Entre o Medo e a Verdade
Adrian estava na cidade, enterrado em compromissos, audiências, reuniões que pareciam se multiplicar ao longo do dia. O escritório estava cheio, o telefone não parava, papéis se acumulavam sobre a mesa. Ainda assim, entre um intervalo e outro, ele fez o que sempre fazia quase sem perceber: pegou o celular e abriu o grupo da fazenda.
Era automático. Mesmo longe, ele gostava de se sentir perto da rotina dali, das pessoas, do chão que agora também fazia parte da vida dele por causa de Lúcia.
Mas naquela tarde, a leitura não foi tranquila.
Uma mensagem puxou a outra.
“Vocês ficaram sabendo da confusão no galpão?”
“Ramires teve que entrar no meio.”
“Teve faca.”
“E arma também.”
O coração de Adrian falhou uma batida.
Ele releu as mensagens, devagar, como se tivesse entendido errado. O ar pareceu faltar por um segundo.
— Como assim… — murmurou sozinho, passando a mão pelo rosto.
Ramires. Faca. Arma. Briga.
A imagem veio inteira à cabeça dele, mesmo sem nunca ter presenciado algo assim: poeira no ar, gritos, mãos trêmulas segurando objetos que podiam matar. E no meio disso tudo… Ramires.
E, inevitavelmente, Lúcia.
Porque para Adrian já não existia separação clara entre os dois. Ramires era a armadura. Lúcia, o coração. Mas eram a mesma pessoa. E pensar nela no meio de uma situação dessas fez o estômago dele se revirar.
— Meu Deus… — sussurrou.
Ele levantou da cadeira, começou a andar de um lado para o outro da sala. A cabeça fervilhava. Como alguém tinha permitido aquilo? Como ninguém tinha impedido antes de chegar nesse ponto? E como Lúcia — tão jovem, tão firme e ao mesmo tempo tão delicada — podia estar no meio de algo assim?
Adrian olhou o relógio. Tinha compromisso em poucos minutos. Não podia simplesmente largar tudo. Era o tipo de dia em que a responsabilidade não dava trégua.
Mas o coração não entendia agenda.
Ele precisava falar com ela. Precisava ouvir a voz dela. Precisava ter certeza de que estava bem.
Pegou o celular com a mão um pouco trêmula e ligou.
Chamou.
Chamou de novo.
Enquanto isso, na fazenda, Lúcia estava trabalhando. Tinha acabado de sair de uma reunião rápida com o pai, resolvendo detalhes do andamento do serviço depois do ocorrido. O dia tinha seguido, como sempre seguia. A poeira assentava, os ânimos esfriavam, e a fazenda precisava continuar funcionando.
O celular vibrou no bolso dela.
Ela reconheceu o nome na tela antes mesmo de atender.
Adrian.
O coração dela se apertou, mas não de medo. De cuidado. Ela sabia. Sempre tinha alguém que falava demais. Alguém que aumentava história, que espalhava medo onde já tinha passado.
— Oi, Adrian — atendeu, se afastando um pouco do barulho.
A voz dele veio diferente. Tensa. Apressada.
— Lúcia… você tá bem?
Ela franziu levemente a testa.
— Tô. Por quê?
— Eu fiquei sabendo… — ele respirou fundo do outro lado da linha. — Da briga. Falaram em faca, arma… falaram que o Ramires entrou no meio.
Lúcia fechou os olhos por um instante. Pensou exatamente o que imaginava.
— Sempre tem uma boca de sacola pra falar o que não deve — disse, com um meio sorriso na voz. — Calma, Adrian.
— Como calma, Lúcia? — ele quase falou mais alto do que pretendia. — Você tava entre uma faca e uma arma!
— Eu tava entre duas pessoas desesperadas — respondeu, firme. — E alguém tinha que parar aquilo antes que virasse tragédia.
Adrian passou a mão pelos cabelos.
— Mas você podia ter se machucado… — a voz dele baixou. — Você é o amor da minha vida, Lúcia. Eu não consigo nem imaginar…
Ela respirou fundo. Aquele tom mexia com ela mais do que qualquer coisa.
— Adrian, olha pra mim — disse de repente.
— Como assim?
— Vou mudar pra vídeo. Só um segundo.
Antes que ele respondesse, a chamada mudou. A imagem apareceu na tela: Lúcia, ali, viva, inteira. Os cabelos presos de qualquer jeito, o rosto sujo de poeira do trabalho, os olhos firmes, mas doces.
— Tá vendo? — ela perguntou, aproximando o celular do rosto. — Inteira. Sem um arranhão.
Adrian sentiu um nó se desfazer dentro do peito. A tensão começou a ceder, mas o medo ainda estava ali, escondido.
— Você não imagina o susto que eu levei — confessou. — Quando li aquelas mensagens… foi como se o chão tivesse sumido.
— Eu imagino — respondeu ela, mais suave agora. — Mas isso acontece, Adrian. Infelizmente, acontece. Gente com raiva, com dor, que perde o limite.
— E você no meio disso…
— Eu faço parte disso — disse, sem hesitar. — Como braço direito do meu pai, eu tenho responsabilidade. Se eu não entro, alguém podia morrer.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos, apenas observando a imagem dela na tela, como se quisesse gravar cada detalhe para se acalmar.
— Eu odeio não poder estar aí — disse por fim.
— Eu sei — ela sorriu de leve. — Mas eu também sei que você confia em mim.
— Confio — respondeu imediatamente. — Mas confiar não tira o medo de perder.
Ela sentiu o peso daquela frase. O amor dele não era posse, era cuidado. Era preocupação verdadeira.
— Adrian… — ela chamou, com a voz mais baixa. — Eu cresci nesse ambiente. Aprendi desde cedo a lidar com conflito, com gente difícil, com situações que não são bonitas. Isso não me faz menos mulher, nem menos sua namorada.
— Eu sei — disse ele. — É isso que me assusta e me orgulha ao mesmo tempo.
Ela sorriu.
— Não foi a primeira briga que eu separei. E, infelizmente, talvez não seja a última. Mas eu sei o que faço. Sei até onde posso ir.
— Promete que não vai se colocar em risco além do necessário? — pediu ele.
— Prometo — respondeu, sincera. — E prometo também te avisar quando algo for sério de verdade.
Ele assentiu, mesmo sabendo que ela não podia ver o gesto.
— Eu queria te abraçar agora — confessou.
— Eu sei — disse ela. — Eu também queria.
O silêncio entre os dois não era desconfortável. Era cheio de coisa não dita, de sentimentos fortes demais para caber em palavras simples.
— Preciso voltar pro trabalho — ela falou por fim. — Mas fica tranquilo. Tá tudo sob controle.
— Vou tentar — respondeu ele, com um sorriso cansado. — Obrigado por atender, mesmo ocupada.
— Sempre vou atender você — disse ela, sem pensar. — Sempre.
A ligação terminou, mas Adrian continuou olhando para a tela por alguns segundos, agora apagada. Respirou fundo, sentindo o coração ainda acelerado, mas mais calmo.
Ele voltou para a mesa, tentou retomar o foco, mas uma coisa estava clara dentro dele: amar Lúcia não era amar alguém frágil. Era amar alguém forte. Alguém que encarava o perigo de frente quando necessário.
E isso, ao mesmo tempo que dava medo, fazia ele amar ainda mais.
Na fazenda, Lúcia guardou o celular no bolso e voltou ao trabalho. O sol ainda estava alto, a lida não esperava. Mas dentro dela havia um conforto silencioso: saber que, mesmo longe, Adrian estava ali. Preocupado. Presente. Amando.
E naquele equilíbrio entre o mundo duro da fazenda e o cuidado delicado de um amor verdadeiro, Lúcia seguia firme, sabendo exatamente quem ela era — Ramires quando precisava, Lúcia quando queria, e inteira em todos os momentos.