Capítulo 27

963 Words
À Beira do Que Não Dá Mais para Esconder Adrian chegou em casa já passava das onze da noite. O corpo estava cansado, a mente mais ainda. A casa estava silenciosa, envolta naquele sossego profundo que só existe quando todos já dormiram. Os pais tinham ido se deitar cedo, como de costume. As luzes estavam apagadas, o ar parado. Ele foi direto para o quarto. Deixou os sapatos de qualquer jeito, passou a mão pelo rosto e suspirou fundo. Tomou banho demorado, deixando a água quente escorrer pelas costas, tentando aliviar o peso do dia e, principalmente, o peso dos pensamentos. O que ele queria mesmo era ver Lúcia. Mas não podia. Nem uma ligação de vídeo, nem uma mensagem longa. Lúcia não usava smartphone. E, por mais estranho que aquilo parecesse para ele no começo, agora entendia: o mundo dela era outro, e isso o atraía ainda mais. Deitou-se na cama, encarando o teto. Virou de um lado, depois do outro. O sono demorou. Quando veio, foi leve, quebrado. E quando dormia, sonhava com ela. Sempre com ela. Quando o dia clareou, Adrian acordou com a cabeça pesada, como se não tivesse descansado nada. Passou a mão nos olhos, sentou-se na cama e respirou fundo. — Assim não dá — murmurou. Foi direto para o banheiro. Abriu o chuveiro no máximo e deixou a água gelada cair sobre o corpo, tentando acordar de vez, expulsar o cansaço e organizar os pensamentos. Precisava fazer alguma coisa. Não estava dormindo direito. Não estava vivendo direito. E sabia exatamente o motivo. Enquanto isso, na fazenda, o dia também começava cedo. Ramires já estava de pé quando os caminhões chegaram. O barulho do motor anunciou a chegada dos bois novos. Ela foi logo conferir se tinham chegado bem, observando com atenção cada movimento, cada sinal de estresse dos animais. Os peões aguardavam as orientações. Seu Raul observava de longe, braços cruzados, confiante. O motorista do caminhão desceu e comentou, com certa preocupação: — Esses bois são bravos. Vão atacar seus peões. Seu Raul soltou uma risada curta. — O Ramires é bem esperto — respondeu. — E sabe o que faz. Ramires se movimentava com calma, firmeza, sem gritos desnecessários. Conhecia aquele tipo de gado. Sabia quando avançar, quando esperar. Os bois foram conduzidos sem maiores problemas, e logo tudo estava sob controle. Depois do almoço, Seu Raul saiu para resolver coisas fora. Ramires ficou no escritório, preenchendo planilhas, conferindo números, anotando pedidos. O silêncio ali dentro era quebrado apenas pelo som do ventilador antigo. Foi quando o celular apitou. Ela pegou o aparelho simples e leu a mensagem. “Posso falar com você? Te espero lá na cachoeira.” Ramires franziu a testa. Era de Adrian. Sentiu o coração bater mais forte, mas manteve a calma. Sabia que algo estava diferente nele nos últimos dias. Guardou os papéis, pegou suas coisas e saiu. O caminho até a cachoeira era conhecido. Um lugar afastado, tranquilo, onde o barulho da água abafava o mundo. Desceu do cavalo quando chegou e o amarrou à sombra de uma árvore. Adrian já estava lá. Ele a viu se aproximar e respirou fundo. — Queria falar comigo? — perguntou Ramires, parando a alguns passos. Adrian sorriu, nervoso. — Queria… — respondeu. — Mas não com você assim. Ela o encarou por um instante. Entendeu na hora. Sem dizer nada, virou-se e caminhou até perto da água. A grande pedra estava ali, como sempre. Ramires se abaixou, tirou o chapéu, soltou os laços do cabelo. Quando voltou, era Lúcia. Vestia roupas simples, o cabelo solto, o rosto limpo, sem defesas. Sentou-se perto dele, na pedra, sentindo o frescor da água espirrar levemente. Adrian engoliu seco. — Vou ser sincero com você, Lúcia — começou, olhando para a correnteza. — Eu estou gostando de você. De verdade. Ela o olhou com atenção. Não havia surpresa exagerada, nem medo imediato. Apenas atenção. — Você tem certeza, Adrian? — perguntou, com voz calma. Ele virou o rosto para ela. — Tenho. — respirou fundo. — Eu tô ficando louco. Não durmo direito. Quando durmo, sonho com você. Nunca foi assim pra mim. Lúcia permaneceu em silêncio por alguns segundos. Depois sorriu. Um sorriso pequeno, leve. — Você fala isso com tanta seriedade que assusta — disse, quase rindo. — Eu não sei brincar com isso — respondeu ele. — Não com você. Ela abaixou o olhar, mexendo distraidamente numa pedrinha. — Eu sou diferente das mulheres que você conheceu — disse, por fim. — Eu sei — respondeu Adrian na hora. — E é exatamente isso. Lúcia levantou os olhos novamente. — Eu não sei viver correndo — continuou. — Não sei pular etapas. Tenho medo. — Eu também — ele confessou. — Mas tenho mais medo ainda de não tentar. Ela respirou fundo. O som da cachoeira envolvia os dois, criando uma espécie de bolha onde só existiam verdades. — Eu nunca vivi isso — disse Lúcia. — Nunca me apaixonei. Adrian sorriu de leve. — Então talvez a gente aprenda junto. Ela riu, finalmente, deixando o clima mais leve. — Você fala bonito demais pra alguém que diz estar louco. — É o efeito que você causa — respondeu. Ficaram ali, sentados lado a lado, sem se tocar. Não havia pressa. Não havia cobrança. Apenas a sensação de que algo importante tinha sido dito. Lúcia olhou para a água, depois para ele. — Eu gosto de você — disse. — Mas preciso ir devagar. Adrian assentiu. — Eu espero. E, pela primeira vez em muito tempo, ele sabia que não estava mentindo. À beira da cachoeira, entre o som da água e o silêncio respeitoso, algo começou de verdade. Sem promessas exageradas. Sem atropelos. Apenas dois corações, finalmente honestos, aprendendo a se reconhecer.
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