Capítulo 90

1092 Words
Cordas que Guardam Promessas O aniversário de Lúcia se aproximava como um segredo bem guardado no coração de Adrian. Ele fingia normalidade, cumpria a rotina, conversava sobre coisas simples, mas por dentro estava em contagem regressiva. Não era apenas a data em si — era tudo o que ela representava: o tempo, a espera, o respeito, o amor que havia crescido com cuidado. Naquela manhã, Adrian saiu cedo dizendo que tinha compromissos no escritório. Lúcia acreditou, como sempre. O que ela não sabia era que ele havia passado antes por uma loja de instrumentos musicais na cidade vizinha, uma daquelas antigas, com cheiro de madeira e som de cordas dedilhadas no ar. O vendedor colocou alguns violões sobre o balcão. — É para iniciante ou para quem já toca? — perguntou. Adrian sorriu de leve. — Para alguém que toca com a alma — respondeu. — E canta como quem conta uma história. Ele lembrava perfeitamente da noite do próprio aniversário. Lúcia no palco improvisado, o violão simples nas mãos, a voz firme apesar do nervosismo. Ela havia cantado para ele como se não existisse mais ninguém no mundo. Cada música parecia um pedaço dela oferecido de presente. Foi ali que ele soube que nunca mais esqueceria aquela voz. Escolheu o violão com cuidado. Madeira clara, som encorpado, delicado e forte ao mesmo tempo — como ela. Pediu que gravassem discretamente, na parte interna: “Para Lúcia, que canta o que o coração sente.” Quando saiu da loja, sentiu uma alegria silenciosa. Não era um presente caro apenas pelo valor — era pelo significado. Enquanto isso, em Formosura, Lúcia seguia sua rotina. Depois de deixar Samuel dormindo, ela foi até a padaria da esquina comprar pão fresco. Foi ali que, nas últimas semanas, acabou criando amizade com Margarida. Margarida tinha 22 anos, mãos sempre cobertas de farinha e um sorriso cansado, mas sincero. Trabalhava desde cedo, ajudava a família e sonhava em um dia abrir a própria confeitaria. — Bom dia, Lúcia — disse ela, já separando os pães que sabia que Lúcia gostava. — Como está o pequeno Samuel? — Dormindo como um anjo — respondeu Lúcia, sorrindo. — E você? Dormiu alguma coisa? Margarida riu. — Dormir é luxo. Mas a gente vai levando. Elas começaram a conversar com mais frequência. Margarida admirava Lúcia — não pelo dinheiro do marido, como muitos pensavam, mas pela postura, pela simplicidade, pela forma como cuidava do filho e ainda assim encontrava tempo para ouvir os outros. — Você é diferente — disse Margarida certa vez, enquanto colocava os pães no saco. — A maioria das mulheres que casam com homens como o Adrian mudam. Você não. Lúcia ficou um pouco sem jeito. — Eu só continuo sendo quem sempre fui. — Pois continue — respondeu Margarida. — O mundo precisa disso. A amizade das duas crescia de forma leve, sem interesses escondidos. Margarida não sabia de todos os segredos de Lúcia — da barriga falsa, do acordo com Sandrinha, de tudo que havia sido feito para proteger Samuel. Mas sentia que havia ali uma mulher forte, que carregava mais do que aparentava. Naquela tarde, Lúcia voltou para casa pensando no aniversário. Sandrinha havia ligado mais cedo, desejando felicidades, dizendo que estava bem, viajando, vivendo a vida que sempre quis. Lúcia desligou com o coração dividido — feliz por Samuel estar com ela, mas ainda tocada pela história que os unia. Quando Adrian chegou em casa, no fim do dia, encontrou Lúcia sentada no tapete da sala, Samuel brincando ao lado. — Boa noite, princesa — disse ele, inclinando-se para beijar a testa dela. — Boa noite — respondeu ela, sorrindo. — Trabalhou muito? — O suficiente — respondeu, escondendo o sorriso de quem guardava um segredo. Mais tarde, enquanto jantavam, Adrian comentou casualmente: — Convidei o Hugo para a festa. Lúcia ergueu as sobrancelhas, surpresa. — Sério? Ele vem mesmo? — Ficou surpreso com o convite — Adrian riu. — Mas disse que vem. Acho que está curioso para ver de perto a cidade que “me roubou do mundo”. — Vai ser bom — disse Lúcia. — Quem sabe ele não se apaixona também. — Se acontecer, eu não me responsabilizo — respondeu Adrian, divertido. Nos dias seguintes, a casa entrou em clima de expectativa. Dona Margarete ligava todos os dias perguntando se estava tudo pronto. Dona Alice ajudava com detalhes simples, mas cheios de carinho. Seu Raul fingia não se importar, mas Lúcia sabia que ele contava os dias para ver a filha completar dezoito anos. Na véspera do aniversário, Adrian quase não dormiu. O violão estava escondido no escritório, embrulhado com cuidado. Ele imaginava o rosto de Lúcia ao abrir o presente, os olhos cor de mel se iluminando, a emoção contida. Na manhã do grande dia, Lúcia acordou com o som de passarinhos na janela e Samuel resmungando no berço. Pegou-o no colo e ficou alguns minutos observando o rosto sereno do filho. Sentia-se estranhamente completa. Quando saiu do quarto, encontrou Adrian na cozinha. — Bom dia — disse ele, com um sorriso diferente, mais intenso. — Bom dia — respondeu ela, desconfiada. — Por que você está assim? — Assim como? — Feliz demais. Ele se aproximou, pegou a mão dela e beijou com delicadeza. — Porque hoje você faz dezoito anos. Lúcia respirou fundo. Aquela frase carregava muito mais do que parecia. Ao longo do dia, a casa se encheu de gente. Hugo chegou no começo da tarde, olhando tudo com curiosidade. — Agora eu entendo — disse ele a Adrian, em voz baixa. — Esse lugar… e ela. Adrian apenas sorriu. Quando a noite caiu e todos estavam reunidos, Adrian pediu atenção. Lúcia estava sentada no sofá, Samuel dormindo no colo de Dona Margarete. — Eu tenho um presente — disse Adrian, olhando diretamente para ela. — Não é só meu. É nosso. Ele trouxe o violão. Lúcia levou a mão à boca, os olhos se enchendo de lágrimas. — Adrian… — Quero ouvir você cantar — completou ele. — Sempre. Quando quiser. Quando precisar. Ela abraçou o violão como se fosse um tesouro. — Eu vou — disse, com a voz embargada. — Vou cantar pra você. E ali, no meio da sala, entre família, amigos e promessas silenciosas, Lúcia dedilhou as cordas pela primeira vez no violão novo. A música saiu suave, verdadeira. Adrian a observava como quem sabia: aquele som o acompanharia por toda a vida. E, naquele instante, ele teve certeza absoluta de que havia escolhido o caminho certo.
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