do que o Sul! "Bom, você ouviu o cara." O cara com dreads riu. "Fora daqui então. Pena que essa aliança não deu certo." Embora ele não parecesse estar arrependido por isso. "Quem sabe da próxima vez!" A mulher ao lado dele debochou e saiu primeiro, como se não houvesse mais espaço para discussão. Outros a seguiram. Somente o homem de terno vermelho ficou, a observando curiosamente com as mãos nos bolsos. Astrea estava sem palavras. Eles esperavam que ela fosse embora? Cada músculo do seu corpo ficou tenso. Foi por isso que Joran a deixou ir tão facilmente nessa missão, lhe prometendo liberdade em troca? Será que ele sabia que ela não tinha chance? Era um teste para ver se ela tentaria fugir novamente? Ou era a intenção humilhá-la? Ele queria que ela visse que não havia nada para ela no Leste, tirando sua última esperança. É claro, seu plano sempre foi sair do continente. Ela não sonhava em viver entre renegados por muito tempo. Tendo tudo isso em consideração, esse plano estava se tornando cada vez mais irrealista. Ela não poderia voltar para seu Professor de mãos vazias. Ele a faria ficar ao seu lado para sempre, e ela teria que viver com isso, o obedecendo até o dia da sua morte. Eles fizeram um acordo. Se ela completasse essa missão, ela seria livre. Se ela não completasse... Ele ainda seria dono dela. A cobra da coleira em seu pescoço ficaria para sempre. Não! Nova rosnou dentro dela. Não vamos voltar para lá. Não assim! Concordo, Astrea respirou fundo, tentando formar um novo plano em sua cabeça. Perder não é uma opção. Ela girou nos calcanhares e encarou o último malandro restante. "Ele não está falando sério." Ela declarou com as sobrancelhas franzidas, ainda esperando que isso fosse algum tipo de piada doentia. "Ah, não, ele está falando muito sério." O cara de vermelho respondeu, o vento agitando seus cabelos longos e brilhantes enquanto ele a observava curiosamente com seus olhos âmbar. Ele poderia fazer propaganda de xampu na TV se vivesse em um país mais civilizado. Na verdade, ele se destacava na multidão ali com seu terno chique e elegante, enquanto seus amigos que haviam partido pareciam não se importar muito com suas roupas. "Foi um milagre ele ter concordado em falar com seus líderes, permitindo que você entre aqui. Ele odeia estranhos. E política. E pessoas em geral. Especialmente os do Sul. Embora, isso não seja surpresa, Fenrir não gosta de ninguém!" "O que os do Sul fizeram com ele?" Astrea perguntou e quase imediatamente se arrependeu. Eram renegados. Um lobo tinha que ser expulso de sua alcateia para se tornar um renegado. Nenhum deles tinha algo bom para dizer sobre os outros reinos, especialmente a República Licana do Sul, que provavelmente tinha as leis mais brutais e estava eliminando qualquer pessoa considerada fraca ou indigna. "É uma longa história." O homem de vermelho admitiu, dando de ombros com as mãos ainda nos bolsos. Vê-lo usando um terno perfeitamente ajustado naquele ambiente era estranho. Todo mundo se vestia de forma bem mais casual. "Uma pena que a aliança tenha sido tão curta. Eu havia preparado um banquete para nós. Teria sido divertido." "Uma pergunta." Astrea decidiu interromper seu monólogo, incapaz de acompanhar a conversa fiada. "Quão rígidos vocês são em relação às regras aqui?" "Depende de quem está perguntando e qual regra estamos quebrando." O cara sorriu de forma provocativa para ela, parecendo intrigado. "Digamos que eu siga o rei de vocês para uma conversa agora." Ela sugeriu inocentemente. "Você e outros tentariam me impedir?" Ela poderia enfrentá-los, é claro, mas precisava saber primeiro se haveria necessidade de se trocar por algo mais confortável para a possível briga. O renegado a encarou por um momento antes de começar a rir alto, preenchendo o espaço ao redor deles. "Você quer falar com Fenrir depois que ele especificamente te disse para ir embora?" Ele tirou um lenço de seda pequeno e enxugou as lágrimas que se formaram em seus olhos. Claramente um amante de drama. "Fique à vontade, e não, ninguém vai te impedir. Mas vamos assistir o show. Esse cara odeia ser contrariado. Ninguém ousa contactá-lo. E ele odeia quando alguém entra em sua Torre. Eu nem me atrevo a colocar os pés lá sem ser convidado." "Mas –" Astrea parou quando seus lábios se curvaram em um sorriso malicioso. "Não é exatamente proibido, não é?" "Não, mas –" "Obrigada!" Ela não estava com disposição para ouvir qualquer coisa que pudesse potencialmente arruinar seu plano muito imprudente, então correu escada acima, determinada a ser ouvida. "Meu nome é Devoss, aliás! Devoss Kit!" O cara gritou atrás dela. "Astrea Sade!" Ela repetiu seu nome e acenou para ele com desdém, alcançando as portas maciças no topo. Infelizmente, estavam trancadas, e ela se virou para dar um olhar questionador a seu novo conhecido, esperando que ele pudesse fazer algo a respeito. Parecia que ele estava interessado em que eles tivessem uma conversa. "Não olhe para mim." Ele levantou os braços defensivamente. "Fenrir é o único com a chave." "Você não é muito útil, Devoss." Ela revirou os olhos, notando uma janela acima dela na parede da Torre. Não ficava tão longe do topo das escadas onde ela estava. Alcançável. E também sua última chance. Tire os sapatos primeiro, Nova murmurou. Não podemos quebrar as pernas. Vamos precisar delas para correr longe e rápido se isso não der certo. Não haverá lugar para correr se isso não funcionar, Astrea resumiu suas opções, tirando os sapatos de salto alto vermelhos. Devoss observou como ela pulou graciosamente nos corrimões e os percorreu como se fosse uma acrobata de circo, cada movimento treinado à perfeição. Um salto - E ela agarrou a borda da janela aberta, agarrando-se desesperadamente e tentando se levantar. Ela puxou seu corpo para cima e transferiu a maior parte de seu peso para os cotovelos, agora apoiados na beirada da janela. Dando uma olhada, Astrea viu uma sala espaçosa e minimalista que não se parecia em nada com os aposentos de um rei. Uma mesa com pilhas de papéis e pastas espalhadas por todo lugar, algumas estantes de livros velhas, uma mesa de jantar de tamanho médio e um baú de madeira esculpido ao lado de uma passagem que levava ao próximo andar. Não era o lugar mais aconchegante. Fenrir estava em pé ao lado da porta fechada, mantendo uma mão nela e usando a outra para cobrir os olhos. "Com licença!" Astrea finalmente conseguiu entrar e sentou-se na beirada da janela, colocando uma perna em cima da outra para parecer o mais despreocupada possível. "Mais que merda..." O renegado ficou chocado ao vê-la em seu quarto, mas rapidamente retomou a compostura, um rosnado baixo saindo de seu peito como um aviso. "O que você pensa que está fazendo?" "Tentando criar uma aliança entre nossos dois países." Ela ergueu uma sobrancelha para ele. "Uma aliança à qual você concordou." "Um erro." Ele retrucou, se afastando da porta e se aproximando dela. Ela não recuou e manteve o olhar fixo nele o tempo todo, fascinada com a combinação incomum de cores dos olhos dele certamente ajudando. Chamas no gelo. Algo lhe dizia que isso era um testemunho de seu caráter. "Ainda é um acordo que foi feito." Astrea permaneceu firme, ciente de que ele estava a avaliando agora: seus cachos prateados quase brancos chegando apenas aos ombros, o fino vestido vermelho escorregadio que ela usava sob sua jaqueta de couro, seus pés descalços, sua postura. Ele estava estudando-a, e ela estava fazendo o mesmo. Fenrir parecia ter por volta dos trinta anos, e agora que ela podia observá-lo de perto, notou cicatrizes em seu peito e rosto. Passou os olhos por elas para não parecer indiscreta, mas ela era treinada para detectar essas coisas. Esse homem era um licano. Licanos eram uma das criaturas mais fortes que existiam... E alguém conseguiu deixá-lo com cicatrizes. Uma pequena linha atravessava seu nariz e bochecha, e outra "decorava" seu queixo. "O acordo que acabei de cancelar." Ele lembrou a ela secamente. "E essa decisão é final." Isso a fez sorrir para ele, incapaz de deixar passar batido. "Se você provou alguma coisa agora, provou que suas decisões nunca são finais." Mais um rosnado e outro aviso. Ela não podia se dar ao luxo de mais daquilo, ou ele pessoalmente a jogaria de volta naquele helicóptero, enviando-a diretamente de volta para o Professor. "Quanto mais você fala, mais inclinado estou a não mudar de ideia novamente. Saia." Ele repetiu a palavra que havia dito a ela antes. Como se sua presença o incomodasse em um nível pessoal. O que não poderia ser o caso. "Olha, estou aqui para ajudar." Ela mentiu com os dentes cerrados, pulando do parapeito da janela. "Eu não sei o que em mim te irrita tanto, mas eu te asseguro que sou a melhor dos melhores. Minha missão é garantir que essa aliança ocorra sem problemas, e é tudo o que eu quero." "Se o Sul precisa tanto da nossa ajuda, e eles tiveram que estar desesperados para pedir, ela vai acontecer sem problemas com ou sem sua presença." Fenrir a olhou como se ela fosse uma criança ingênua, o que a irritou. "A República Licana do Sul é governada pela Convocação Alfa." Ela decidiu lhe dar uma simples lição de história. "O que significa que muitos Alfas decidem e votam no destino do país. Então, a menos que a maioria vote para trabalhar com você, essa aliança não vai acontecer." "Vou tentar superar isso de alguma forma, Princesa!" Ele soltou uma risada que ecoou pelas paredes. Princesa... Ela odiava ser chamada assim. Ele estava apertando botões que ela nem sabia que existiam. "Ah, você vai ficar bem." Astrea encheu suas palavras com todo o veneno que pode. "Mas e quanto ao seu povo naquela – eu nem ousaria chamar aquilo de cidade. É um favela, na melhor das hipóteses." "Nós somos renegados. Não precisamos de muito." Fenrir deu um passo à frente, provavelmente para intimidá-la, mas ela também deu um passo à frente. Ela não era novata nesse jogo de poder que ele estava jogando. Só que desta vez, sua tarefa não era se submeter. Na realidade, era improvável que ele a tocasse ou fizesse algo com ela. Então, ela estava ficando mais ousada. "Isso é bom, porque com certeza você não receberá nenhuma ajuda do Norte ou do Oeste. Eles são bons demais para lidar com renegados e têm problemas demais para enviar ajuda humanitária para cá, que você com certeza precisa desesperadamente. Acredite em mim, acabei de voltar de lá." "Você esteve no Norte?" Algo mudou em sua voz, mas ela ainda não conseguia ler suas emoções. Esse malandro dava poucas pistas, e ela era uma especialista em leitura facial. "Eu já estive em todos os lugares. Eu disse, sou a melhor." Astrea caminhou até a mesa que notou do canto do olho e jogou sua jaqueta de couro em uma das cadeiras. "Vamos negociar." "Não há nada para ne–" Ele parou de falar quando ela se virou para encará-lo. "O que?" Suas sobrancelhas se ergueram quando ela percebeu que, desta vez, ele estava olhando para a tatuagem de cobra em seu pescoço. Provavelmente era apenas sua imaginação, mas sua pele parecia mais pálida, a mandíbula se apertando. "Como você conseguiu isso?" Ele apontou para a serpente que felizmente não estava se movendo agora. "Ah, isso?" Ela trilhou a tinta com os dedos, sem saber como responder à pergunta para a qual ela não estava preparada. A tatuagem ainda estava fresca, e ela tentou não pensar muito sobre isso. "Eu só fiz isso no impulso." Isso tecnicamente não era uma mentira. "Quem te enviou?" A voz de Fenrir soou como metal, o ar entre eles ficou pesado, tornando difícil respirar. "A República Licana do Sul –" "Não, quem te enviou da República?" Seus lábios tremiam de pressão, e ela instintivamente sabia que era melhor não mentir. Especialmente porque seu Professor queria que seus nomes verdadeiros fossem usados desta vez. "Joran Nathair." Astrea respondeu, esperando alguma reação, mas mesmo depois de minutos entre eles, nenhuma veio. "Então, eu acho que você é bem-vinda para ficar." Ele disse. "Vou mandar alguém para te mostrar o seu quarto." A mudança foi muito repentina, mas Astea não quis questionar sua sorte. "Obrigada, sua Majestade–" Ela soltou. "Não me chame assim." Ele balançou a cabeça. "Só Fenrir está bom." Ótimo! É isso aí... Claro." Ela tentou não sorrir demais. "E pode me chamar de–" "Eu não vou te chamar de nada. Só faça o seu trabalho e sai assim que terminar." Ele disse, olhando nos olhos dela. Algo estava estranho, e ela podia sentir, mas por agora, era isso que ela precisava. Afinal, muito dependia dessa missão. *** Ela esperou do lado de fora da Torre até o cara de dreads voltar com uma expressão facial azeda. "Acho que você fica." Ele resmungou. "Acho que sim." Ela se esforçou muito para não sorrir. Ela chegou tão perto do fracasso que isso agora parecia uma espécie de vitória. Até que Dreads empurrou a porta do quarto dela aberta. Os olhos de Astrea se arregalaram de choque...
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