9. Raja

2165 Words
Astrea caminhou tranquilamente pelas barracas do mercado, prestando atenção em tudo e tentando memorizar qualquer coisa que pudesse ser útil para ela e seu Professor. No entanto, ela rapidamente teve que admitir que não havia muito... Roupas gastas, aparelhos antigos, comida de aparência questionável e móveis velhos quebrados - Essas eram as ofertas no mercado dos renegados. Esse projeto de cidade m*l sobrevivia. Exatamente o que ela e seu Professor esperavam. Renegados até o fim. Do jeito que todos imaginavam, e isso não estava certo para ela. Porque Fenrir e sua equipe não eram nada típicos. Se eles estivessem formando um reino, certamente deveria haver pessoas que se esforçavam por mais do que isso... E ela não via nenhuma delas aqui. "Alguma coisa que te interesse em ver aqui em particular?" Ela nem percebeu que Fenrir estava andando tão perto atrás dela agora, e quando ele se inclinou para sussurrar as palavras, seu hálito era como uma brisa fresca em sua pele no calor do dia. Foi preciso toda a sua força de vontade para não fechar os olhos e relaxar contra seu peito imenso, especialmente depois do que aconteceu no carro a caminho daqui. O que quer que tenha sido. "Apenas me mostre tudo." Ela se virou para encará-lo, principalmente para demonstrar que ele não a intimidava, e que a viagem de carro não a afetava em nada. "Isto é tudo." Ele riu, tirando os óculos escuros e apontando com a mão ao redor. "Ou você esperava algo mais?" Ele estava testando-a, provocando-a. "Não, Fenrir, isso é exatamente o que eu esperava." Ela arqueou a sobrancelha para ele e encontrou seu olhar. "Você não conseguiu me surpreender até agora." "É mesmo?" Os cantos de seus lábios se curvaram para cima e ela sabia que foi um erro dizer aquilo. "Então, nossa viagem frenética não foi uma surpresa suficiente? Estou anotando tudo aqui, Astrea." "Eu também estou!" Ela ergueu o queixo com desafio. "Vejo que preciso aumentar o jogo." Ele sorriu para ela. "Você não faz ideia!" Ela bufou, irritada. "Diga-me, Fenrir, como é que o seu palácio tinha toda essa comida incrível enquanto o seu povo vive assim? De onde ela vem e por que a distribuição é tão injusta?" "O que posso dizer, Astrea..." A expressão divertida desapareceu de seu rosto instantaneamente, "Nós somos renegados, e aqui só sobrevive o mais forte." Era uma resposta razoável. Para um renegado, é claro. A ilha e a República do Sul eram diferentes. E ainda havia algo errado. Ela podia sentir com seu instinto, e sua intuição nunca tinha falhado até agora. "Você percebe que o que estava em sua mesa hoje poderia alimentar algumas famílias daqui?" Ela o repreendeu, toda brincadeira desapareceu de ambos enquanto se encaravam. "E você percebe que tivemos um convidado importante jantando conosco?" Ele lembrou de sua própria presença. "Então, agora é culpa minha?" Ela não podia acreditar que ele estava insinuando isso. "Não, aparentemente, sou apenas um governante ruim." Fenrir zombou, enfatizando a última palavra. "Suas palavras, não as minhas." Astrea arqueou a sobrancelha e girou nos calcanhares, aumentando a velocidade e tentando perdê-lo, para não dizer mais nada que possa se arrepender depois. Ela já havia ido longe demais. Você é uma diplomata e tanto, Nova acrescentou combustível ao fogo como sempre. Aprendendo com a voz irritante na minha cabeça! Astrea não ignorou a pequena alfinetada de seu lobo. Ela parecia completamente fora do lugar em seu ambiente enquanto caminhava pelas ruas em seu e******o e caro conjunto branco. Ela sabia disso. Não teria sido má ideia trocar de roupa antes de saírem da fortaleza, mas agora era tarde demais para isso. Fenrir estava influenciando-a da pior forma possível, e ela estava cometendo um erro atrás do outro. Astrea sentia a presença dele perto dela, mas não o deixava saber. Claro, ele não a deixaria andar sozinha, mas quanto menos ele soubesse sobre ela e seu treinamento, melhor. Ela tinha que recuperar o controle. Eles caminharam em silêncio por um tempo, e Astrea entrou em uma das ruas estreitas, Fenrir seguindo de perto atrás, nenhum dos dois dizendo uma palavra um ao outro mesmo agora. Isso não era como ela deveria se comportar com ele. Sua missão exigia algo diferente, mas... Ele a desequilibrava tão facilmente. Ela precisava de um tempo. Uma casa decadente em uma rua estreita com uma garotinha parada bem ao lado da entrada atraiu a atenção de Astrea, e ela se viu caminhando lá sem perceber. Era a primeira criança que ela via aqui. Uma criança que, por algum motivo, tornou-se uma renegada. Algo que nunca deveria ter acontecido em qualquer matilha ou bando ou de onde quer que ela viesse. E, no entanto, ali estavam eles... "Oi querida." Astrea tentou sorrir para a garota, e a menina a olhou com olhos azuis brilhantes. Para uma renegada ela estava bem limpa e vestida com jeans e um moletom rosa. A garota também não tinha nenhum instinto que pudesse salvá-la em um lugar como esse. "Oi." A criança sussurrou, um olhar curioso viajando para cima e para baixo da estranha. "Emma?" Astrea ouviu a voz de uma mulher vindo de dentro da casa e viu uma mulher saindo correndo, segurando outra garotinha pela mão. A segunda garota era idêntica à primeira, com cabelos cacheados escuros e olhos cor de avelã, vestindo roupas quase iguais. A única diferença era uma mancha no moletom. Gêmeas. Quando criar apenas uma criança nessa "cidade" já devia ser desafiador o suficiente, essa mãe tinha gêmeas para cuidar. A garota à frente de Astrea não sabia como reagir, mas sua mãe rapidamente a puxou para trás dela, olhando para a loba em sua frente com suspeita. Astrea podia dizer apenas pelo olhar que essa mulher lutaria até a morte pela filha se fosse necessário. "Não quero causar problemas." Astrea ergueu as mãos para demonstrar suas intenções. "Eu só queria–" "Você não é daqui!" A mulher a interrompeu, hostilidade evidente em seu tom. "Não, não sou. Sou uma convidada–" "É melhor você ir embora!" A mãe não estava interessada em ouvi-la. "Emma! Ava! Dentro de casa!" "Eu só queria–" "Você é um desastre esperando para acontecer!" A mulher sacudiu a cabeça de cabelos negros brilhantes e se preparou para fechar a porta, as duas garotas olhando assustadas entre os dois adultos. "Ela está comigo!" Fenrir impediu que a porta se fechasse com a mão, e por um momento, a mulher pensou em agredi-lo em autodefesa. Seus olhos percorreram todo o seu corpo, e Astrea notou os lábios dela se abrindo em choque quando seus olhos pararam nas cicatrizes do Rei Renegado e depois foram para as pulseiras de contas em seu pulso. Algo que ela nunca tinha prestado atenção antes, considerando apenas parte da aparência de Fenrir. Agora ela começou a questionar a presença delas. O Rei Renegado não estava na moda, e era improvável que ele seguisse alguma tendência, mesmo que tivesse alguma aqui. As pulseiras significavam algo? Ninguém mais aqui as tinha, embora ela não tenha procurado por elas especificamente. "É você–" A mulher sussurrou, e Fenrir assentiu em resposta. "Astrea, você poderia nos dar um minuto a sós, por favor?" Seu tom sugeria que não era um pedido. Era uma ordem. Ela hesitou no começo, mas logo percebeu que não se importava de sair. Ela não podia fazer nada pela família hoje de qualquer forma, e se havia uma chance de que Fenrir os ajudasse de alguma forma, ela aceitaria de bom grado. Então, ela se afastou, imersa em seus próprios pensamentos. Ver as gêmeas fez com que ela se lembrasse de coisas que ela achava que já tinha esquecido. Ela já teve uma irmã gêmea também. Ela tinha uma família. E todos eles foram tirados dela em uma noite fatal. Astrea já não tinha tanta certeza se ela sequer se lembrava corretamente dos eventos. Ainda assim... Alguns dos detalhes estavam gravados em sua memória para sempre. O carro delas estava andando no meio da floresta à noite quando ele virou de cabeça para baixo de repente, fazendo o mundo ao seu redor girar. Astrea se lembrou dos gritos de sua irmã, Stella, sua irmã gêmea idêntica que ainda se parecia muito com ela. Ela se lembrou dos monstros que as atacaram, quebrando a janela e arrastando o homem no banco do motorista primeiro. Provavelmente seu pai... Ela não conseguia se lembrar mais. Apenas o cinto de segurança a manteve no lugar, e seu irmão mais velho, Brian, cortou as alças com suas garras para ambas, apesar de estar seriamente ferido, gritando para elas fugirem por suas vidas. Ela se lembrou do medo que dominou seu corpo, impedindo-a de se mover quando era hora de fugir. Brian se transformou para tentar protegê-las, mas dois enormes monstros escuros o rasgaram em pedaços diante de seus olhos, encerrando sua jovem vida. As irmãs entrelaçaram os dedos como se isso fosse ajudá-las e, em seguida, correram. Correram, correram, correram. Seus vestidos brancos combinando eram como faróis para os monstros, facilitando sua localização na escuridão. Stella só tinha um sapato depois do acidente e estava um pouco atrás quando chegaram até ela, quebrando a união das gêmeas e separando-as. Astrea olhou para onde sua irmã estava, apenas para encontrar sua irmã gêmea já caindo morta no chão. O vestido de Stella, não mais branco... Ela quis chorar e gritar, mas por algum motivo, não conseguiu. Os olhos brilhantes dos monstros a observavam, seus rosnados lhe dizendo que ela era a próxima. Não havia saída. Ela estava dando passo após passo para trás até tropeçar e cair em um pequeno declínio que ela não percebeu, rolando até as raízes de uma árvore alta e antiga. Coberta de arranhões e hematomas, ela rastejou desesperadamente entre as enormes raízes, tentando se esconder. Só para ver essas mesmas raízes esmagadas em poucos momentos, pedaços voando no rosto dela. Uma dor lancinante em sua coxa e ela foi arrastada para a morte iminente. O monstro que a pegou decidiu aproveitar seu tempo com ela e aproveitar esse último assassinato da noite. Ela ainda nem tinha sofrido sua primeira transformação para ter uma chance de lutar. Não havia como se defender, e quando as garras cortaram seu abdômen, não havia nada que ela pudesse fazer além de gritar enquanto a dor intensa percorria seu pequeno corpo. Um grito gutural escapou de seu peito, e por algum milagre, o monstro foi tirado dela antes que ela percebesse o que estava acontecendo. O sangue jorrava de seus ferimentos, e ela se sentia tão assustada e solitária quando mãos quentes tocaram sua pele, olhos acobreados brilhantes se encontrando com os seus. "Eu te peguei, pequena." O Professor disse em um tom tranquilizador. "Estou aqui agora, e ninguém vai te fazer mal." Astrea não percebeu o quão longe ela tinha conseguido chegar por conta própria. Ela recebeu um retorno brusco à realidade quando alguém segurou seu pulso e a puxou para um dos becos escuros, cobrindo sua boca com a palma da mão ao mesmo tempo. "Vá com calma!" O homem desconhecido cochichou em seu ouvido, como se isso fosse acalmá-la. No entanto, isso era interessante. Apenas a distração que ela precisava para não se afogar em seus próprios pensamentos e memórias. Ela estava curiosa para ver onde isso estava indo. Esse homem estava sozinho ou tinha um cúmplice? Eles estavam prestes a cometer um crime ou talvez estivessem tentando avisá-la? Se fosse de fato um crime, quão bem organizado era? Afinal, ela precisava saber de tudo - o bom e o mau. Ele tentou jogá-la no chão quando decidiu que era seguro o suficiente, mas Astrea sabia como encontrar equilíbrio rapidamente, então ela continuou de pé, fazendo uma rápida varredura ao seu redor. Uma rua sem saída. Dois à esquerda e dois bloqueiam a saída, Nova confirmou o que Astrea já sabia. Foi uma armadilha. "Não há necessidade de se machucar." Um dos quatro homens disse a ela enquanto a cercavam. Aquela gangue parecia verdadeiros renegados, com toda sujeira e más intenções nos olhos. Eram verdadeiros criminosos que Astrea não ficaria tão triste em matar. "Nós não víamos um pássaro bonito como você desde que chegamos aqui." Aquele que parecia o líder deles informou com uma risada, apoiado por sua gangue imediatamente. "Só queremos nos divertir." Outro deu a ela um olhar apreciativo cheio de luxúria que a fez se encolher. "Rapazes." Os lábios de Astrea se curvaram involuntariamente. "Por que vocês não falaram isso antes? Eu estava na verdade procurando me divertir um pouco também." Sua resposta os surpreendeu, mas não ao ponto de fazê-los fugir. Suficiente para deixá-los paralisados, então eles não fizeram nada enquanto ela elegantemente tirava seu casaco branco comprido e o colocava cuidadosamente em cima de algumas caixas, esticando o pescoço no processo. Deusa Lua, ela precisava disso agora. Os quatro começaram a se aproximar dela lentamente, e ela presenteou-os com seu sorriso mais deslumbrantes. "Senhores, vamos começar?"
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