Capítulo 59

1043 Words
Um Plano Que Nasce do Amor Adrian ficou alguns segundos em silêncio depois de ouvir tudo. Não desviou o olhar de Lúcia nem por um instante. Havia muita coisa ali — medo, coragem, amor, responsabilidade — tudo misturado naquele par de olhos cor de mel que ele já sabia serem o seu lugar seguro. — O que exatamente a Sandrinha te disse sobre o bebê? — perguntou, com a voz baixa, cuidadosa. Lúcia respirou fundo. Sabia que aquela parte precisava ser contada com clareza, sem rodeios. — Ela disse que não quer o bebê — começou, sentando-se mais ereta. — Disse que não se vê como mãe, que não tem estrutura, que não consegue amar essa criança agora… ou talvez nunca. E quando ela falou isso… eu senti algo aqui — levou a mão ao peito. — Eu disse que eu queria. Que eu ficaria com o bebê. Adrian assentiu devagar, absorvendo cada palavra. — E aí… — Lúcia continuou — ela sugeriu uma coisa. Que eu fingisse estar grávida. Que, quando o neném nascesse, já sairia no meu nome. Como se fosse meu desde o começo. O silêncio caiu pesado entre eles. Adrian soltou uma risada curta, nervosa, passando a mão pelo cabelo. — Seu pai vai me matar se ouvir um negócio desse — disse, meio sério, meio tentando aliviar a tensão. Lúcia sorriu de canto, nervosa também. — Vai mesmo — respondeu. — Por isso ninguém pode saber. Ninguém. Ele ficou pensativo. Andou alguns passos pela varanda, parou, voltou. Era advogado, acostumado a analisar situações complexas, riscos, consequências. Mas ali não era só razão — era vida real, era amor, era uma criança. — Olhando friamente… — começou — faz sentido. Pensando por esse lado, o bebê já vai nascer como se fosse nosso. Sem confusão depois, sem perguntas, sem julgamentos. Lúcia o olhou com atenção, surpresa pela calma dele. — Mas — ele completou — isso tem que ser muito bem planejado, Lúcia. Muito. Não é só fingir uma barriga. É documento, tempo, história, comportamento… tudo tem que bater. Ela assentiu. — Eu sei. Adrian se sentou ao lado dela, pegando suas mãos. — A Sandrinha não pode continuar aqui — disse, sério. — O povo daqui fala demais. Uma palavra atravessada vira um escândalo. Se alguém desconfiar… acabou. — Ela vai para a cidade — Lúcia concordou. — Já pensei nisso. Lá ela fica mais anônima, mais distante dos olhares. Aqui todo mundo conhece todo mundo. — E a gravidez? — ele perguntou. — Como vocês vão justificar o sumiço dela? — Ela pode dizer que foi trabalhar — Lúcia respondeu. — Ou estudar. Ou cuidar da vida dela. Sandrinha sempre foi mais solta, ninguém vai estranhar tanto. Adrian respirou fundo. — Você tem noção do tamanho disso, né? — perguntou, olhando nos olhos dela. — Não é só criar um bebê. É assumir uma vida inteira. Lúcia não hesitou. — Eu sei. E não tô com medo disso. Tenho medo do que as pessoas vão dizer. Do julgamento. Mas do bebê… não. Nunca. Ele sentiu o coração apertar. — Você é incrível — disse, com sinceridade. Ela abaixou o olhar, emocionada. — Eu não quero fazer isso sozinha — confessou. — E também não quero te prender a nada que você não queira. Adrian segurou o rosto dela com cuidado, obrigando-a a olhar para ele. — Escuta bem o que eu vou te dizer — falou, firme. — Eu tô aqui. Não só agora. Em tudo. Se vamos fazer isso, vamos fazer juntos. Os olhos de Lúcia se encheram de lágrimas. — Juntos? — repetiu, quase num sussurro. — Juntos — confirmou. — Planejando, cuidando, protegendo. Esse bebê… — ele respirou fundo — já é parte da nossa história. Ela não conseguiu segurar o choro. Encostou a testa no peito dele, sentindo o coração bater forte, seguro. — Eu tava com tanto medo — confessou. — Medo de você achar loucura. Medo de você ir embora. — Eu não fujo — ele respondeu. — Nunca fugi do que importa. Ficaram assim por alguns minutos, em silêncio, apenas sentindo. Depois, Adrian se afastou um pouco, mais prático, como sempre fazia quando precisava organizar o caos. — Vamos por partes — disse. — Primeiro: a Sandrinha precisa ir para a cidade o quanto antes. Eu posso ajudar com isso. Arrumar um lugar, pensar em trabalho, manter distância daqui. — Ela vai aceitar — Lúcia disse. — Ela também quer sair de lá. — Segundo — continuou — você vai precisar mudar alguns hábitos. Não montar cavalo como antes, evitar esforço excessivo… o povo repara em tudo. Lúcia fez uma careta. — Essa parte vai ser difícil. — Eu sei — ele sorriu. — Mas é temporário. — Terceiro — Lúcia completou, entrando no ritmo — eu vou precisar começar a “sentir” sintomas. Enjoos, cansaço, sono… — Isso você já tem — ele brincou. Ela riu, apesar da tensão. — E o quarto? — ela perguntou de repente. — E as coisas do bebê? Adrian respirou fundo, um sorriso lento surgindo. — Um passo de cada vez. Mas eu já tô pensando nisso também. Ela o olhou, surpresa. — Tá mesmo? — Tô — respondeu. — Porque, Lúcia… — a voz dele ficou mais baixa — quando você disse que ficaria com esse bebê, algo mudou dentro de mim. Eu me vi ali. Com você. Com uma criança. Como família. Ela sentiu o coração disparar. — Adrian… — Eu sei que ainda é cedo pra falar em casamento — ele continuou — mas não pra falar em compromisso. E eu já tô comprometido com você faz tempo. Ela sorriu entre lágrimas. — Então… — disse, respirando fundo — vamos fazer dar certo? Ele estendeu a mão para ela, como quem sela um acordo. — Vamos fazer dar certo juntos. Lúcia segurou a mão dele com força. Naquela varanda simples, sob o céu do fim de tarde, nasceu um plano improvável. Um plano cheio de riscos, silêncios e desafios. Mas nasceu também algo muito maior: Uma família construída não pelo sangue, mas pela escolha. E nenhum dos dois sabia ainda, mas aquele bebê — que nem havia chegado ao mundo — já tinha mudado o destino de todos eles.
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