CONTINUAÇÃO

629 Words
A localização chegou sem cerimônia. Uma mensagem curta. Sem contexto. Sem gentileza. Só um endereço. Morgana olhou para a tela por alguns segundos antes de bloquear o celular. Não precisava de mais nada. Já sabia o tipo de lugar que era. Sempre era o mesmo tipo. Lugares onde gente importante fingia que não tinha sangue nas mãos. A estrada até lá parecia longa demais para um destino tão conhecido. Nápoles continuava viva do lado de fora. Mas ali dentro, tudo era cálculo. Ela dirigia sem pressa. Sem dúvida. Sem aquela parte humana que costuma negociar com o perigo. O prédio ficava afastado. Discreto. Limpo demais para ser inocente. Seguranças reconheceram o carro antes mesmo dela parar. Nenhuma abordagem. Nenhuma pergunta. Só passagem. Isso já dizia tudo. Lá dentro, o ar era mais frio. Controlado. Como se até a temperatura obedecesse alguém. Ela caminhou sem ser guiada. Sabia o caminho. Sabia sempre. A porta estava entreaberta. Isso não era descuido. Era convite. Ou provocação. Ou ambos. Ele estava lá. Leon. Em pé, encostado na mesa como se o mundo não tivesse pressa de desabar. Terno escuro. Postura calma demais pra quem manda em coisas que não aparecem no jornal. Os olhos dele foram até ela sem hesitar. Dessa vez não tinha distância. Não tinha telefone. Não tinha filtro. Só presença. — Você veio. A voz dele não soou surpresa. Soou… confirmação. Morgana fechou a porta atrás de si. Devagar. — Eu sempre venho quando você chama. Ele soltou um leve sorriso. Sem alegria. Mais reconhecimento do que humor. — Não quando quer. Ela deu um passo à frente. Agora o espaço entre eles deixou de ser ambiente. Virou tensão. — Então me chama melhor. Silêncio. Curto. Pesado. Leon tirou o olhar dela por um segundo. Como se estivesse decidindo algo que não devia ser decidido ali. Depois voltou. Mais fundo. Mais direto. — Tem um problema. — Você já disse isso. — Esse é diferente. Ela inclinou a cabeça levemente. Quase curiosa. Mas não curiosa de inocência. Curiosa de quem gosta de ver o fim. — Todos dizem isso quando querem que eu faça trabalho sujo. Ele não respondeu de imediato. E isso foi a resposta dele. Morgana passou por ele. Sem pedir permissão. Como se aquele lugar também já fosse dela de alguma forma distorcida. Leon virou só o suficiente pra acompanhar o movimento dela. — Não é só trabalho. Ela parou. Sem olhar ainda. — Então fala. Agora. Silêncio. O tipo que não é vazio. É decisão sendo empurrada garganta abaixo. Quando ele falou, a voz veio mais baixa. — Tem gente mexendo no nome dos Gonzales. Ela finalmente virou. Devagar. Como se cada movimento fosse uma escolha calculada. — Nome ou poder? Leon sustentou o olhar. — Os dois. Agora o ar mudou. Não ficou mais pesado. Ficou mais afiado. Morgana sorriu. Pequeno. Quase satisfeito. — Isso é interessante. Leon observou. Não o sorriso. Ela. — Não é entretenimento. — Pra mim quase tudo é. O silêncio entre eles não era ausência de som. Era proximidade perigosa. Coisas não ditas empurrando o espaço. Leon deu um passo. Agora estava mais perto. Mais do que deveria. — Eu preciso que isso acabe rápido. Ela levantou o olhar pra ele. Direto. Sem desvio. — E você veio até mim porque quer rapidez… pausou um segundo. —ou porque quer certeza? Silêncio. Mais longo. Mais íntimo. Leon não respondeu. Mas o olhar dele respondeu por ele. E isso foi o erro. Ou o começo dele. Morgana passou por ele de novo. Dessa vez encostando de leve ao lado. Quase nada. Mas o suficiente pra virar ameaça. — Então me mostra onde começa. E Leon entendeu. Não era ele que estava chamando ela pro jogo. Era ela que já tinha entrado.
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