Capítulo 21

864 Words
Olho no Olho Na semana seguinte, Lúcia precisou ir à cidade. Tinha assuntos da escola para resolver, documentos, conversas pendentes, coisas que não se resolviam à distância. Apesar de gostar da vida simples da fazenda, ela sabia que alguns compromissos exigiam presença. Adrian soube disso logo cedo. Viu ali uma oportunidade silenciosa — não forçada, não planejada demais — apenas uma chance de estar mais perto. Ele trabalhava na cidade, seu escritório ficava em Formosura, e o caminho era praticamente o mesmo. — Posso te levar — disse, como quem não quer parecer insistente. — Vou para o escritório hoje. Lúcia ergueu o olhar, surpresa por um segundo, depois sorriu. — Aceito, sim — respondeu. — Vai facilitar bastante. Ela passou a manhã conferindo tudo o que precisava levar. Cadernos, documentos da escola, uma pasta com papéis organizados, uma garrafa de água. Era metódica, dessas pessoas que não gostam de improviso quando o assunto é responsabilidade. Enquanto arrumava a bolsa, a mãe entrou no quarto. — Vai usar o cabelo solto — comentou, passando a mão pelos fios longos da filha. Os cabelos de Lúcia iam até a b***a. A mãe gostava assim, dizia que era bonito, que dava identidade. E Lúcia cuidava com carinho. Não por obrigação, mas porque também gostava. Era uma das poucas vaidades que mantinha. — Vou prender só um pouco — respondeu. — Para não incomodar na estrada. Quando saiu, Adrian já a esperava. Ele a cumprimentou com um sorriso discreto, desses que carregam mais intenção do que palavras. No carro, o silêncio inicial não era desconfortável. Era calmo. A estrada de terra, depois o asfalto, o verde passando pelas janelas. — Vai resolver coisa da escola? — ele perguntou, quebrando o silêncio. — Vou, sim — respondeu. — E também tenho aula de japonês hoje. Online. Ele virou o rosto para ela, curioso. — Japonês? — É — confirmou. — Sempre gostei de idiomas. Adrian sorriu. — E você assiste pelo celular? Lúcia riu, aquela risada solta que vinha fácil quando estava à vontade. — Não. — Não? — ele insistiu, achando graça. — Como assim não? Ela abriu a bolsa e mostrou o celular que carregava. Era simples, de botão, desses que só ligam, recebem ligação e, no máximo, mandam mensagem de texto. Adrian arregalou os olhos. — Você vive com isso? — Vivo — respondeu, tranquila. — Mas hoje em dia… — ele começou. — Tudo é pelo celular. Banco, escola, trabalho, mensagens… Lúcia deu de ombros. — Eu dou um jeito. Uso computador quando preciso. Mas não gosto de celular moderno. — Por quê? Ela pensou por um instante antes de responder. — Gosto das coisas à moda antiga — disse. — Olho no olho. Conversa sem pressa. Ouvir música no rádio… isso é bom demais. Ele sorriu, genuinamente encantado. — Você é diferente — comentou. — Não gosto muito dessa palavra — respondeu ela, sem perder a leveza. — Parece que diferente é errado. — Não — ele corrigiu. — Diferente é raro. Ela desviou o olhar para a janela, observando a paisagem. O rádio do carro tocava uma música antiga, dessas que não se ouvem mais com frequência. Lúcia fechou os olhos por um segundo, sentindo a melodia. — Viu? — disse ela. — Rádio. — Confesso que faz tempo que não escuto assim — ele admitiu. — Porque ninguém mais tem paciência — respondeu. — Tudo é pular, trocar, acelerar. O caminho seguiu tranquilo. Em Formosura, a cidade já se movimentava mais. Pessoas apressadas, celulares nas mãos, olhares presos às telas. Lúcia observava tudo com atenção silenciosa. — Às vezes — disse ela — acho que o mundo ficou barulhento demais. Adrian estacionou perto da escola. — E você prefere o silêncio? — Prefiro presença — respondeu. — Que não é a mesma coisa. Ela abriu a porta, mas antes de descer, olhou para ele. — Obrigada pela carona. — Eu que agradeço — respondeu. — Posso te buscar depois? Ela pensou por um instante. — Pode. Enquanto Lúcia resolvia suas coisas na escola, Adrian seguiu para o escritório. Mas a cabeça não estava totalmente ali. Pensava nela, no jeito simples, no celular de botão, no cabelo longo cuidado com carinho, na forma como ela parecia deslocada e, ao mesmo tempo, tão certa de si. Mais tarde, no horário da aula online, Lúcia se acomodou em uma sala tranquila da escola, usando um computador antigo. Conectou-se à aula de japonês com atenção total, anotando tudo à mão, como sempre. Quando saiu, Adrian já a esperava. — Deu tudo certo? — perguntou. — Deu, sim. No caminho de volta, o sol já começava a descer. O rádio continuava ligado. Nenhum dos dois sentiu vontade de mexer no celular. — Sabe — Adrian disse — talvez eu precise aprender um pouco com você. Lúcia sorriu. — Aprender a quê? — A desacelerar. Ela o olhou de lado. — Não é difícil — respondeu. — É só escolher estar. O carro seguiu pela estrada, levando de volta à fazenda duas pessoas que, sem perceber, estavam construindo algo bonito justamente no espaço entre as palavras — onde o mundo moderno ainda não tinha aprendido a alcançar.
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