Às Vésperas do Amanhã
A estrada de volta para Formosura parecia mais curta do que nunca. Talvez fosse a ansiedade pelo aniversário que se aproximava, talvez fosse a sensação de que algo importante estava prestes a mudar. Lúcia observava a paisagem pela janela do carro, os campos se abrindo diante deles como páginas já conhecidas de um livro que ela amava reler.
— Adrian… — disse de repente, virando o rosto para ele. — Convida o Hugo para ir à festa.
Adrian soltou uma risada baixa, sem tirar os olhos da estrada.
— Hugo? Em Formosura? Princesa, isso seria um milagre. — Ele fez uma pausa divertida. — Quem sabe ele não encontra alguém por lá e muda de vida de vez.
Lúcia sorriu, gostando da ideia.
— Nunca se sabe. — Depois, o sorriso dela suavizou. — Você pensava em se casar quando veio para cá, da primeira vez?
Adrian respirou fundo. Aquela pergunta o levou para um lugar distante, um tempo em que ele ainda não sabia exatamente quem era.
— Nunca — respondeu com sinceridade. — Naquele tempo eu estava perdido. Vivendo por viver. — Ele virou o rosto rapidamente para ela, com um olhar carregado de sentimento. — Até você me achar.
Lúcia sentiu o coração apertar de um jeito bom. Apoiou a mão no braço dele.
— Então… pode acontecer com qualquer um.
— Pode — concordou ele, sorrindo.
Chegaram à casa em Formosura no fim da tarde. A luz dourada do sol tocava o telhado, as janelas, o jardim ainda simples, mas cheio de promessas. Diana veio correndo assim que ouviu o barulho do carro, abanando o r**o com alegria. Lúcia se abaixou para abraçá-la, sentindo aquele conforto familiar.
— O pai passou aqui todos os dias — comentou Adrian. — Água, comida… Seu Raul não esqueceu dela.
— Eu sabia — respondeu Lúcia, com um sorriso cheio de carinho.
A casa era nova para os dois como casal, mesmo já sendo oficialmente deles. Cada cômodo ainda estava ganhando identidade, cada detalhe carregava a sensação de começo. Mas, apesar disso, havia algo antigo e sólido ali: o respeito entre eles.
Quando a noite caiu, Lúcia ficou mais quieta. Adrian percebeu.
— Está tudo bem? — perguntou, enquanto fechava as janelas.
Ela hesitou por um instante antes de responder.
— Estou… só um pouco nervosa.
Ele se aproximou devagar, como sempre fazia, sem invadir o espaço dela.
— Por causa da festa?
Ela balançou a cabeça.
— Por causa… depois da festa.
Adrian entendeu imediatamente. Não precisou de explicações longas. Ele conhecia Lúcia o suficiente para ler o que ela não dizia.
— Princesa… — disse com voz calma. — Nada muda se você não quiser. A gente dorme em quartos separados, como sempre. Não existe obrigação entre nós.
Ela respirou aliviada, mas ainda assim falou, com o coração aberto:
— Eu tenho medo. Não de você… nunca de você. Mas é tudo novo. E é importante pra mim.
Adrian tocou o rosto dela com cuidado, o polegar fazendo um carinho leve na bochecha.
— Eu sei. — Ele sorriu, aquele sorriso tranquilo que sempre a acalmava. — E é importante pra mim também. Eu prometi que só iria acontecer depois do seu aniversário de dezoito anos, e eu vou cumprir. Porque te amar também é saber esperar.
Lúcia sentiu os olhos marejarem. Encostou a testa na dele.
— Obrigada.
— Não me agradeça — respondeu ele em um sussurro. — Isso não é sacrifício. É escolha.
Eles seguiram para seus quartos naquela noite, como vinham fazendo desde o casamento. Mas, mesmo separados por uma parede, ambos demoraram a dormir.
No quarto dele, Adrian se sentou na cama, passando a mão pelo rosto. O desejo estava ali — intenso, vivo — como nunca fora antes. Não era apenas físico. Era o jeito de Lúcia, o cheiro dela depois do banho, a forma como sua voz ficava mais baixa quando estava nervosa, os suspiros involuntários quando os beijos se tornavam mais demorados.
Nada se comparava às aventuras que ele tivera antes dela. Nada.
Porque com Lúcia havia sentimento, cuidado, profundidade. E isso tornava tudo mais forte.
No quarto ao lado, Lúcia se deitou abraçando o travesseiro. O coração batia rápido. Ela pensava no aniversário, no que viria depois, no medo e na curiosidade caminhando lado a lado. Pensava no toque dele — sempre respeitoso — e em como, mesmo assim, conseguia deixá-la completamente sem chão.
Ela sabia que ainda era virgem. Sabia que aquele passo seria único. E, acima de tudo, sabia que Adrian jamais a apressaria.
E isso fazia toda a diferença.
A noite passou devagar, como se o tempo também estivesse respeitando aquele momento de espera.
O aniversário estava próximo.
E com ele, não apenas a celebração de mais um ano de vida, mas a certeza de que o amor dos dois não era feito de pressa — e sim de escolha, cuidado e entrega no tempo certo.