🌾 A Conversa — Adrian & Lúcia
Adrian demorou um segundo a mais para entrar na casa.
Não porque estivesse hesitando… mas porque precisava recuperar o ar.
Lúcia.
Filha de Raul Ramires.
Isso ele não esperava.
Ele sempre via Raul no rancho, simples, direto, trabalhador.
Sabia que o peão tinha dois filhos — o mais velho, Ramires Júnior, que todo mundo chamava apenas de “Ramires”, e uma menina que quase ninguém via.
A menina que agora estava parada na frente dele… só que crescida, linda, e olhando nos olhos dele como se pudesse ler pensamentos.
Adrian pigarreou, tentando se recompor.
— Você é… Lúcia? — perguntou, ainda conferindo, como se o mundo tivesse pregado uma peça.
Ela cruzou os braços, apoiando o ombro na porta, relaxada… mas com um brilho esperto no olhar.
— Sou, sim. A filha do Raul.
Depois inclinou a cabeça, divertida:
— Pensei que você só reparava em gente importante, doutor Santiago.
O jeito como ela disse aquilo — sem servilismo, sem timidez, apenas uma leve provocação — pegou Adrian de jeito.
Ele tentou manter a postura.
— Eu… só fiquei surpreso. Nunca tinha te visto por aqui.
— Porque não estava aqui. — Ela respondeu simples, direta.
— É que eu não sou de sair, fico muito em casa.
Adrian assentiu, mas o olhar dele desceu por um instante, involuntário, apreciando o jeito como ela segurava a porta, a postura firme, quase desafiadora.
Lúcia percebeu.
Ah, ela percebeu.
E sorriu.
Não de vaidade.
De consciência.
— Você quer entrar? — perguntou, com a voz baixa, quase macia.
— Ou prefere ficar aí parado me olhando?
O sangue subiu no rosto de Adrian — algo que raramente acontecia. Ele respirou fundo.
— Desculpa. Sim, claro. Vim pegar a assinatura do seu pai.
Ela se virou para guiá-lo para dentro, e Adrian a seguiu, sentindo o perfume suave dela preencher o corredor, algo leve… e perigosamente agradável.
Enquanto caminhavam, Lúcia comentou:
— Meu irmão, o Ramires, está no curral desde cedo. Mas meu pai já vem. Ele ficou contente quando soube que você vinha — disse que um Santiago respeitar a palavra ainda era coisa bonita de se ver.
Adrian sorriu de leve.
— Seu pai é um homem leal. Sabe disso.
Ela parou de repente, virando-se para ele. Os dois ficaram próximos demais — perto o suficiente para que Adrian tivesse que escolher entre recuar… ou encarar.
Ele encarou.
Lúcia segurou o olhar dele sem desviar.
— E você?
— Eu… o quê? — Adrian perguntou, sentindo o estômago contrair.
— Você também é?
Os olhos dela brilharam, mas não era uma provocação vazia.
Era um teste.
Uma pergunta séria escondida dentro de uma ousadia suave.
Ele abriu a boca para responder, mas os passos pesados de Raul surgiram no corredor.
— Adrian! — o homem chamou, sorrindo. — Fico feliz que tenha vindo!
Lúcia desviou primeiro, mas não antes de lançar um último olhar — curto, profundo, e cheio de um aviso silencioso:
“Isso ainda não acabou.”