"Você não está falando sério!" A cabeça de Astrea se virou para seu companheiro de caminhada, que apenas encolheu os ombros para demonstrar que não via nenhum problema.
"Aqui é o Reino dos Renegados. Não um hotel cinco estrelas." Dreads lembrou a ela, e ela apertou a mandíbula com força para evitar dizer algo que pudesse se arrepender.
As condições espartanas do quarto não eram um problema para ela. O problema era que o quarto era alto e redondo, sem janelas além do teto de vidro. Ela já estava sufocando aqui, e nem mesmo havia pisado lá dentro.
Isso a lembrava muito do buraco de prata. Os dias que ela passou no fundo dele nunca seriam apagados de sua memória.
As paredes brancas não tinham decorações, exceto um espelho comprido e sem graça em uma moldura de madeira. Havia apenas uma cama queen size modesta e uma escrivaninha com um cabide vazio. Nenhum banheiro à vista.
"Onde eu vou tomar banho?" Ela questionou arqueando uma sobrancelha para o seu guia.
"O banheiro comum fica no final do corredor. Quando a água quente acabar, acabou. E saiba que você pode encontrar qualquer pessoa lá. Homem, mulher —"
"Ok!"Ela disse calmamente, sabendo que isso era ou um teste ou uma tentativa de intimidá-la. "É bom saber."
Se Dreads teve algum tipo de reação, ele não deixou ela ver ou talvez simplesmente não se importasse. Astrea tinha ouvido dizer que uma vez que um lobo era banido de sua alcateia, se uma nova alcateia não os aceitasse, eles tendiam a ficar indiferentes com o tempo a tudo ao seu redor. É por isso que os renegados eram tão perigosos. Com o tempo, o lado humano ia desaparecendo neles, deixando que seus desejos e emoções brutas e selvagens tomassem conta. Menos moralidade e arrependimento, mais liberdade para fazer o que quisessem de acordo com o momento. Se os renegados queriam algo e soubessem que poderiam obtê-lo, eles iriam conseguir. Mesmo que tivessem que roubar, matar ou fazer outras coisas horríveis.
Astrea não os julgava, é claro. Ela havia completado algumas missões muito questionáveis em sua vida, incluindo a anterior a esta. Mas ela sabia que tinha que ter cuidado enquanto estivesse vivendo aqui.
"Acho que nos veremos por aí!" Dreads se virou, preparando-se para sair.
"Minhas malas serão trazidas para cá?" Ela perguntou enquanto ele não se afastava, mas um resmungo zombeteiro foi sua única resposta.
Acho que não, Nova riu.
Esses renegados assustadores não vão carregar nossas malas! Astrea ecoou, segurando o riso. Com certeza nos sacanearam!
Eles têm mais em comum com os homens da República Lycan do que eles percebem!
Astrea deu um passeio lento de volta ao local onde o helicóptero pousou uma hora atrás, e encontrou suas malas espalhadas pelo espaço como lixo indesejado. Suspirando, ela as juntou, percebendo em breve que precisaria de algumas viagens para levá-las todas para o seu quarto. Ela veio com todo tipo de coisas que poderiam ser necessárias em sua missão.
Não escapou de sua atenção que algumas das malas claramente foram abertas enquanto ela estava fora. Os renegados provavelmente queriam checar o que ela trouxe para o espaço deles, não sendo tão descuidados como pareciam ser, afinal. No entanto, eles não sabiam que o pequeno cristal na alça de cada zíper mudava de cor quando usado. Ela os deixou azuis, e agora a maioria estava verde.
Amadores! Nova afirmou calmamente, sem se impressionar.
Ou talvez eles queiram que saibamos que estão nos observando, Astrea cantarolou enquanto pegava o maior número possível de malas. Até agora, ela tinha três bolsas transversais em seu corpo com uma mochila, duas malas com rodinhas com bolsas menores presas a elas. Mas ainda restavam aproximadamente o mesmo número.
"Eu vou ajudar!" Ela ouviu a voz de um homem e se virou para ver o cara loiro de antes já pegando algumas de suas malas. Ele era bem grande, então ela não tinha dúvida de que ele seria capaz de ajudá-la a levar tudo de uma vez.
"Obrigada." Ela sorriu o mais doce que pôde. "Me desculpe, mas ainda não sei seu nome."
"Bastian." Ele respondeu sem sequer olhá-la.
"Prazer em conhecê-lo, Bastian." Astrea sorriu para ele, piscando seus longos cílios brincalhona caso ele visse. "Deixa eu adivinhar, seu apelido é Bash?"
"Você não precisa saber." Ele respondeu bruscamente, e o sorriso em seu rosto desapareceu um pouco. "Você está aqui temporariamente; quanto mais rápido você voltar para o seu habitat natural, melhor."
Ela avaliou sua expressão facial rapidamente, e absolutamente nada nele denunciava suas verdadeiras emoções. Como se ele tivesse sido treinado melhor do que ela, embora parecesse relativamente jovem. Será que a vida de renegado fazia isso com ele, ou havia algo mais?
"Acredite ou não, mas é exatamente isso que eu quero também." Ela riu, o deixando confuso quando ele finalmente olhou em seus olhos azuis celestes. "Se trabalharmos duro e cooperarmos bem, tudo isso acabará rápido e sem dor para todos. Serei gentil se você for."
Bastian a encarou, e ela piscou para ele antes de entrar em seu quarto. Ele a alcançou apenas quando ela já estava dentro e deixou suas malas com um baque como se quisesse fazer um ponto, saindo abruptamente.
Astrea colocou a cabeça para fora do batente da porta para vê-lo caminhando pelo corredor arqueado ao longo dos intrincados trilhos brancos da sacada externa que dava vista para o pátio interno.
"Obrigada, Bash!" Ela disse em tom de canto, e ele tropeçou imediatamente. Isso foi quase fácil demais.
Ela voltou para o quarto e suspirou, tentando não olhar para cima. Ela conseguia lidar com aquele espaço.
Desempacotando todos os seus brinquedos mortais, Astrea sorriu para si mesma. Esses renegados eram amadores em comparação. Eles poderiam ter verificado as coisas dela, mas era improvável que tivessem notado algo suspeito. Afinal, era quase impossível detectar que alguns de seus batons continham veneno para diferentes tipos de metamorfos. E que seus acessórios de cabelo tinham lâminas finas e afiadas feitas de prata, cobre e outros metais. Seu perfume era misturado com acônito, e alguns de seus sapatos de salto alto tinham agulhas com veneno ou tranquilizantes dentro.
Isso teria que servir por enquanto. A caixa com os equipamentos mais valiosos foi deixada não muito longe daqui pelo helicóptero antes de chegarem a este lugar, e Astrea memorizou as coordenadas. Ela teria que recuperá-la em um dia ou dois, quando parassem de vigiá-la tão de perto.
Não parecia que eles se importavam, mas ela ainda tinha que ter cuidado. A primeira noite sempre tinha que ser tranquila.
Então, depois de terminar de desempacotar, Astrea decidiu ir dormir. As instruções sobre o chuveiro estavam claras para ela, e ela sabia que seria melhor acordar por volta das quatro ou cinco da manhã para evitar companhia indesejada.
Ela fechou os olhos firmemente em sua cama, mas não conseguiu se livrar da sensação sufocante e interminável. Astrea conseguia ouvir seu próprio coração batendo e tentou respirar regularmente para se acalmar e dormir. Não importava o quanto ela tentasse, não estava realmente funcionando, a levando de volta aos meses que ela passou no buraco.
Abrindo os olhos, ela viu as estrelas, sua única companhia durante sua tortura interminável cheia de prata. Ela costumava observá-las, contá-las e reconhecer as constelações como sua única fonte de entretenimento. Elas lhe davam paz em seus momentos mais desafiadores, mas hoje elas chamavam para ação.
Não faça isso, Nova a alertou, conhecendo-a muito bem. Se alguém te vir esta noite, eles sempre suspeitarão de você. Precisamos manter um perfil baixo.
Nós vamos. Se alguém me ver, vou contar a verdade. Eu não conseguia dormir. Astrea a interrompeu e se levantou.
Ela se olhou no espelho e decidiu ficar no sensual sutiã de renda branca que ela havia escolhido cuidadosamente para a noite. Ela não planejava encontrar ninguém, mas se um acidente acontecesse, sua aparência lhe daria alguns segundos para lidar com isso. Então ela colocou um grampo de magnólia branca no seu cabelo e moveu a escrivaninha para facilitar a subida até o teto de vidro. Uma das partes estava aberta e ela passou por ela facilmente, encontrando-se no telhado.
Ela vasculhou rapidamente os outros telhados com sua visão metamorfa, mas não viu ninguém, para seu alívio. Esses renegados eram descuidados demais.
Me lembra alguém, Nova não desistiu.
Você poderia relaxar? Eu não estou indo em uma grande missão! É apenas uma rápida e cuidadosa olhada ao redor.
Astrea pulou ágil de telhado em telhado, que, felizmente, estavam todos muito próximos um do outro. Este prédio era realmente estranho. Tão diferente das outras partes do antigo Reino das Nascentes Lunares, agora dividido em quatro partes — o Reino Lycan Ocidental, o Reino Lycan do Norte, a República Lycan do Sul e... o Reino Oriental Aniquilado. Aquele que deixou de existir depois de uma guerra contínua entre os quatro clãs Lycan. Agora era uma terra de ninguém, e renegados de todo o continente corriam para cá em busca de segurança. E agora eles queriam criar um reino próprio, colocando aquele irritante Fenrir como seu rei.
Ela notou o fogo no pátio interno central, pavimentado com ladrilhos brancos, e parou, se escondendo atrás de uma decoração em formato de cúpula. Aqui estava muito escuro, e ela tinha certeza de que eles não conseguiam vê-la.
"A b***a dela até que é boa" Alguém disse lá embaixo, e ela tentou ver o rosto deles. Um grupo de renegados sentava ao redor de uma fogueira com garrafas de álcool nas mãos. Álcool caseiro, pelo visto.
Ela não sabia quem estava falando, mas reconheceu Dreads e Bastian ao lado dele. Devoss estava lá também, e a mulher de antes também.
"Esse foi exatamente o plano deles." Ela revirou os olhos, tomando um gole de sua caneca. Ela era a única sem uma garrafa. "Fazer vocês idiotas olharem para a b***a dela."
"Os p****s dela também são bons, se isso servir de consolo para você, Kara." Dreads disse a ela, e Astrea ficou surpresa que ele tivesse notado isso tudo. Ele dava a impressão de ser repelido pela simples presença dela.
"Cala a boca!" Kara respondeu, sem se impressionar com a observação dele.
"Por que vocês são todos tão negativos?" Devoss riu, se recostando em seu assento e colocando um dos tornozelos sobre o joelho. "Vai ser divertido! Finalmente, algo interessante está acontecendo aqui!"
"Eba, uma espiã sulista! Que divertido!" Bash jogou o resto de sua bebida no fogo, fazendo as chamas famintas subirem em fúria.
Eles todos ficaram quietos, e por um momento Astrea não tinha certeza do porquê. Só então ela viu uma sombra alta e escura se movendo em direção ao grupo. Alguns renegados se levantaram de uma vez; apenas os quatro que ela já conhecia permaneceram em seus respectivos lugares, sem se abalarem com a aparição de Fenrir. O que significava que eles eram o círculo interno de confiança dele.
Ele ainda usava a mesma camisa escura, finalmente abotoada adequadamente. A luz das chamas realçava seus traços, acrescentando nitidez a sua aparência majestosa. Mais uma vez, ela tinha que admitir que esse homem era impressionante, e ela cresceu com uma divindade a treinando e um exército de metamorfos de Primogênitos à disposição. Ainda assim... Havia algo em Fenrir que fazia sua respiração parar sem que ela percebesse.
"Então, estamos realmente fazendo isso?" Dreads perguntou, sem olhar para seu rei. "A garota o fez mudar de ideia?"
"A garota não tem nada a ver com isso." Ele respondeu, aceitando uma garrafa de alguém e abrindo-a com um estalo de dedos. "Continuamos com nosso plano."
"Você queria expulsá-la primeiro!" Bash lembrou a ele.
"E deveria ter!" Kara interveio. "Eu não gosto dela."
"Você não gosta de ninguém!" O riso de Devoss se propagou pelo pátio.
"E por uma boa razão!" A mulher parecia irritada. "Ela me lembra alguém–"
Agora, isso foi interessante.
"Chega!", Fenrir rosnou, fazendo todos ficarem em silêncio. "O Sul quer nos usar, e nós queremos usar o Sul. É tudo o que existe, e a garota é apenas uma ponte entre nós. Nada mais, nada menos."
"Se você diz, meu Rei!" Kara encheu a última palavra de veneno, e Astrea se perguntou se havia outro tipo de relacionamento entre os dois.
No entanto, Fenrir se sentou longe dela e ela parecia bem com isso. Isso era algo para Astrea explorar no futuro.
Ela tinha que voltar. Estava ficando muito perigoso.
Ciente dos perigos de ser notada, ela chegou em outro telhado, mas as palavras de Fenrir não saíam de sua mente por algum motivo.
Ele estava certo, é claro. Ela estava aqui para usá-lo e, obviamente, eles queriam usar suas conexões com o sul em seu benefício. Isso era normal, e ela não conseguia entender por que isso a incomodava.
Oh, não, Astrea, Nova soou preocupada em sua mente. Volte para o nosso quarto. Já chega por hoje.
Mas era tarde demais, porque Astrea de repente percebeu que Fenrir estava ocupado. Ele não estava em sua suíte. Ele estava bebendo do lado de fora com seus amigos, e isso lhe deu uma oportunidade que ela não tinha certeza se teria novamente.
Volte. Para. O. Nosso. Quarto. Você não está preparada! Nova insistiu, e Astrea teve que ignorar.
Eu só vou dar uma olhadinha, ela assegurou a seu lobo, mudando de direção.
Por sorte, a maioria das janelas desta fortaleza estava aberta, apesar das baixas temperaturas da noite. A janela no topo da torre de Fenrir não era exceção, e depois de um pouco de escalada, ela conseguiu alcançá-la. Ela abriu com cuidado as persianas destrancadas e as fechou quando entrou, se encontrando em um quarto diferente daquele que ela visitara mais cedo. Era o quarto do Rei Renegado.
Que infeliz, Nova sibilou. Agora, vamos voltar.
A enorme cama antiga tinha um dossel transparente, e os lençóis eram coloridos, com um padrão masculino distinto.
Apenas mais um minuto, Astrea encontrou uma escrivaninha com montes de papéis.
Ela se perguntou o que poderia ser? Renegados não tinham um governo no sentido tradicional da palavra. Para que eram todos esses documentos?
Ela teve que ter cuidado para não tocar em nada e deixar rastros, mas ela percebeu alguns mapas estranhos no topo da pilha. Uma carta escrita em uma língua que ela não reconhecia fez com que ela franzisse a testa.
Estranho... Tudo isso é tão estranho! Ela tentou memorizar o que pôde, mas sabia que teria que voltar com uma câmera e estar melhor preparada na próxima vez.
O som de passos se aproximando da porta a alertou, a surpreendendo ao mesmo tempo. Fenrir estava de volta tão cedo? Ela pensava que ele ia beber por mais tempo. Ou será que ela que perdeu a noção do tempo?
Astrea se dirigiu à janela, grata por não estar usando sapatos. Isso a tornava silenciosa.
Seus dedos alcançaram as persianas de madeira esculpidas com padrões antigos e intrincados, quando um choque real a atingiu. As persianas estavam trancadas!
Ela tentou abri-las de novo e de novo, mas nada funcionou, e o pânico começou a inundar seu cérebro. Ele estava quase na porta!
Isso não podia ser real! Elas estavam abertas quando ela chegou aqui! O que aconteceu?
Ela poderia quebrar as malditas persianas, é claro, mas isso alertaria o renegado e revelaria sua presença.
Encurralada, Astrea fez a única coisa que lhe veio à mente e se escondeu atrás de uma cortina pesada.
Muito bem, Nova debochou. Agora você é invisível, minha querida!
Cale-se! Astrea mordeu o lábio, quase tirando sangue. De jeito nenhum esse era um bom esconderijo. Talvez ela devesse ter ido ao banheiro.
Por outro lado, ele definitivamente iria lá mais cedo ou mais tarde, e quem sabe se tinha alguma janela para tentar fugir.
É por isso que você deveria ter ficado em seu quarto! Nova não estava sendo útil agora.
A porta se abriu com violência, e Fenrir entrou, passando a mão em seu cabelo escuro brilhante. Astrea só viu um vislumbre dele através da fresta das cortinas, tentando não respirar e neutralizar seu cheiro. A técnica que ela foi ensinada pelo Professor pessoalmente. Funcionou como um encanto no passado, e ela rezava para que não falhasse hoje.
O renegado ainda tinha uma garrafa na mão e a levou aos lábios, dando alguns goles gananciosos e então jogou na lareira. Ele então se aproximou dela, se apoiando na beira da lareira como se estivesse extremamente cansado. Chamas surgiram do nada, um crepitar de fogo irrompeu subitamente da madeira, iluminando o quarto com sombras dançantes.
Ele tinha fósforos lá? Astrea se perguntou.
Como se esse fosse o nosso maior problema agora! Nova a devolveu à realidade. A realidade onde ela estava encurralada com o Rei dos Renegados depois de sua tentativa muito imprudente de espioná-lo.
Astrea tentou pensar com calma. Pelo menos ele parecia bêbado. Seus sentidos deveriam estar embotados. Talvez ele dormisse rápido ou fosse ao banheiro e ela pudesse correr nesse meio tempo. Ela ainda não conseguia acreditar que as persianas estúpidas falharam.
"Até quando você vai ficar aí parada, Astrea?" Fenrir perguntou, seus olhos ainda fixos no incêndio diante dele.