Capítulo 31

883 Words
O Começo de Algo Verdadeiro Adrian dirigia pela estrada de terra com o coração leve como nunca antes. A noite estava clara, o céu coalhado de estrelas, e cada quilômetro percorrido parecia confirmar algo que ele ainda estava aprendendo a aceitar: estava namorando. Mas não era qualquer namoro. Era sério. De verdade. Do tipo que se pede permissão, que envolve família, que cria raízes. Ele sorriu sozinho dentro do carro. Nunca tinha feito aquilo daquele jeito. Suas histórias anteriores sempre foram rápidas, intensas e vazias. Cama, conversa rasa, despedida. Nada que ficasse. Com Lúcia, era diferente desde o começo. Não tinha pressa, mas tinha intenção. Não tinha excesso, mas tinha profundidade. Ao chegar em casa, os pais já dormiam. Adrian entrou em silêncio, tomou um banho demorado, como se quisesse lavar não o cansaço, mas a ansiedade boa que ainda corria no corpo. Vestiu uma camiseta simples, sentou-se na beira da cama e ficou alguns minutos olhando para a aliança em seu dedo. — Eu vou fazer isso direito — murmurou. Do outro lado da fazenda, Lúcia ainda estava acordada. O jantar tinha terminado há horas, a casa já estava silenciosa, mas ela não conseguia dormir. Levantou-se, caminhou até o quarto e observou o buquê que Adrian lhe dera. Tinha colocado as flores num jarro simples, de vidro transparente, e posicionado sobre a cômoda. Eram lindas. Diferentes entre si, mas juntas formavam algo harmônico. Lúcia passou os dedos de leve por uma das pétalas. — Ele pensou em mim — disse em voz baixa. Sentou-se na cama e olhou em volta. Tudo estava igual, mas ao mesmo tempo nada estava. Havia uma aliança em seu dedo. Um acordo feito diante dos pais. Um compromisso que, para ela, tinha peso e valor. Pegou o celular simples quando ele vibrou sobre a mesa. A mensagem era dele. Queria agradecer a noite. Foi incrível. Queria mais tempo com você, mas estou feliz. Vou ser um bom namorado. Espero que goste do nosso namoro. Lúcia leu devagar. Duas vezes. Um sorriso tímido surgiu em seus lábios. Digitou com cuidado, como sempre fazia. Eu já estou gostando. Ficou olhando a tela por alguns segundos, pensando se mandava mais alguma coisa. O celular vibrou novamente. Amanhã você vai pra cidade? Ela pensou no dia seguinte. Havia coisas da fazenda para resolver. Conferências, compras, documentos. Assuntos que exigiam Ramires. Amanhã vou, mas vou resolver alguns assuntos da fazenda. Adrian leu e entendeu de imediato. Não precisou perguntar. Quando era cidade, escritório, negociações mais duras, quem ia não era Lúcia. Era Ramires. Ele digitou de volta: Entendi. Então quem vai é o Ramires. Lúcia sorriu sozinha. Mesmo sabendo, mesmo entendendo, ele respeitava. Isso dizia muito. Sim. Mas à noite eu volto a ser só Lúcia. Adrian sentiu o peito aquecer ao ler aquilo. Eu espero. Boa noite, Lúcia. Dorme bem. Ela respondeu: Boa noite, Adrian. Colocou o celular de lado e se deitou. O sono demorou um pouco, mas quando veio, foi tranquilo. Não sonhou com pressa, nem com medo. Sonhou com mesa posta, com risadas baixas, com mãos dadas na varanda. Na manhã seguinte, o sol ainda estava baixo quando Ramires surgiu no curral. Chapéu firme na cabeça, camisa fechada até o último botão, postura segura. Para os peões, era ele. Sempre tinha sido. — Bom dia — disse Hugo, ajeitando a sela. — Bom dia — respondeu Ramires, já conferindo os animais. O dia seria cheio. Separou os documentos que levaria, revisou mentalmente os pedidos, subiu no cavalo e seguiu para a cidade. Na estrada, o vento batia forte, e o pensamento, inevitavelmente, ia até Adrian. Ramires não sentia ciúmes. Sentia cuidado. Lúcia tinha escolhido. E tinha escolhido certo. Na cidade, Adrian já estava no escritório quando viu Ramires chegar. Observou de longe a postura firme, a segurança, o respeito que todos tinham por ele. Sempre tinha admirado aquilo, mas agora havia algo a mais: responsabilidade compartilhada. — Bom dia — disse Adrian, quando ele entrou. — Bom dia — respondeu Ramires. — Vim resolver o que ficou pendente. — Fica à vontade — disse Adrian. — Se precisar de algo… Ramires assentiu e foi direto ao trabalho. Assinaturas, pedidos, conversas objetivas. Sem rodeios. Adrian observava em silêncio, entendendo cada vez mais o peso de tudo aquilo. Ao meio-dia, Ramires se despediu. — Qualquer coisa, aviso. — Certo — respondeu Adrian. Quando ele saiu, Adrian encostou-se na cadeira, respirou fundo e sorriu. Era estranho pensar que a mesma pessoa que resolvia tudo com tanta firmeza era aquela que, à noite, sorria tímida diante de flores. À tarde, Lúcia voltou da lida e se permitiu descansar um pouco. Tirou as botas, soltou o cabelo, trocou de roupa. Pegou o buquê novamente e trocou a água do jarro. Olhou a aliança em seu dedo. — Namorando — disse em voz baixa, quase incrédula. No fim do dia, Adrian mandou outra mensagem. O dia foi puxado aqui. Mas pensei em você várias vezes. Ela respondeu: Aqui também. Mas agora o dia acabou. Então agora é Lúcia. Ela sorriu. Agora é só Lúcia. Quando a noite caiu, cada um em seu canto, ambos sentiam a mesma coisa: calma. Não havia urgência. Não havia ansiedade exagerada. Apenas a certeza de que algo tinha começado do jeito certo. E, para os dois, isso era tudo.
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