6- Jogo de Intenções

765 Words
RD O JV não dá ponto sem nó. Quando ele falou da loira no galpão, o tom não era de quem queria um esquema, era de quem tava sentindo cheiro de problema. E se o "Dono" manda, a gente executa. O problema é que a minha fonte é a Dayane, e falar com ela nunca foi só trabalho pra mim. Eu tava na contenção perto da casa dela, girando o anel no dedo. Ver a Dayane é sempre um soco no estômago, mas eu disfarço bem. Ela é esperta, cria do morro, e se eu chegasse perguntando da irmã dela direto, ela ia sacar na hora. — Coé, Day. — Encostei no muro quando ela saiu pra estender as roupas. — A ladeira tá movimentada hoje, né? Vi que tua irmã tá na área. Veio pra ficar ou só de passagem? Dayane me deu aquele olhar de quem conhece todas as minhas gírias. Ela sorriu de canto, mas tinha um bloqueio ali. — Veio pra recomeçar, RD. Coisa de família. Ela é do teatro, quer paz. — Teatro, é? — Forcei um riso, lembrando do que o JV falou sobre o "escaner" da loira. — Estilo de vida artístico é f**a. Mas e aí, ela trabalhava com o quê lá em SP? Pra ter vindo assim, do nada... Dayane parou com o pregador na mão. O silêncio dela durou um segundo a mais do que o normal. — Coisa de escritório, RD. Nada que interesse a "firma", se é isso que você quer saber. Ela tá aqui por mim, e eu tô por ela. O papo é esse. Ela voltou pro serviço, mas o jeito que ela desviou o olho entregou o jogo. A Dayane sabe que eu tenho uma queda por ela, e acho que ela usa isso pra me dar um perdido. Ela não soltou um "A", mas o nervosismo dela confirmou o que o JV suspeitava: a Alana tá escondendo o ouro. JV O RD tem o coração mole quando o assunto é a Dayane, e isso é o maior ponto cego dele. Ele subiu para a "missão" achando que ia voltar com o mapa da mina, mas voltou apenas com o que ela quis entregar. Eu estava no escritório, analisando o fluxo de caixa da semana, quando ele entrou com aquele jeito de quem tinha novidade, mas o brilho no olho era de quem tinha acabado de ganhar um sorriso da morena, não uma informação de valor. — Visão, JV. Desenrolei com a Day — ele começou, encostando na porta. — O papo é reto: a loira veio pra recomeçar. Disse que ela trabalhava em escritório lá em SP, coisa de administração, papelada. Tá querendo paz pra focar no teatro dela. A Dayane garantiu que ela não quer saber de firma, nem de confusão. Eu parei a caneta sobre o papel. Olhei para o RD e vi que ele realmente acreditava no que estava dizendo. Para ele, "escritório" e "teatro" eram respostas suficientes. Para mim, eram peças de um quebra-cabeça que não se encaixavam. — Escritório, RD? — Dei um sorriso seco, sarcástico, sentindo a pulga atrás da orelha virar um elefante. — Em São Paulo, até quem limpa o servidor diz que trabalha em escritório. — Qual foi, JV? A Dayane não ia mentir pra mim — ele rebateu, girando o anel, meio incomodado. — Ela não mentiu, mané. Ela só omitiu o que a irmã mandou ela esconder. Balancei a cabeça, dispensando ele com um aceno. Assim que fiquei sozinho, encostei na cadeira e encarei o teto. Escritório. Administração. Olhar de quem lê sistema operacional. Teatro. O sarcasmo brotou espontâneo. "Teatro", eu pensei. Se aquela loira é atriz, eu sou o Papa. Ninguém que trabalha com "papelada" em escritório tem aquele olhar de quem está calculando o tempo de resposta de uma abordagem. Aquilo ali é treino. É tecnologia. É inteligência. — Escritório de cibernética, no mínimo — murmurei sozinho, soltando uma risada curta e sem humor. Se ela entende de sistema, ela é a peça mais valiosa e, ao mesmo tempo, a mais perigosa que já pisou nesse morro. Alana não veio para o Vidigal para ser figurante. Ela veio com uma bagagem que pode ser a minha maior aliada ou o meu pior pesadelo se cair em mãos erradas. A Dayane acha que está protegendo a irmã, mas m*l sabe ela que, no meu jogo, o que a gente esconde é exatamente o que vira moeda de troca. — Vamos ver quanto tempo tu aguenta atuar, Alana — falei baixo, sentindo o jogo ficar interessante de verdade.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD