Mais Perto, Do Jeito Dela
A noite caiu mansa sobre a fazenda, como quase sempre acontecia. O céu estava limpo, salpicado de estrelas, e o vento trazia aquele cheiro conhecido de terra e capim que Lúcia sempre dizia ser o melhor perfume do mundo. Ela tinha terminado o que precisava fazer cedo e agora esperava Adrian na varanda, sentada na cadeira de madeira, o tereré descansando ao lado e o rádio baixinho fazendo companhia.
Quando ouviu o barulho do carro, sorriu sem perceber. Reconheceria aquele som em qualquer lugar.
Adrian apareceu poucos segundos depois, caminhando com passos tranquilos, mas carregando algo diferente naquela noite: uma sacola simples, de papel firme, dobrada com cuidado. Não era grande, nem chamativa, mas suficiente para despertar a curiosidade de Lúcia no mesmo instante.
Ela se levantou e foi até ele.
— Boa noite — disse, oferecendo o abraço de sempre.
Ele a envolveu com delicadeza, sentindo o cheiro familiar do cabelo dela, aquela mistura de sabonete simples e noite fresca.
— Boa noite, princesa.
Ela se afastou um pouco, mas logo seus olhos desceram para a sacola em sua mão.
— O que é isso? — perguntou, sem disfarçar a curiosidade.
Adrian riu de leve.
— Calma — disse. — Primeiro… posso sentar?
Ela assentiu, e os dois se acomodaram na varanda, lado a lado. A sacola ficou no colo dele por alguns segundos, enquanto ele respirava fundo, como quem organiza os pensamentos antes de falar.
Lúcia percebeu.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou, preocupada.
— Não — respondeu ele rápido. — Pelo contrário. Mas eu preciso te explicar algo antes.
Ela inclinou um pouco o corpo na direção dele, atenta.
— Pode falar.
Adrian passou a mão pela sacola, como se aquele gesto o ajudasse a ganhar coragem.
— Eu pensei muito antes de trazer isso — começou. — Pensei em você, no seu jeito, no que você gosta, no que não gosta. Pensei no que a gente construiu até agora.
Lúcia o observava em silêncio, sentindo o coração bater um pouco mais rápido.
— Eu juro pra você — ele continuou, agora olhando diretamente nos olhos dela — que não é minha intenção mudar você. Nunca foi. Eu me apaixonei por quem você é. Pelo seu jeito simples, pelo seu tempo, pelo seu mundo.
Ela engoliu em seco.
— Então… — ele respirou fundo — isso aqui não é pra te transformar em nada diferente. É só pra… te ter mais perto.
Adrian estendeu a sacola para ela.
— É um presente. Mas… é algo para nós dois.
Lúcia hesitou por um segundo, depois pegou a sacola com cuidado. O sorriso que nasceu em seu rosto era curioso e doce ao mesmo tempo.
— Posso abrir? — perguntou.
— Pode.
Ela abriu devagar. Dentro, havia uma caixa simples, bem embalada. Ao abrir a caixa, seus olhos encontraram um celular. Não era grande, nem chamativo. Era bonito, discreto, parecia escolhido com atenção.
Lúcia ficou em silêncio por alguns segundos, apenas olhando.
Adrian sentiu um frio no estômago.
— Se você não gostar… — começou, mas ela o interrompeu.
— Adrian… — disse, levantando o olhar para ele.
Ele prendeu a respiração.
— Você pensou mesmo nisso?
— Em tudo — respondeu ele. — Não é o mais caro, nem o mais moderno. É simples, funcional. Do jeito que eu achei que combinava com você.
Ela passou os dedos pela caixa, pensativa.
— Eu sei que você gosta das coisas à moda antiga — continuou ele, com cuidado. — E eu admiro isso. Mas depois daquela madrugada… depois de tudo… eu fiquei com vontade de ouvir sua voz quando sentisse saudade. De poder te ver, nem que fosse por uma tela.
Lúcia sentiu os olhos marejarem de leve.
— Eu não quero invadir seu mundo — ele disse. — Só quero caminhar ao seu lado, no seu ritmo.
Ela fechou a caixa com cuidado e a segurou junto ao peito por um instante, como se estivesse absorvendo tudo aquilo.
— Você sabe — disse ela, com a voz baixa — que eu nunca precisei disso.
— Eu sei — respondeu ele. — E é exatamente por isso que eu pensei tanto antes de trazer.
Ela respirou fundo, depois sorriu.
— Eu não vejo isso como tentar me mudar — disse. — Vejo como você tentando ficar mais perto.
Adrian soltou o ar que nem percebeu que estava segurando.
— É exatamente isso.
Lúcia abriu a caixa novamente, agora com mais calma, tirando o celular, observando cada detalhe.
— Ele é bonito — comentou.
— Eu achei que você ia dizer que é exagero — brincou.
— Eu ainda acho — respondeu ela, rindo. — Mas… é um exagero bonito.
Ela levantou os olhos para ele.
— Você sabe que eu não vou virar dessas que fica o dia inteiro no celular, né?
— Graças a Deus — respondeu ele, rindo também. — Foi por isso que me apaixonei.
Ela se aproximou um pouco mais, apoiando o ombro no braço dele.
— Mas eu confesso… — disse, pensativa — que às vezes eu fico com vontade de ouvir sua voz fora das visitas.
O sorriso de Adrian se abriu inteiro.
— Então valeu a pena.
Ela ligou o celular, meio desajeitada, como quem está entrando em um território novo. A tela acendeu, e ela fez uma careta divertida.
— Isso tem mais coisa do que o meu rádio — comentou.
— Eu ensino — disse ele. — Ou melhor… a gente aprende juntos.
Ela riu.
— Combinado.
Adrian se aproximou mais um pouco.
— Quer testar? — perguntou.
— Testar o quê?
— Me ligar — respondeu, levantando o próprio celular.
Lúcia arregalou os olhos.
— Agora?
— Agora.
Ela respirou fundo, digitou o número com cuidado e apertou o botão. O celular de Adrian vibrou quase imediatamente.
— Alô? — disse ele, fingindo formalidade.
Ela riu, surpresa ao ouvir a voz dele saindo do pequeno aparelho em sua mão.
— É estranho — confessou. — Mas… é bom.
— Eu te disse.
Ela desligou a chamada e ficou olhando para a tela por alguns segundos.
— Obrigada — disse, sincera. — Não pelo celular. Pelo cuidado.
Ele virou o rosto para ela.
— Obrigado você — respondeu. — Por confiar.
O silêncio que se seguiu não foi vazio. Foi cheio. Cheio de tudo o que ainda não tinham dito, mas sentiam. Lúcia apoiou a cabeça no ombro dele, sem pressa. Adrian ficou imóvel, respeitando aquele gesto como se fosse algo sagrado.
— Então… — ela disse, depois de um tempo — esse presente é mesmo para nós dois.
— É — confirmou ele. — Pra diminuir a distância quando ela aparecer.
Ela sorriu, olhando para o céu estrelado.
— Mesmo assim — disse — eu ainda prefiro te ver aqui, na varanda, com tereré.
— Eu também — respondeu ele. — Mas agora… quando não der… a gente se encontra pela tela.
Ela assentiu.
Naquela noite, o presente não foi apenas um celular. Foi um símbolo. De cuidado, de respeito, de um amor que não queria invadir, nem apressar — apenas se aproximar.
Do jeito dela. Do jeito deles.