A Cidade Observa, o Amor Caminha
Os dias passavam rápidos, como um cavalo em disparada pelo campo aberto. Quando Lúcia percebia, já era fim de mês outra vez, e com ele vinha a rotina que ela conhecia bem: a prova da escola, as atividades acumuladas, os cadernos organizados com cuidado. Estudar nunca foi um peso para ela, mas exigia disciplina, ainda mais conciliando com a lida da fazenda e as responsabilidades que carregava desde cedo.
Naquela manhã, o sol ainda nem tinha se firmado no céu quando Lúcia terminou de arrumar a bolsa. Conferiu tudo duas vezes: documentos, provas, atividades prontas. Respirou fundo.
Ramires ficaria na fazenda naquele dia. Era assim que funcionava. Quando Lúcia ia para a cidade, era Lúcia. Mais reservada, mais discreta, quase invisível aos olhos curiosos. Ramires ficava no campo, nos cavalos, na poeira e no silêncio que ela dominava com firmeza.
Adrian apareceu cedo, como tinha prometido. Estacionou o carro em frente à casa e desceu sorrindo quando a viu sair.
— Pronta, estudante? — brincou.
— Pronta — respondeu ela, retribuindo o sorriso.
Dona Alice apareceu na porta, observando os dois com aquele olhar atento de mãe que enxerga mais do que se diz.
— Boa sorte na prova, minha filha — disse. — E juízo vocês dois.
— Sempre, mãe — respondeu Lúcia.
Adrian cumprimentou Dona Alice com respeito, abriu a porta do carro para Lúcia e seguiu para o lado do motorista. Enquanto dirigiam rumo à cidade, o clima era tranquilo. Conversavam sobre coisas simples, mas havia uma expectativa no ar.
— Depois da prova, a gente almoça junto — disse Adrian. — Pensei naquele restaurante perto da praça.
Lúcia hesitou por um instante.
— Adrian… você sabe como é a cidade — falou com cuidado. — O povo olha, comenta.
Ele a olhou rapidamente, sem tirar os olhos da estrada por muito tempo.
— Eu sei — respondeu. — Mas eu quero estar com você. Não escondido. Do jeito certo.
Ela assentiu, mesmo ainda sentindo aquele aperto familiar no peito. Cidade pequena tinha memória longa e língua afiada. Todo mundo conhecia todo mundo. E conheciam Adrian. O advogado bem-sucedido, rico, educado, cobiçado. Não faltavam mulheres que o olhavam diferente quando ele aparecia.
Lúcia sabia disso. Não por insegurança, mas por realidade.
Quando chegaram à escola, Adrian estacionou e desceu com ela.
— Boa prova — disse, segurando a mão dela por um instante. — Estarei aqui quando você sair.
— Obrigada — respondeu, apertando de leve a mão dele antes de se afastar.
Enquanto Lúcia fazia a prova, Adrian ficou no carro por um tempo, depois resolveu caminhar um pouco pela cidade. Era inevitável: cumprimentos aqui, olhares ali, comentários sussurrados quando ele passava. Ele já estava acostumado, mas naquele dia tudo parecia diferente.
Ele entrou em uma loja, depois em outra, procurando algo para Lúcia. Queria um presente simples, mas significativo. Algo que fosse só dela, que respeitasse quem ela era.
Acabou escolhendo um colar discreto, delicado, nada chamativo. Pensou que combinaria com ela, que não gostava de exageros. Pediu para embrulhar com cuidado.
Quando Lúcia saiu da escola, viu Adrian encostado no carro, conversando com um conhecido. Ele sorriu assim que a viu.
— E aí? — perguntou. — Como foi?
— Foi bem — respondeu, aliviada. — Acho que me saí bem.
— Eu sabia — disse orgulhoso.
Ela percebeu alguns olhares curiosos ao redor. Duas mulheres paradas do outro lado da rua cochichavam, olhando claramente para Adrian. Lúcia sentiu o desconforto, mas manteve a postura.
— Vamos almoçar? — perguntou ele.
— Vamos.
No restaurante, escolheram uma mesa mais reservada. Ainda assim, não passaram despercebidos. O garçom reconheceu Adrian, sorriu demais, falou mais do que o necessário. Lúcia observava tudo em silêncio.
— Está tudo bem? — perguntou Adrian, percebendo.
— Está — respondeu. — Só estou me adaptando.
Ele estendeu a mão sobre a mesa, tocando a dela com cuidado.
— Não precisa se sentir menor aqui — disse. — Você é minha namorada. E isso não é pouca coisa.
Ela respirou fundo, sentindo o peso e o carinho daquelas palavras.
— Eu sei — disse. — Só não estou acostumada com esse tipo de atenção.
Depois do almoço, Adrian a convidou para andar um pouco pela cidade.
— Quero te mostrar uma coisa — disse.
Entraram em uma pequena loja de artesanato e joias simples. Lúcia olhava tudo com curiosidade, mas sem intenção de comprar nada.
— Fecha os olhos — pediu ele de repente.
— Adrian… — ela riu, desconfiada.
— Confia em mim.
Ela fechou os olhos. Sentiu algo frio tocar seu pescoço, depois as mãos dele ajeitando com cuidado.
— Pode abrir.
Lúcia levou a mão ao colo e viu o colar. Simples. Lindo. Do jeito dela.
— Adrian… — a voz saiu baixa. — É lindo.
— É pra você — disse. — Não para te mudar. Só para te lembrar que você pode estar comigo em qualquer lugar.
Ela engoliu em seco, emocionada.
— Obrigada — disse. — De verdade.
Quando saíram da loja, alguns olhares novamente se voltaram para eles. Lúcia sentiu, mas dessa vez caminhou um pouco mais ereta. Adrian percebeu e sorriu discretamente.
— Sabe — ela disse enquanto caminhavam —, na cidade eu sou Lúcia. Reservada. Observada. No campo eu sou Ramires. Livre.
— E comigo? — perguntou ele.
Ela parou por um instante, olhou nos olhos dele.
— Com você eu posso ser as duas coisas.
Ele sorriu, sincero.
— Então está tudo certo.
Voltaram para o carro. No caminho de volta à fazenda, Lúcia olhava a paisagem passando pela janela, sentindo o colar em seu pescoço, o peso bom de um sentimento que crescia com cuidado.
A cidade falava. Sempre falaria.
Mas, naquele dia, Lúcia entendeu que não precisava se esconder nem se explicar. O amor que construía com Adrian caminhava firme, mesmo sob olhares curiosos, mesmo entre comentários e expectativas alheias.
E isso, para ela, já era uma grande vitória.