Prólogo
O sangue caía do céu em forma de chuva; talvez o fim do mundo estivesse mais próximo do que pensávamos. Talvez a cidade de Pittsburgh fosse a escolhida para o começo do fim.
As pessoas em suas casas estavam com medo, orando, rezando, suplicando e fazendo suas oferendas para que não fossem atingidas, para serem poupadas, e para que o mundo não acabasse agora. Afinal, elas tinham coisas importantes para fazer; pelo menos era o que o medo e o egoísmo as faziam pensar.
A chuva cessou por alguns instantes. A maioria das pessoas saiu de suas casas e observou ao redor. A única coisa que viram foi a escuridão e o sangue que havia banhado todas as casas, transformando o colorido das paredes externas em um só tom: o vermelho sangue.
— Viram? Eu avisei que o fim do mundo começou. Estamos todos condenados. Aqueles que não se entregarem ao amor de Deus não serão salvos. Assim como eu serei, pois eu lhes digo: minha alma será salva, porque me entreguei a Deus e ele me escolheu como um servo fiel. Façam isso, sigam-me, e eu os ajudarei a salvar suas almas. — gritou um homem com uma Bíblia em mãos.
As pessoas estavam tão assustadas que consideravam seguir aquele homem, cujos pecados eram maiores do que sua língua.
— Sua alma não está salva reverendo Cameron. — disse uma figura masculina em meio da escuridão da floresta.
O homem aproximou-se das pessoas que o olhavam curiosas. Ele estava machucado, os cortes em seu corpo eram profundos e suas forças quase não existiam mais. Mesmo em um estado degradante, ele permanecia de pé e disposto a qualquer coisa.
— E você, quem é você para dizer que minha alma não está salva? — perguntou o reverendo furioso.
— Seus pecados são muitos e há muito tempo sua alma está condenada ao inferno. Você pode tentar se esconder por trás da fachada de bom moço, mas sabemos como é seu coração: impuro, m*****o e pecador. Não há lugar para você no céu, mas no inferno. Lá você será de grande utilidade para os demônios torturadores. — disse o homem antes de perder suas forças e cair no chão.
— Injúria, difamação. Aquele que difama o servo do Senhor será condenado ao inferno. — disse o homem com a Bíblia.
— Deus não deseja servos como você. Você não é digno do céu. Mas é digno do inferno! — disse uma mulher ao também sair da escuridão da floresta.
— O que faz aqui? Vá embora. — disse o homem caído.
— Não posso deixar você. — disse a mulher ao se aproximar do homem.
Ela se ajoelhou ao lado dele e pôs a cabeça do homem sobre suas pernas. Ela acariciava seu rosto enquanto ele segurava seu braço. As pessoas ao redor observavam todos os movimentos com tanta curiosidade que não perceberam que algo se aproximava.
— Você precisa ir, ele está chegando; você precisa cuidar dela... – disse o homem, tentando se levantar.
— Não posso deixar você! – disse a mulher.
— Mas precisa, por favor vá, antes que ele chegue. – disse o homem.
— Não, não posso deixar você. Depois de tudo o que passamos, e também ela precisa de nós dois. – disse a mulher.
— Celeste, por favor, faça o que digo. Não quero que morra por minha causa. – disse o homem.
— Mas Azazel... — disse a mulher.
— Vá, agora! – disse o homem, irritado.
Sua forma humana deu lugar a uma figura diabólica; suas asas surgiram em questão de segundos, negras como carvão, cobertas de sangue e com as pontas das penas totalmente despedaçadas. Seu rosto tomou um tom avermelhado, como se apenas a última camada de pele estivesse presente. Seus olhos eram como chamas; a ira era nítida em seu olhar. Ele estendeu a mão e uma espada apareceu, ele a segurou no mesmo instante em que sentiu a presença daquele que o seguia, ele levantou-se e firme de pé ficou a espera.
— ELE É UM DEMÔNIO, UM FILHO DO INFERNO! — Gritou o homem com a Bíblia em mãos.
— Azazel, por favor não! – disse Celeste ao segurar o ombro da figura diabólica.
— VAMOS MATÁ-LO, ASSIM PODEREMOS SALVAR AS NOSSAS ALMAS. DIGA, DEMÔNIO, QUAL O SEU NOME... – Gritou o Reverendo voltado as pessoas do vilarejo.
— Azazel, esse é o meu nome, e eu sou um dos príncipes do inferno. E você, reverendo, tem sorte de Celeste estar aqui, porque antes de morrer, o levaria junto comigo. O pecado que carrega consigo é tão terrível que sua morte será como um presente dos céus a você. Mas quando chegar ao inferno, implorará por perdão e então, não haverá mais jeito. – disse Azazel.
O homem com a Bíblia engoliu em seco; ele sentiu todo o peso da dor de todos a quem fez m*l. Em segundos, olhando nos olhos de Azazel, sentiu a ira, o rancor e a morte ao seu redor. Pôde sentir um pouco na própria pele como seria o inferno.
— AZAZEL!! – Uma voz como um trovão surgiu na floresta.
— Os proteja! – disse Azazel a Celeste.
Aquela linda mulher de cabelos longos e loiros abriu suas asas, de um branco incomparável. Em sua mão, surgiu uma espada, maior e mais brilhante que a do demônio. Marcas em seu corpo surgiram como raízes de uma árvore, preenchendo todo o seu ser. Seus olhos castanhos tornaram-se brancos, e um brilho emanava de dentro para fora.
— Ela é um demônio! – afirmou o reverendo.
— Eu pareço um demônio para você? – perguntou a mulher, virando-se para o homem.
— Você é um anjo! – disse uma mulher no meio da multidão.
Celeste desviou seu olhar para aquela mulher. Pôde ver através dela que o coração dela era puro, e percebeu o desejo que estava fixado em seu coração. Celeste soube que ela era a pessoa certa caso algo acontecesse com si.
— Você, Lílian! Por favor, se aproxime! – disse Celeste àquela mulher.
A mulher se aproximou, quase foi impedida por seu marido, que por alguns segundos segurou em seu braço.
No entanto, a Lílian conseguiu se desenvencilhar. Ela chegou perto daquele lindo anjo, e então Celeste tocou em seu rosto. Através deste toque, Lílian pode ver a árvore em meio da floresta, onde havia uma a******a, e nesta a******a havia um cesto. Celeste mostrou o caminho a Lílian e pediu a ela que, caso algo acontecesse com ela, cuidasse de seu tesouro.
Lílian sorriu, e Celeste sentiu que seu tesouro ficaria bem com aquela mulher. Celeste também deu a ela um presente: a fertilidade, para que Lílian pudesse ter os filhos que tanto desejava.
— Cuida dela como se fosse sua! – disse Celeste à mulher.
— Eu cuidarei! – respondeu Lílian.
— O nome dela é Mary! – disse Celeste.
— Um lindo nome! – comentou Lílian.
— “Sorriu Celeste” — Agora, por favor, tire todos daqui e entregue isso a ela! – disse Celeste, ao entregar um colar nas mãos de Lílian.
Conforme Celeste havia pedido, Lílian tirou todos dali. As pessoas entraram na última casa no final da rua, e Lílian fechou todas as janelas e cortinas daquela casa. Enquanto isso, Celeste encarava o homem com asas prateadas à sua frente.
— Chegou o dia do seu julgamento, Azazel! – proferiu o anjo de asas prateadas.
— Miguel, por favor, meu irmão, nos deixe em paz! – disse Celeste ao se colocar à frente de Azazel.
— Eu disse para você ir embora, esta batalha não é sua! – disse Azazel a Celeste.
— Não diria isso, Celeste pecou diante do Criador; esta batalha também a pertence. Como você pôde, minha irmã? Como pôde se deixar enganar por esse demônio desprezível? Você se corrompeu por nada. – disse Miguel a Celeste.
— Não foi por nada, foi por amor. Uma coisa que você nunca vai entender, Miguel. Você é mais frio do que o gelo; só pensa em ser perfeito, nunca pensou em como se sentiam os humanos, e nunca se importou com toda a crueldade deste mundo. Nem se quer sentiu pena da destruição da criação do nosso pai. – disse Celeste nitamente ressentida.
— O Supremo nos fez para sermos perfeitos, minha irmã. Não temos que nos importar com coisas banis, os seres desta terra escolheu como viver, o livre arbítrio existe, para que eles façam o que bem entenderem, não cabe a nós nos metermos em suas escolhas. Se você arrepender-se, pouparemos sua vida. Então arrependa-se e volte para casa. – disse Miguel.
— Mesmo que eu me arrependesse, as minhas escolhas já foram feitas, e além disto, não posso abandonar os que precisam de mim. Eu não vou tornar ao céus. – disse Celeste.
— Se é assim que quer, saiba que eu a matarei rapidamente. Assim, minha irmã, você não sofrerá tanto. Mas você, Azazel, eu vou torturar até pedir para que eu o mate. – disse Miguel em fúria.
O arcanjo segurou firme sua espada. Celeste e Azazel também fizeram o mesmo. Não demorou um segundo e a luta começou. Era dois contra um, o que poderia parecer injusto, mas na verdade dois contra um não significava nada.
Miguel, como um anjo de alto escalão, tinha habilidades uma força inigualável. Ele conseguia desviar dos golpes da espada de Celeste e ao mesmo tempo ferir Azazel com a sua espada. No entanto, Celeste era persistente; ela tinha um objetivo, precisava viver para proteger o fruto do seu ventre.
Azazel estava quase derrotado naquela luta. Celeste, que até pouco tempo não tinha um arranhão em seu corpo, havia acabado de ser ferida pela espada de Miguel. Seu braço sangrava.
— Está sangrando como um humano. Veja minha irmã, você está corrompida! — Disse-lhe Miguel.
Ela percebeu o quanto havia enfraquecido após sua desobediência. Mesmo assim, estava decidida a dar sua vida, se fosse necessário, para pôr fim àquela luta.
Celeste correu para atacar Miguel mais uma vez. O arcanjo, por sua vez, foi rápido e segurou o pescoço de sua irmã. Com esse ato, Miguel conseguiu ler a mente do anjo à sua frente em questão de segundos e viu o motivo pelo qual Celeste disse que precisava viver.
— Como pode? COMO PODE? Você tem noção do que fez? Assim que acabar com vocês, eu vou atrás dessa abominação, e eu mesmo vou matá-la — disse Miguel, claramente alterado.
Miguel estava assustado com o que viu na mente de sua irmã. Ele não percebeu que Azazel, com a breve distração do arcanjo, tentou atacá-lo, mas foi em vão. Miguel foi rápido; soltou Celeste e apunhalou Azazel com sua espada. O príncipe do inferno caiu imediatamente ao chão. Celeste deu um grito estridente. Com a ira correndo em seu corpo, ela partiu para
Apunha-lar o seu irmão.
— Que sua carne retorne à terra, e que sua alma seja recebida por Deus! – disse Celeste.
Antes de apunhalar Miguel, Celeste sentiu seu próprio peito ser perfurado por uma espada que atravessou sua carne. Deixando a espada cair ao chão, Celeste se virou para ver quem a havia apunhalado.
— Porque? — Questionou Celeste.
— Sinto muito minha irmã. Estou cumprindo o meu dever! — Disse-lhe Gabriel.
O Anjo de também assas prateadas estava diante da sua irmã, seus olhos estavam triste por ver-la desfazer-se em pó.
Miguel que estava agora livre, virou-se para Azazel que estava sangrando e sem forças ao chão.
Aproveitando-se da situação, Miguel ergueu direcionou sua espada na direção do demônio para mata-lo.
— Espere! – disse Gabriel, impedindo-o.
— Por que? Vamos acabar com ele! – disse Miguel.
— A criança, não consigo sentir sua presença. Não conseguiremos encontrá-la desta forma. Ele é o único que sabe onde ela está. – disse Gabriel.
— Podem fazer o que quiser comigo... Eu não direi onde está minha filha! – disse Azazel.
— Se não nos contar, vamos matá-lo. Então, diga-nos onde ela está! – disse Miguel.
— Pode me matar. Pelo menos assim, vocês nunca a encontrarão. – disse Azazel, antes de se engasgar com seu próprio sangue.
— Você não viverá muito. Então, nos poupe de destruir cada partícula deste mundo só para encontrar essa maldita criança. – disse Gabriel.
— Pode fazer o que quiser, vocês não vão saber por mim a sua localização! – disse Azazel.
— Ele não nos dirá, então vamos terminar o que começamos! – decretou Miguel, aproximando-se de Azazel.
— Boa sorte em encontrá-la! – disse Azazel, antes de sua visão escurecer.
Com o fim da batalha, tudo pareceu calmo novamente.
Lílian, que havia saído discretamente da casa enquanto a batalha acontecia, caminhava pela floresta em direção à árvore indicada por Celeste. O caminho estava escuro, os galhos das árvores tocavam constantemente o rosto da mulher, mas ela os afastava com a mão e seguia seu percurso.
— Lili, Lili, para onde vai? – perguntou o marido da mulher.
— Preciso buscá-la. Prometi a Celeste que a protegeria! – disse a mulher ao marido.
— Buscar quem? – perguntou ele, parando atrás da mulher.
Lílian encontrou a grande árvore e, ao longe, pôde ver o cesto onde estava Mary.
— Vamos embora! – disse o marido de Lílian, segurando-a pelo braço.
— Não podemos ir sem ela. – disse Lílian, desenvencilhar-se da mão do marido.
A mulher aproximou-se da árvore, e seu marido a seguiu. Ao se aproximar, Lílian ajoelhou-se diante do cesto e retirou o leve pano que o cobria.
— Oi, Mary! – disse Lílian, pegando aquele lindo bebê em seus braços.
O marido de Lílian não sabia o que pensar. Observou aquela cena e não teve reação. Lílian, por sua vez, estava feliz. Aquela linda criança que dormia em seus braços era como um sonho realizado para aquela mulher sem filhos.
— Não é linda? – perguntou Lílian ao seu marido.
— Deixe-a aí, alguém virá buscá-la. Não sabemos o que é essa coisa! – disse o homem.
— Henry, não diga essas coisas perto do bebê. Ela é uma criança e, infelizmente, ninguém virá buscá-la. – disse Lílian.
— O que pretende fazer com isso? – perguntou Henry.
— Já disse para não falar dela assim. Vamos ficar com ela. A Mary terá uma mãe e um pai, e muito amor. – disse Lílian, ainda olhando para a criança.
— Isso é uma péssima ideia, Lílian. Você viu quem são os pais dela? Essa criança é o anticristo. Não vamos ficar com ela. Eu não vou aceitar essa criança em minha casa. — disse Henry.
— Então vá embora. Saiba que eu não vou deixar essa criança sozinha. Ela é um ser inocente. – disse Lílian, olhando para o marido.
— Você prefere essa... Isso aí, do que a mim? – perguntou Henry.
— Se for para escolher, sim. Prefiro ela. E se não gosta da ideia, pode ir. – disse Lílian, com tom autoritário.
Henry não disse uma palavra sequer. Lílian sabia que ele não a deixaria. Ela sabia que, com o tempo, ele aceitaria aquela criança. Seu marido a amava, e ela sabia disso. Por esse motivo, ele ficaria com ela.
— Vamos para casa. Não quero lidar com nada sobrenatural hoje. – disse Henry.
Lílian colocou novamente a criança na cesta e se levantou. Eles seguiram o caminho de volta pela floresta. Ao chegarem no vilarejo, havia vestígios do anjo ou do ser demoníaco. Eles caminharam cuidadosamente até sua residência, fecharam a porta e colocaram a pequena Mary, que ainda estava no cesto, sobre o sofá.
Ela, que até pouco tempo atrás estava dormindo, havia acordado. Estava com fome e começou a se mexer no cesto. Ela não estava chorando, mas estava prestes a começar.
— O que faremos se ela chorar? Os vizinhos vão ouvir. E se mais daquelas coisas aparecerem, o que faremos? – perguntou Henry a sua esposa.
— Não se preocupe com isso! – disse Lílian, pegando aquele pequeno ser em seu colo.
Ela segurou a criança em seus braços e sentou-se no sofá. Ergueu um pouco sua camisa, retirou o seio e o ofereceu ao bebê. Por um milagre, Lílian estava produzindo leite, e esse leite alimentou a criança.
— Como isso é possível? – perguntou Henry à sua esposa.
— Eu não sei, mas vamos considerar isso um milagre em nossa vida! – disse Lílian, ao ver aquele pequeno presente sendo alimentado por ela.
Com certeza, a vida do casal não seria mais a mesma. Aquela pequena criança traria alegria, mas também muitas tristezas.
Enquanto a alegria assolava a terra, no céu os anjos tentavam achar uma maneira de contornar e eliminar o que ficou para trás.
— O que vai acontecer agora? O que faremos? Essa aberração não pode continuar viva. Será o nosso fim. — Disse Miguel.
— Não consigo sentir a presença dela. Como um ser tão jovem pode se esconder assim? — Questionou Gabriel
— Não faço ideia, só sei que ela precisa morrer. — Disse Miguel
— Primeiro precisamos encontrá-la. — Afirmou Gabriel
— Tenho uma ideia, mas não irá gostar! — Disse Gabriel ao olhar para um extenso corredor a sua frente.
Vozes, súplicas e pedidos de socorro eram audíveis provenientes daquele corredor, e nele havia jaulas. Miguel e Gabriel aproximaram-se da última jaula. Fora dela, encontravam-se milhares de correntes e cadeados. Ao se aproximarem, um pequeno raio de luz permitia ver uma figura masculina sentada no canto.
— Você terá uma chance de se redimir. – disse Miguel, com um tom grave.
Aquela jaula se moveu, e as mãos daquele que estava aprisionado naquele pequeno espaço exibiam marcas de uma luta recente.
— Sabia que um dia iriam precisar da minha ajuda. — Disse aquele homem.