Faça Um Desejo

1244 Words
Quinta.07:45 A.M. O começo das gravações dos episódios 09 e 10 começariam no sábado. Passei minhas míseras falas já dentro do carro a caminho de Milledgeville. Não deu para ter a companhia de Andrew, ele tinha um compromisso familiar. Isso me fez lembrar que preciso visitar minha mãe. A senhora Nova York estava em uma viagem de se invejar com o seu novo namorado que tem a minha idade. O filho da p**a do David me liga. Mesmo não querendo, atendo. "Fiquei sabendo que você está indo atrás da garotinha." Ele disse num tom sarcástico. "Bom dia, meu diretor. Tudo bem?" Revidei amoroso. "Espero que consiga o acordo. Amacia a criança, se é que me entende." "Vai se f***r, David." "Estou falando de dinheiro. Mil dólares e a garota desmente tudo. Escuta o tio, a voz da experiência. Cinquenta e dois anos de muita experiência." "Não preciso disso. Sou um homem justo." Falei, mas tive que rir de mim mesmo. "Quando você se f***r, eu estarei lá, te assistindo da primeira fileira. É sério, faz o que eu tô falando, Jasper. Não seja burro, cara." "Tenha um bom dia, diretor." "f**a-se." Mais de uma hora depois, a voz robótica do GPS continuava a indicar o caminho. Eu falava em voz alta repetidamente o diálogo final do episódio 10. Vire à esquerda na Mitchell St SW. Continue para Capitol Av. SW. Vire à direita na Capitol Av. SW. Decatur — Macon Greenville. Cruzamento na US – 129 S/ US — 144. Três milhas, uma transversal, 1º direita na N Clarck St. A última esquerda na E Hancock St. E só então chegamos ao colégio de Robin. Virei um GPS ambulante. — Posso ajudar? — uma das funcionárias da secretaria do campus gigantesco veio me recepcionar com um sorriso gigante no rosto. Olhou para os meus sapatos, para minha camisa social, para as minhas orelhas? Sorriu. Deve ter uns... Quarenta anos. Sendo muito otimista. Mesmo. — Hã... Na verdade, pode. Pode muito. A escola é simplesmente f**a. A mulher me acompanha pelo campus até um lugar que preciso ir, mas não sei a verdadeira razão. No centro de tudo, há um logo da mascote do time, circular. GEORGIA COLLEGE & STATE UNIVERSITY — 1889. (Desenho de um rosto de gato gigante e irado). (Quase certeza de que seja um gato). O chão laranja. Há alunos e enfeites de Halloween por toda parte. E árvores. Prédios laranja, com uma estrutura clássico-moderna. Há vários caminhos se seguir. Passo por um mapa gigante e percebo que eu me perderia facilmente dentro do Georgia College em poucos segundos. Passamos por um corredor e saímos para outro lado, ainda mais bonito. Mais árvores, mais calouros e veteranos. Alguns parecem me reconhecer, fazendo cara de surpreso. Tendas com trabalhos escolares enfeitam a segunda parte do campus. No centro, uma pequena fonte. A secretária me apresenta. — Essa é a "Faça-um-desejo". — ela disse animada quando passamos bem próximo. — Aqueles são os prédios de Ciência. — ela apontou para a direita. — E aquele o de Artes. — e virou-se para a esquerda. As moedas brilhavam ao fundo da água clara. Fiquei imaginando os tipos de desejos que foram feitos para cada moeda jogada ali enquanto seguíamos em frente. Com base na minha experiência de faculdade, o básico seria: "Preciso tirar B, mas não estudei." "t*****r com Stacy nesse fim de semana." "Que o filho da p**a do professor de Legislação morra." A funcionária simpática me deixou em uma sala de espera para falar com o diretor do colégio. Para falar com uma menor de idade eu precisava do aval do mesmo. "Ou até mesmo dos pais" — como a funcionária me explicou. Tempo depois, o tal diretor apareceu e seguimos para sua sala. Meio velho, mais ou menos a mesma idade de David, acho. Cabelos grisalhos, barba meio falha e personalidade forte. Curto e grosso, por assim dizer. — Eu não quero perder a viagem, diretor. São quase duas horas de New Briston até aqui. — Se o senhor quiser, eu ligo para os pais da Robin. Não garanto nada. O diretor já sabia de toda a história, então, não me prolonguei muito em explicações detalhadas. — Eu espero o tempo que for. Ela saiu três, certo? — Três e quarenta e cinco. — Espero. Se os pais delas quiserem vir também. Seria ótimo. — E o senhor ainda tem duvida de que eles virão? — o velho sorriu. — Claro que vem. — disse, revirando os olhos apenas em minha mente. Por fora, mantive a pose. Sorriso atrás de sorriso. — Vou pedir que Janel venha aqui para lhe buscar. Você fica lá do outro lado esperando. Contatarei os pais de Robin. Logo depois, mando a informação até você. — Janel? — A funcionária que o trouxe aqui. — Ah, sim. — Ótimo. — e levantou-se da sua cadeira gigantesca. Janel me pergunta, oferecida e simpática, se eu não quero um tour pela escola, mas recuso. Pergunto se não há um local para refeição. Ela acena que sim e me leva até um Subway dentro do próprio campus. No caminho, um grupo de adolescentes vinha em minha direção até que Janel fez um sinal com a mãe para que parassem, mesmo de longe. As garotas fecharam o rosto e esperaram que déssemos as costas para que levantassem seus dedos-do-meio para a secretária. Olhei para trás, para as meninas, sorri. Pisquei. Mandei um beijo rápido com as mãos. — Não dê confiança para elas. — Janel resmungou quando me viu acenando para o grupo. — São apenas fãs. — Aqui, estudantes. Está proibido de abusar o seu estrelismo aqui, senhor Stanford. — Achei que gostasse de mim. — semicerrei os olhos. — Gosto muito. Amo a série. — ela sorriu de lado, olhando para frente. — Mas a minha supervisora está vindo em nossa direção agora mesmo. — ela baixou o tom de voz. — A senhora é uma graça, Janel. — ri de leve. — Depois tiramos uma foto. — Senhora não. — ela levantou a sobrancelha direita. — Senhorita, senhora Stanford. Muito bem solteira. A supervisora passou e nós acenamos. Janel combinou de voltar ao Subway em trinta minutos. Passei pelas portas duras e pretas da restaurante, encarei a fila de dois alunos. Ainda estava longe da hora do almoço, é claro. 15 cm. Pão. Cheddar. Bacon crocante. Frango. Alface, tomate, cebola, pimentão verde. (Escrevi tudo pausadamente para que você imagine bem cada ingrediente e sinta inveja desse momento delicioso). Sentei-me em uma das mesas e conferi as notícias do dia em meu celular. Na segunda mordida do meu delicioso Chicken & Bacon Ranch Melt, descobri que meu nome voltara aos trends no Twitter. "JASPERSTANFORDATGEORGIACOLLEGE" Quarto do lugar da lista. Pelos tweets, alunos perguntavam se era verdade, já outros, diziam que era mentira. A @Catherine7B postou uma foto minha, de longe, caminhando ao lado da senhorita Janel próximo ao Faça-um-desejo. "É verdade, pessoal" — a legenda dizia. — Jasper Stanford? — um homem interrompeu o meu divertimento ao chegar a minha mesa de supetão. Parecia ser o gerente do lugar. — Sim? — perguntei, sorrindo. Eu realmente esperava que ele me pedisse uma foto. — Sou o pai de Robin. Soube que está procurando minha filha. Olhei para o Chicken & Bacon. Pai de Robin. Twitter. A mulher que preparou meu sanduíche. Para o próprio sanduíche. Pai de Robin. Respirei fundo e larguei o Pão/Cheddar/Bacon Crocante/ Frango/Alface/ Tomate/Cebola/Pimentão verde.
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