Tudo em Ordem
Ramires tinha serviço desde cedo.
Era semana de conferir o depósito, ver o que ainda tinha em estoque, o que estava no fim e o que precisava ser encomendado fora. A fazenda era grande demais para improvisos. O que não se encontrava em Formosura precisava ser pedido com antecedência, e essa responsabilidade era dele.
Com a prancheta em mãos, caminhava entre os barracões, anotando tudo com atenção. Ração, ferramentas, peças de reposição, mantimentos. Tudo precisava estar em ordem para que a fazenda continuasse funcionando sem tropeços.
Ramires levava aquilo a sério.
Foi no meio dessa rotina que ouviu vozes alteradas vindas de um dos barracões. Parou, ergueu o olhar e seguiu na direção do barulho. Discussão em dia de trabalho nunca era bom sinal.
Quando chegou, encontrou Hugo, um dos funcionários mais antigos da fazenda, visivelmente nervoso. O rosto vermelho, os punhos cerrados. Do outro lado estava José, o novato, mais novo, tentando se explicar.
— O que está acontecendo aqui? — perguntou Ramires, com a voz firme.
Hugo virou-se na hora.
— Esse moleque se engraçou pro lado da minha filha — disse, sem esconder a raiva. — Eu não gostei.
O clima estava pesado. Alguns peões observavam de longe, atentos.
José respirou fundo e falou, olhando direto para Ramires:
— Eu gosto dela, Ramires.
Ramires desviou o olhar para Hugo, depois voltou-se para José. O silêncio que se fez foi curto, mas suficiente para impor respeito.
— Gostar não é problema — disse Ramires, com calma controlada. — Mas aqui tem que ter respeito.
Ele se aproximou um pouco mais de José.
— Se você gosta dela, peça permissão aos pais. Mostre que é direito. Que tem intenção séria.
Depois olhou em volta.
— Aqui não é bagunça. Não é lugar de desrespeito.
Virou-se novamente para os dois.
— A discussão acabou. Estamos entendidos?
Hugo assentiu, ainda respirando pesado. José fez que sim com a cabeça, visivelmente constrangido.
— Então vamos todos voltar pro serviço — concluiu Ramires.
Aos poucos, cada um seguiu para seu lado. O barracão voltou ao som do trabalho, como se nada tivesse acontecido. Ramires ficou ali por alguns segundos, observando, garantindo que a ordem tinha sido restabelecida.
Era assim que ele cuidava da fazenda.
Enquanto isso, na cidade de Formosura, Adrian estava em seu escritório.
Papéis sobre a mesa, telefone tocando, compromissos se acumulando. Havia trabalho, muito trabalho. Uma audiência importante ocupava boa parte de sua atenção naquele dia.
Ainda assim, de tempos em tempos, os pensamentos escapavam.
Iam até Lúcia.
O sorriso dela, a voz cantando, o jeito simples. Adrian balançava a cabeça, tentando se concentrar de novo. Nunca tinha sido assim. Nunca tinha deixado alguém ocupar tanto espaço sem fazer esforço algum.
Respirava fundo e voltava ao trabalho.
No fim do dia, Ramires voltou para casa com o sol já se pondo. O céu estava pintado de laranja e roxo, e o cansaço pesava no corpo, mas era um cansaço honesto.
Entrou pelo fundo, foi direto ao banheiro externo. Tirou o chapéu e o colocou sobre o banco. Então, tirou a lace do cabelo.
As madeixas compridas caíram como uma cascata sobre as costas. Ali, longe dos olhos da fazenda, Ramires deixava de sustentar o papel que o mundo exigia.
Tirou a roupa, sentindo o alívio imediato, e entrou no banho. A água escorria pelo corpo, levando consigo o peso do dia, o calor, a rigidez. Cada gota parecia devolver um pouco de quem ela realmente era.
Quando saiu, vestiu uma roupa confortável. Calça larga, camiseta simples. Nada que apertasse, nada que cobrasse postura.
Ali, ela era Lúcia.
Foi para a varanda com seu tereré. Sentou-se devagar, sentindo o vento da noite tocar o rosto. O radinho, apoiado na mesa, tocava uma moda boa, daquelas antigas, que falavam de saudade, de estrada e de amor quieto.
Lúcia fechou os olhos por um instante, apenas ouvindo.
Então o celular vibrou em cima da mesa.
Ela abriu os olhos e olhou. Pegou o aparelho simples, de botão, e leu a mensagem de texto.
Era de Adrian.
“Não poderei comparecer ao nosso tereré, pois tenho uma audiência hoje ainda.”
Lúcia releu a mensagem uma segunda vez.
Depois uma terceira.
Um sorriso pequeno, mas sincero, surgiu em seu rosto. Ele tinha lembrado. E, mais do que isso, tinha feito questão de avisar.
Não era obrigação.
Era cuidado.
Ela segurou o copo de tereré com mais força, sentindo um calor bom no peito. Não respondeu na hora. Apenas ficou ali, olhando para a tela apagada do celular, enquanto o rádio seguia tocando.
Pensou no dia, no trabalho feito, na discussão resolvida, na fazenda em ordem. Pensou em Adrian, ocupado na cidade, mas ainda assim lembrando dela.
O céu escurecia devagar.
Lúcia tomou um gole do tereré e deixou o sorriso permanecer.
Às vezes, pensou, não é a presença que mais importa.
É o gesto.
E naquele fim de dia simples, com o som do rádio, o vento leve e a mensagem curta, ela sentiu que algo estava sendo construído — sem pressa, sem promessa, mas com atenção.
Do jeito que ela gostava.
Tudo estava funcionando.
Na fazenda.
E dentro dela também.