Capítulo 92

882 Words
A Primeira Noite A casa estava silenciosa de um jeito diferente naquela noite. Não era o silêncio comum das madrugadas de Formosura, cortado apenas pelos sons do campo. Era um silêncio carregado de expectativa, de cuidado, de tudo o que não havia sido dito ao longo dos meses — e que agora respirava junto com eles. Lúcia saiu do banheiro devagar, como se cada passo precisasse ser sentido. A camisola branca que escolhera caía leve sobre o corpo, simples, delicada, do jeito que ela era. Não havia rendas exageradas nem intenção de provocar. Havia escolha. Havia consciência. Havia decisão. Adrian estava encostado próximo à janela do quarto. Tinha acabado de sair do banho também, os cabelos ainda úmidos, a camisa deixada de lado, vestindo apenas uma calça confortável. Ele parecia inquieto, mas não nervoso — atento. Como alguém que segura algo precioso demais para não tomar cuidado. Quando a viu, o ar pareceu faltar por um instante. Não pelo corpo. Não pelo desejo apenas. Mas pela imagem completa dela ali, naquela casa que agora era deles, naquela noite que marcava um antes e um depois. — Princesa… — ele começou, a voz baixa, firme, mas carregada de emoção. — Tem certeza? Lúcia parou a poucos passos dele. Seus olhos encontraram os dele sem desviar. Não havia pressa no olhar dela, nem medo. Havia confiança. — Sim, Adrian — respondeu com suavidade. — Em qualquer momento… você pode me mandar parar. Ele fechou os olhos por um segundo, como se absorvesse aquelas palavras. Não como permissão, mas como responsabilidade. Abriu-os novamente e se aproximou devagar, respeitando cada centímetro daquele espaço que sempre protegera. — Não é assim — disse ele, com um sorriso pequeno. — Aqui não tem ordem. Só escolha. A sua. Sempre foi. Ela assentiu. O coração batia rápido, mas não de ansiedade. Era algo mais profundo, como se estivesse exatamente onde deveria estar. Adrian estendeu a mão, oferecendo, não tomando. Lúcia colocou a dela sobre a dele. O toque foi simples, mas intenso. Um toque que carregava meses de espera, de respeito, de desejo contido. — Se em algum momento você quiser parar… — ele disse. — Eu falo — completou ela. — Eu confio em você. Eles se aproximaram mais, até que o espaço entre os dois desapareceu. O primeiro beijo veio diferente de todos os outros que já tinham trocado. Não tinha urgência. Não tinha fogo descontrolado. Tinha presença. Adrian levou a mão ao rosto dela, como sempre fazia, acariciando com o polegar a linha suave da bochecha. Lúcia fechou os olhos, sentindo o gesto, sentindo-se segura. Quando ele encostou a testa na dela, respiraram juntos. — Eu esperei porque queria que fosse assim — ele murmurou. — Inteiro. Seu. Nosso. Lúcia sorriu, emocionada. — Eu também. O quarto parecia menor agora, não por falta de espaço, mas porque tudo o que importava estava concentrado ali. O mundo lá fora podia esperar. Eles se sentaram na beira da cama, lado a lado. Adrian não tinha pressa em deitá-la, nem em conduzir nada. Apenas ficou ali, segurando a mão dela, como se quisesse garantir que cada segundo fosse vivido. — Você está linda — disse ele, quase em um sussurro. — Você sempre diz isso — respondeu ela, com um sorriso tímido. — Porque você sempre está. Lúcia respirou fundo e, pela primeira vez naquela noite, sentiu um leve nervosismo. Adrian percebeu imediatamente. — Ei — ele disse, virando-se para ela. — Olha pra mim. Ela obedeceu. — Não existe certo ou errado aqui. Não existe expectativa. Só nós dois. Se quiser rir, a gente ri. Se quiser parar, a gente para. Se quiser só ficar assim… a gente fica. Os olhos dela se encheram de lágrimas, não de medo, mas de gratidão. — Obrigada por nunca me apressar — disse. — Obrigado por me escolher — respondeu ele. Quando deitaram, foi natural. Sem pressa. Sem coreografia. O toque de Adrian era cuidadoso, como quem aprende algo pela primeira vez, mesmo tendo vivido tanto antes. Com Lúcia, tudo era novo. Ela sentia o coração bater forte, sentia o calor do corpo dele, o cheiro que já conhecia tão bem. Em algum momento, ela o abraçou com mais firmeza, como se dissesse sem palavras que estava ali, inteira. Adrian beijou-lhe os cabelos, depois a testa, depois a ponta do nariz. Cada gesto parecia uma promessa silenciosa. — Estou aqui — ele repetiu. — Eu sei — ela respondeu, com a voz embargada. O resto da noite não precisou de palavras. Não precisou de descrição. Foi feita de respirações compartilhadas, de pausas respeitadas, de sentimentos que se reconheciam. E quando tudo se acalmou, quando o mundo voltou a caber dentro do quarto, Lúcia estava aninhada no peito de Adrian, ouvindo o coração dele bater — forte, constante. — Ainda está tudo bem? — ele perguntou, em voz baixa. — Está perfeito — respondeu ela. Adrian sorriu no escuro, beijou o topo da cabeça dela e fechou os olhos, sentindo algo que não sentia há muito tempo: paz. A primeira noite deles não foi sobre pressa, nem sobre conquista. Foi sobre cuidado. Sobre escolha. Sobre amor que sabia esperar — e que agora sabia ficar. E ali, naquela casa, naquela cama, eles começaram algo que não precisava de urgência para ser eterno.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD