Capítulo 78

1129 Words
Entre Vitrines e Silêncios Lúcia ficou alguns minutos em silêncio depois que Adrian falou sobre a viagem. A capital sempre lhe soava distante. Grande demais, rápida demais, cheia de olhos atentos e julgamentos silenciosos. Belo Horizonte não era apenas uma cidade maior; era o lugar onde Adrian era conhecido, respeitado, observado. Um homem importante, como ela mesma reconhecia. Dono de negócios, de influência, de um sobrenome que abria portas. E ela? Ela era jovem, simples, recém-saída da escola, mãe de um bebê pequeno, esposa por amor — e por coragem. Lúcia não tinha vergonha de quem era. Nunca teve. Mas também não queria, de forma alguma, ser motivo de comentários, cochichos ou olhares atravessados que pudessem respingar em Adrian. Não queria que alguém dissesse que ele havia “descido o nível”, como tantas vezes já ouvira mulheres comentarem sobre outras. Quando Adrian disse que ficariam uma semana na capital, porque ele precisava resolver negócios, contratos e também aquela situação delicada com o passado, Lúcia apenas assentiu. Mas, por dentro, o pensamento correu solto. Ela olhou para o guarda-roupa naquela mesma noite. Tinha roupas novas, sim. Vestidos que Adrian havia comprado, outros que a sogra escolhera com carinho, pensando nela e em Samuel. Peças bonitas, discretas, confortáveis. Mas ainda assim… poucas. Insuficientes para uma semana inteira em um lugar onde tudo parecia exigir mais. — Eu preciso me preparar — murmurou para si mesma, enquanto dobrava uma blusa com cuidado. Lúcia lembrava do cartão que Adrian havia lhe dado dias antes. Ele tinha colocado na mão dela com naturalidade, como quem entrega algo óbvio. “É para você usar quando precisar”, ele dissera. “Não me peça permissão. Não se sinta constrangida.” Ela não tinha usado ainda. Não por medo, mas por costume. Sempre aprendera a medir gastos, a pensar duas vezes antes de comprar qualquer coisa. Agora, a vida era outra. Mas o coração ainda estava aprendendo isso. Além disso, Samuel precisava de roupas novas. Ele crescia rápido, como se tivesse pressa de alcançar o mundo. Algumas peças já começavam a ficar justas. E Adrian… bem, Adrian sempre se esquecia de comprar coisas para si mesmo. Era o tipo de homem que se preocupava com todos, menos consigo. Na manhã seguinte, enquanto Samuel dormia tranquilo após a mamada, Lúcia estava sentada à mesa da cozinha, uma xícara de chá entre as mãos, quando Adrian entrou. — Em que está pensando, princesa? — perguntou, encostando-se no batente da porta. Ela levantou o olhar, um pouco hesitante. — Na viagem… e nas coisas que precisamos — respondeu. Adrian se aproximou e sentou-se diante dela. — Precisamos? — Roupas — disse ela, direta. — Para mim, para Samuel… e para você também. Ele sorriu de leve. — Eu imaginei. — Eu não quero chegar lá… — ela parou, escolhendo as palavras. — Não quero que pensem que eu não me importo. Ou que você… — suspirou. — Você sabe. Adrian estendeu a mão e segurou a dela. — Lúcia, olha pra mim. Ela obedeceu. — Você nunca vai me envergonhar — disse ele, com firmeza. — Em lugar nenhum. Pelo contrário. Mas se isso vai te deixar mais tranquila, então vamos comprar o que você quiser. Ela respirou aliviada. — Então… podemos ir hoje? — Claro — respondeu ele, sem pensar duas vezes. — Na melhor loja de Formosura. Lúcia arregalou levemente os olhos. — Adrian… — Nada de “Adrian” nesse tom — ele riu. — Você merece o melhor. E eu faço questão de ir com você. Pouco depois do almoço, os três saíram. Samuel acomodado com cuidado na cadeirinha, Lúcia simples, mas elegante, e Adrian dirigindo com a tranquilidade de quem sabia exatamente onde queria chegar. A loja se destacava na rua principal de Formosura. Fachada ampla, vitrines bem iluminadas, manequins vestidos com roupas modernas e sofisticadas. Lúcia sentiu um leve aperto no peito ao entrar. O ar era perfumado, o piso brilhava, e uma vendedora logo se aproximou com um sorriso treinado. — Boa tarde. Em que posso ajudar? — Estamos procurando roupas — respondeu Adrian, antes que Lúcia pudesse dizer qualquer coisa. — Para ela, para o bebê… e talvez algo para mim também. A vendedora sorriu ainda mais. — Claro. Fiquem à vontade. Lúcia caminhava devagar entre as araras, passando os dedos pelos tecidos. Vestidos de corte delicado, blusas bem estruturadas, saias longas, conjuntos discretos e elegantes. Tudo parecia bonito demais para ela, mas ao mesmo tempo… possível. Adrian observava em silêncio, atento às reações dela. Quando via que ela hesitava diante de uma peça, ele apenas dizia: — Experimenta. — Adrian, é muito… — Experimenta — repetia, com calma. No provador, Lúcia se olhava no espelho com uma mistura de surpresa e emoção. As roupas caíam bem, valorizavam sem exagero, respeitavam quem ela era. Quando saía para mostrar a Adrian, ele sempre tinha o mesmo olhar: orgulho. — Você fica linda em tudo — dizia. — Mas essa… — apontou para um vestido azul-claro, de corte simples e elegante — essa é você. Ela sorriu, tocada. Para Samuel, escolheram bodies, conjuntinhos confortáveis, casaquinhos leves. Adrian fazia questão de conferir cada detalhe. — Não pode apertar — dizia. — E tem que ser fácil de tirar à noite. Lúcia observava aquilo com o coração aquecido. Ele não fingia ser pai. Ele era. Depois, foi a vez de Adrian experimentar algumas peças. Camisas sociais, mas confortáveis, calças bem cortadas, um paletó leve. Lúcia ficou sentada, observando-o sair do provador. — Eu nunca te vi assim — comentou. — Assim como? — Se deixando cuidar. Ele sorriu. — Acho que estou aprendendo. No caixa, Lúcia hesitou ao ver o valor. Automaticamente, levou a mão à bolsa. — Adrian… Ele apenas colocou o cartão sobre o balcão. — Sem culpa — disse, em voz baixa. — Isso é para nossa vida. Para o nosso bem. Ela assentiu, emocionada. Ao saírem da loja, o sol começava a descer no horizonte. Lúcia segurava as sacolas com cuidado, como se carregasse mais do que roupas — carregava segurança, pertencimento. — Obrigada — disse, enquanto caminhavam para o carro. — Pelo quê? — Por não me fazer sentir menor — respondeu. — Em nenhum momento. Adrian parou, virou-se para ela e segurou seu rosto com delicadeza. — Lúcia, você é minha esposa. A mãe do meu filho. E a mulher que eu escolhi para caminhar ao meu lado. Isso é tudo o que importa. Ela sorriu, com os olhos marejados. No caminho de volta, Samuel dormia tranquilo. Lúcia olhava pela janela, sentindo-se mais preparada — não apenas para a viagem, mas para o mundo que estava se abrindo diante dela. A capital ainda a assustava um pouco. Mas, ao lado de Adrian, ela sabia: não estaria sozinha.
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