Capítulo 86

1227 Words
Onde o Lar Começa Lúcia estava sentada no sofá da cobertura, Samuel dormia tranquilo no moisés ao lado, o sobe e desce leve do peito do bebê marcando o ritmo daquele silêncio bom. Pela janela, a cidade se estendia viva, barulhenta, cheia de movimento — tão diferente da fazenda onde crescera, mas, estranhamente, já não parecia um lugar estranho. Ainda tinham quatro dias ali. Quatro dias antes de voltarem para Formosura, para a rotina que começava a se desenhar com mais clareza a cada dia. Lúcia pensava nisso enquanto observava a cozinha ampla, moderna, com armários claros e uma ilha de mármore que parecia pedir mãos trabalhando, panelas no fogo, cheiro de comida feita com calma. Ela queria cozinhar. Não por obrigação, não por papel imposto, mas porque aquilo, para ela, sempre fora uma forma de cuidar. Na fazenda, cozinhar era amor em silêncio, era presença, era acolhimento. E ali, naquela cobertura que logo seria o lar deles, ela sentia vontade de fazer o mesmo. Adrian surgiu do quarto, ajeitando o relógio no pulso. Já estava pronto para sair, mas parou ao perceber o olhar distante de Lúcia. — Está pensando em quê, princesa? — perguntou, aproximando-se. Ela olhou para ele devagar, como quem escolhe as palavras com cuidado. — Ainda temos quatro dias aqui… — começou. — Precisamos fazer compras de alimentos. A despensa está quase vazia. Adrian sorriu de leve. — Eu sei. Já pensei nisso também. Depois, quando voltarmos, compramos o que faltar para a casa da fazenda. Ela respirou fundo, sentindo o coração apertar de um jeito bom. — Eu queria cozinhar, Adrian. Ele a observou com atenção. Não havia cobrança no tom dela, nem ansiedade. Era um desejo simples, quase tímido. — Cozinhar… aqui? — perguntou. — Aqui — respondeu. — Porque… — ela hesitou, depois continuou — porque isso aqui logo vai ser o nosso lar também. E eu queria sentir isso. Adrian ficou em silêncio por alguns segundos. Aproximou-se mais, apoiou as mãos no encosto do sofá e abaixou-se um pouco para ficar na altura dela. — Lúcia — disse com voz firme e doce ao mesmo tempo —, onde você estiver comigo, é lar. Mas se você quer cozinhar aqui, então essa casa vai ter cheiro de comida feita por você. E isso… — ele sorriu — é tudo o que eu quero. Ela sentiu os olhos marejarem. — Então vamos ao mercado? — perguntou, tentando disfarçar a emoção. — Vamos — respondeu ele, sem hesitar. — Mas com calma. Samuel primeiro. Enquanto Lúcia arrumava o bebê, Adrian foi buscar as chaves e verificar o carro. Ele voltou alguns minutos depois e encontrou Lúcia falando baixinho com Samuel, como se explicasse cada movimento. — Vamos comprar comida, meu amor — dizia ela. — Mamãe vai cozinhar pra você crescer forte. Adrian encostou-se à porta e ficou observando. Ainda se surpreendia com a naturalidade com que Lúcia assumira aquele papel. Não havia medo, não havia dúvida. Apenas cuidado. No caminho até o mercado, Lúcia observava tudo com atenção. Não era apenas uma ida às compras; era um gesto simbólico, mesmo que ela não dissesse isso em voz alta. Comprar alimentos significava planejar dias, refeições, rotina. Significava pensar no amanhã. — O que você gosta de comer? — perguntou ela, quebrando o silêncio. Adrian riu. — Eu como de tudo. Cresci comendo o que tinha, você sabe. — Mas deve ter algo que você gosta mais. Ele pensou um pouco. — Gosto de comida simples. Arroz, feijão, carne bem feita… pão fresco de manhã. Coisas assim. Ela sorriu, satisfeita. — Então estamos de acordo. O mercado era grande, bem organizado, diferente dos armazéns da cidade pequena. Lúcia empurrou o carrinho devagar, Samuel dormindo no bebê-conforto encaixado à frente. Adrian caminhava ao lado, atento, mas deixando que ela conduzisse. — Vamos começar pelo básico — disse ela. — Arroz, feijão, farinha, óleo… — Está parecendo minha mãe falando — comentou Adrian, divertido. — Sua mãe entende de casa — respondeu Lúcia, séria. — E eu quero aprender com quem sabe. Eles passaram pelos corredores com calma. Lúcia pegava os produtos com cuidado, lia rótulos, pensava nas refeições. Adrian observava cada gesto, percebendo que ali havia mais do que compras: havia pertencimento. — Princesa — disse ele em certo momento —, você sabe que não precisa se preocupar com isso sozinha, né? Ela assentiu. — Eu sei. Mas eu quero. Não por obrigação… por escolha. Ele não disse nada, apenas passou o braço em volta dos ombros dela por um instante. No corredor de hortifruti, Lúcia se demorou mais. Escolheu legumes, verduras, frutas. Pegou abacates e sorriu sozinha. — Chocolate também? — perguntou Adrian, lembrando do desejo estranho dela meses antes. Ela riu. — Dessa vez não é desejo de grávida falsa — respondeu. — É só gosto mesmo. No caixa, enquanto Adrian pagava, Lúcia organizava as compras com cuidado, como se cada item tivesse um lugar certo. Ao sair, ela respirou fundo, sentindo uma satisfação simples e profunda. — Obrigada por isso — disse ela, já no carro. — Pelo quê? — Por me deixar fazer parte — respondeu. Adrian virou-se para ela, sério. — Lúcia, você não faz parte. Você é parte. De volta à cobertura, Lúcia começou a guardar as compras. Abriu armários, organizou prateleiras, colocou os mantimentos no lugar. Adrian ficou por perto, cuidando de Samuel, observando. — Nunca pensei que ver alguém arrumando despensa fosse tão… — ele procurou a palavra — reconfortante. Ela riu. — É porque agora você sabe que tem comida em casa. — Não é só isso — respondeu. — É porque tem alguém cuidando desse espaço como se fosse nosso. Ela parou por um instante, apoiando as mãos no balcão. — Adrian… — disse com voz baixa — eu sei que sua vida é aqui, que seu trabalho é aqui. E eu sei que a fazenda é parte de mim. Mas eu quero tentar. Quero aprender a viver aqui também. Ele se aproximou devagar. — Um passo de cada vez — disse. — A gente não precisa decidir tudo agora. — Eu sei. Mas cozinhar aqui… — ela sorriu — é meu primeiro passo. Mais tarde, Lúcia começou a preparar o almoço. Algo simples: arroz, feijão, frango refogado, salada. O cheiro começou a se espalhar pela cobertura, quebrando o ar neutro daquele lugar sofisticado. Adrian sentou-se à mesa, Samuel no colo, observando tudo. — Se alguém me dissesse que um dia essa casa ia ter cheiro de comida feita em casa… — comentou — eu não acreditaria. — E agora? — perguntou Lúcia, mexendo a panela. — Agora eu não quero outra coisa. Quando se sentaram para comer, Lúcia observou Adrian provar a comida. Ele mastigou devagar, depois levantou os olhos para ela. — Está perfeita. Ela sorriu, aliviada. — É só comida simples. — Não — respondeu ele. — É cuidado. E isso não tem preço. Samuel dormia novamente quando terminaram. Lúcia recolheu os pratos, lavou a louça com calma, sentindo-se estranhamente em paz. Ao final, apoiou-se no balcão e olhou em volta. Ainda havia quatro dias ali. Ainda havia compras a fazer, decisões a tomar, caminhos a escolher. Mas, naquele momento, ela tinha certeza de uma coisa: onde havia amor, escolha e cuidado, ali começava um lar. E Adrian, ao observá-la em silêncio, soube que aquela certeza era mútua.
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