cap 17 eu vou

746 Words
VENENO A guerra não tem hora pra começar, nem aviso prévio. Ela chega no silêncio e explode na madrugada, como um grito abafado por tempo demais. Desde que o primeiro tiro ecoou lá embaixo no morro, eu soube que essa merda ia estourar de vez. E agora não tem mais volta. Eu tô no Vidigal desde moleque. Vi homem virar pó, vi moleque com 14 anos segurando fuzil com mais medo do que ódio. Mas nunca foi como agora. Nunca tão pessoal. Eles vieram pela minha cabeça. E por tabela, colocaram todo mundo que eu amo na linha de fogo. As ruas que eu conheço de cor viraram labirinto de armadilhas. Cada esquina é um risco. Cada sombra, uma emboscada. A gente não dorme — cochila com um olho aberto e o dedo na trava do AK. A adrenalina é tanta que o corpo chega a tremer mesmo no silêncio. É viver no fio da navalha. Ontem à noite, os caras da Rocinha avançaram mais uma vez. Tentaram vir pelo beco da Jaqueira. Só que dessa vez a gente já tava esperando. Eu e o Nando posicionamos os moleques nos telhados, e espalhamos os rádios comunicadores. Não foi bonito. Foi brutal. "Lá vem eles! Três na frente, dois recuados!" gritou o moleque do rádio, com a voz tremendo. Do alto do barraco, eu vi os vultos se aproximando. Tava escuro, sem luar, só as lanternas tremendo no breu. Dei o primeiro disparo e a troca começou. O som dos tiros ecoava no morro como trovão, os cachorros latiam desesperados, e o cheiro de pólvora queimava minha narina. Um dos nossos caiu logo no começo. Baleado no ombro, se arrastando até a porta de uma casa abandonada. Gritei pro Nando: "Cobre ele! Ninguém fica pra trás!" A guerra é suja. Não tem romantismo nenhum. É sangue no chão e respiração ofegante. E o pior é o medo constante. Não de morrer, mas de perder o controle. De não voltar. De nunca mais ver ela. Rebeca. O nome dela não sai da minha cabeça, mesmo quando o caos toma conta. Em um intervalo de silêncio, escondido atrás de um muro, eu respirei fundo e pensei nela. No sorriso que ela me dá quando acorda, na forma como segura meu rosto quando me beija, nas promessas que fiz naquela viagem pra Angra... "Vou voltar pra você, meu amor. Custe o que custar." Mas é difícil acreditar nisso quando a guerra te arranca pedaços por dentro. Depois do confronto, a gente recolheu os corpos deles. Um dos caras era conhecido — Diego, um dos braços do rival. Isso ia gerar reação. Eu sabia. O preço ia ser alto. Reuni os moleques na parte alta da laje, logo depois do tiroteio cessar. Todos suados, exaustos, os olhos vermelhos não só pela fumaça, mas pelo peso da realidade. "Eles vão vir com tudo agora. Isso aqui não é mais disputa de ponto. Isso aqui é guerra declarada. E se alguém não tiver disposição pra segurar, melhor sair agora. Porque daqui pra frente... ou a gente defende, ou a gente morre." Ninguém se mexeu. Nem uma palavra. Só os olhares, firmes, ainda que assustados. Isso é o que nos mantém vivos: união. A lealdade que vem do sofrimento compartilhado. Mas mesmo com tudo isso, quando volto pro barraco, é no vazio que eu me perco. Porque ela não tá aqui. Porque a cama tá fria. E porque eu não posso mandar nem uma mensagem. Tudo monitorado. Tudo perigoso. Me deito no chão, o fuzil do lado, e olho pro teto mofado. O som distante de motos subindo o morro me faz levantar de novo. Já nem lembro quando foi a última vez que dormi mais de duas horas direto. Do lado de fora, Nando chega com um rosto tenso. "Interceptaram um carregamento nosso. Os caras da Rocinha estão sendo financiados. Tem milícia envolvida." Respirei fundo. O buraco era mais embaixo do que a gente pensava. "Então agora é tudo ou nada." Ele assentiu. E eu soube que essa guerra ainda vai levar muito mais do que a gente imagina. Mas eu não posso perder. Não por mim. Não por dinheiro. Mas por ela. Por Rebeca. Pela paz que a gente sonhou lá em Angra, quando tudo parecia possível. Eu vou lutar até o fim. Nem que eu tenha que sangrar em cada rua desse morro. Porque ela vale cada gota. E eu vou voltar pra ela. Nem que seja no meio da guerra.
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