Capítulo 41

1099 Words
Entre a Água da Cachoeira e o Coração de Adrian Na fazenda, havia costumes antigos que passavam de geração em geração, quase como leis silenciosas. Um deles era o banho na cachoeira. Nos fins de tarde mais quentes, depois da lida pesada, os peões e funcionários se reuniam, rindo alto, falando besteira, jogando conversa fora antes de entrar na água gelada que descia forte entre as pedras. Ramires sempre ia. Mas nunca entrava. Ele ficava à margem, observando, participando da pescaria improvisada, cuidando do fogo quando alguém resolvia assar um peixe ali mesmo. Para Ramires, a cachoeira era mais um espaço de convivência do que de banho. Ele respeitava o ambiente, as pessoas, e principalmente os limites. Naquele dia, Adrian ouviu os comentários sem querer. Estava passando pelo galpão quando alguns funcionários conversavam animados. — Hoje a água tá boa demais — disse um. — Dá pra lavar até a alma — respondeu outro, arrancando risadas. — Ramires já falou que vai — comentou um terceiro. Adrian diminuiu o passo sem perceber. Banho de cachoeira. A imagem se formou na cabeça dele antes que pudesse evitar. E, junto dela, surgiu Lúcia. Ele parou por um instante, sentindo um desconforto que não sabia explicar direito. Não era desconfiança. Era algo mais profundo, mais íntimo. Um ciúme silencioso, misturado com a sensação de não compreender totalmente aquele mundo do qual Lúcia fazia parte desde sempre. Sem pensar muito, tirou o celular do bolso e ligou. Chamou uma vez. Nada. Chamou de novo. Nada. Na terceira tentativa, quando já pensava em desligar, ouviu a voz dela. — Oi, Adrian — disse Lúcia, um pouco ofegante. — Princesa… — ele respirou aliviado. — Você vai no banho de cachoeira? Do outro lado da linha, Lúcia riu. Uma risada leve, natural. — Eu não — respondeu. — Mas o Ramires vai. — E você vai junto? — perguntou, tentando manter a voz neutra. — Vou ficar por perto — disse ela. — Mas isso é coisa de homem, como os peões falam. — Você vai? — insistiu Adrian, sem esconder a inquietação. — Adrian, eu preciso ir — disse Lúcia. — Tô na lida agora. E desligou. Adrian ficou parado, olhando para a tela apagada do celular. Ele não conseguia imaginar Lúcia naquele ambiente. A cachoeira, os homens, as risadas soltas, a liberdade bruta daquele espaço. Não combinava com a imagem delicada que ele tinha dela — ou talvez combinasse mais do que ele gostaria de admitir. Porque Lúcia era Ramires. E isso significava que ela não se encaixava em rótulos simples. Quanto mais pensava, mais sentia a necessidade de falar com ela pessoalmente. Não por cobrança, mas por querer entender. De verdade. Decidiu ir até a casa dela. Quando chegou, a casa ainda estava silenciosa. O sol já começava a baixar, tingindo o céu de tons dourados. Dona Alice estava dentro, organizando algumas coisas, e avisou: — Lúcia ainda tá na lida. Adrian assentiu e resolveu esperar. Não demorou muito até ouvir o som conhecido de cascos no chão. Ele se virou instintivamente. Lúcia vinha montada no cavalo. Ali, naquele instante, Adrian entendeu o que os outros viam e talvez ele ainda estivesse aprendendo a enxergar. Lúcia não vinha apenas montada. Ela vinha inteira naquele papel. Postura firme, corpo alinhado ao movimento do animal, chapéu bem ajustado na cabeça. Era Ramires. Ela parou perto do estábulo, desceu do cavalo com agilidade e segurou as rédeas com naturalidade. Adrian caminhou até ela, ainda sem dizer nada. — Chegou cedo — disse ela, sorrindo ao vê-lo. — Eu precisava te ver — respondeu ele, sincero. Ela levou o cavalo até o estábulo. Adrian foi junto, observando cada gesto. Viu quando ela começou a tirar a traia com cuidado, soltando o animal para que pudesse descansar. Depois, retirou o chapéu da cabeça e, em seguida, a lace que prendia os cabelos. Os fios caíram soltos, longos, brilhando à luz do fim de tarde. Adrian parou por um segundo. — Você é linda, Lúcia. Ela riu, daquele jeito simples que sempre fazia. — Ramires faz parte de quem eu sou — respondeu, como se tivesse lido o pensamento dele. — Eu sei — disse Adrian. — Mas mesmo assim… fico com ciúmes. Só de pensar em você lá. Lúcia se aproximou devagar. Parou bem à frente dele e olhou dentro dos seus olhos, sem desviar. — Adrian, ninguém ali não sabe quem eu sou — disse, firme. — E se soubesse e tentasse qualquer coisa, ia levar uma coça bem dada. Ele sorriu de leve, mas ainda havia algo preso no peito. — Eu não duvido disso — respondeu. — O problema sou eu. Às vezes eu esqueço que você cresceu diferente. Ela respirou fundo, como se soubesse que aquela conversa precisava ir além. — Vem comigo — disse. Sentaram-se em um banco de madeira perto do estábulo. O cheiro de terra, de feno e de animal misturava-se ao vento fresco do fim de tarde. — Meu pai sempre quis um filho homem — começou Lúcia, olhando para frente. — Mas a minha mãe, a Dona Alice, teve problemas na gravidez. Depois de mim, não pôde ter mais filhos. Adrian ficou em silêncio, atento. — Então ele me ensinou tudo — continuou ela. — Tudo o que ensinaria a um filho. Montar, lidar com gado, negociar, mandar quando precisa e obedecer quando é preciso também. Ela fez uma pausa e sorriu de leve. — E a minha mãe me ensinou tudo o que é ser mulher. Cuidar, sentir, respeitar o próprio corpo, saber quando ser firme e quando ser delicada. Ela virou-se para ele. — Eu sou as duas coisas, Adrian. Não dá pra separar. Ele sentiu algo se encaixar dentro de si. — Eu não quero te mudar — disse ele. — Eu só… às vezes fico com medo de não te entender o suficiente. Lúcia segurou a mão dele. — Então aprende comigo — respondeu. — Do mesmo jeito que eu aprendo com você. Adrian apertou a mão dela com carinho. — Eu vou — prometeu. Ela sorriu, satisfeita. — Agora vamos entrar — disse. — A minha mãe já deve estar pensando besteira. Eles se levantaram e caminharam juntos em direção à casa. Adrian olhou mais uma vez para trás, para o estábulo, para o cavalo descansando, para aquele cenário que agora fazia mais sentido. Ele entendeu, finalmente, que amar Lúcia era amar tudo o que ela era. A moça delicada. A filha dedicada. A mulher firme. E o Ramires que existia dentro dela. E isso, longe de afastá-lo, o fazia amá-la ainda mais.
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