cap 16 vou volta por ela

877 Words
VENENO Já faz dias. Ou semanas. Sei lá. O tempo aqui se perdeu no barulho dos tiros e no cheiro da pólvora. Parece que a gente vive numa contagem regressiva silenciosa, tipo uma bomba prestes a estourar, e ninguém sabe se vai ser hoje, amanhã, ou daqui a meia hora. Cada passo que eu dou, cada movimento que eu faço, carrega um peso que eu não consigo explicar. Tem sempre um moleque armado olhando por cima do ombro, sempre um rádio chiando com informação nova, sempre alguém dizendo "os alemão tão vindo" ou "pegaram um dos nossos". Não é mais só guerra de facção. É guerra pela sobrevivência. O morro tá sitiado. Não entra e não sai ninguém sem autorização. A gente já não dorme direito. Quando fecha o olho, é com o fuzil do lado, e a cabeça cheia de pensamentos ruins. Eu tento manter a mente no lugar. Não posso fraquejar. Os moleques me olham como referência. Se eu cair, eles desmoronam. Mas a verdade? A verdade é que eu tô cansado. Não fisicamente. Isso a gente aguenta. Tô cansado da vida que me obriga a viver com o dedo no gatilho. Cansado de ter que olhar pra cada esquina como se fosse armadilha. Cansado de pensar na Rebeca toda vez que escuto um disparo, achando que não vou voltar pra ela. Essa mulher... Ela é a única coisa que me faz querer sair vivo disso. Hoje cedo, a gente perdeu mais um. O Rato. Moleque novo, 18 anos. Pegaram ele de bobeira, numa viela do lado do barraco da vó. Um tiro só, seco. Rápido. No meio da testa. A gente nem conseguiu buscar o corpo. A polícia chegou antes, levou. O Nando ficou abalado — era cria junto. Depois do corpo levado, a resposta veio. A gente desceu. Foram três carros, uns doze de nós. A favela vizinha já tava esperando, então o p*u quebrou. Os primeiros disparos vieram da laje. A gente respondeu sem pensar. O barulho era ensurdecedor. Fuzil cantando, pistola cuspindo, granada caseira explodindo lata velha. Vi um dos caras deles cair com o peito estourado. Outro correu, e eu mirei com calma, puxei o gatilho. Caiu seco. Mas o que me marcou foi quando o Bruno levou um tiro no ombro e caiu do meu lado, gritando de dor. A gente arrastou ele de volta pro carro, mesmo com as balas zunindo. Parecia filme, mas era vida real. A p***a da vida que eu escolhi. No final, voltamos vivos. Mas perdemos dois. E ganhamos o quê? Território? Medo? Respeito? Nenhum dos três vale o sangue que caiu hoje. Cheguei no esconderijo agora pouco. É uma casa abandonada no alto do morro, onde a gente se reúne quando o clima esquenta demais. Abri uma latinha de cerveja só pra tentar relaxar, mas o gosto dela hoje parece ferrugem. Me sentei num colchão jogado no canto, puxei o celular e fiquei olhando a última foto que tirei com a Rebeca. Ela sorrindo, aquele cabelo bagunçado que eu sempre mexo, a camiseta minha que ela adora usar. Dá um nó na garganta. Eu não devia ter deixado ela sozinha. Mas eu não tinha escolha. A guerra começou quando tentaram invadir nosso lado sem aviso. Armaram cilada, queimaram o estoque, ameaçaram os moradores. E eu não podia só assistir. Isso aqui também é minha casa. Eu cresci aqui. Sangrei aqui. Perdi irmão aqui. Mas por mais que isso aqui seja minha origem... a Rebeca é meu destino. Eu lembro do jeito que ela me olhava antes de eu sair. Tava com medo, segurando as lágrimas, tentando parecer forte. Me abraçou como se soubesse que aquele podia ser nosso último abraço. Me beijou com tanta entrega que eu quase larguei tudo. Mas não dava. E agora eu tô aqui, com o dedo machucado de tanto puxar gatilho, com o sangue dos outros grudado na roupa, com o barulho da guerra martelando na cabeça. E mesmo assim, tudo o que eu penso é em voltar pra ela. Eu faço planos, sabia? Mesmo com o caos ao redor, eu faço. Imagino a gente longe daqui. Em Angra, talvez. Só nós dois. Um lugar em que ninguém conhece meu nome, onde eu não sou o dono do morro, nem o cara da guerra. Só o Felipe dela. E é lá que eu vou fazer meu casamento com ela. Pode parecer loucura pensar nisso agora, mas é a única coisa que me dá motivo pra continuar. Eu tô juntando o pouco de grana limpa que ainda tenho, escondida. Já pedi pro Nando ver uma aliança. Nada chamativo. Só algo simbólico. Eu quero olhar nos olhos dela e prometer que esse pesadelo vai acabar. Que vou mudar. Que quero uma vida longe das armas, das perdas, do medo. Mas antes... Antes eu preciso sobreviver a mais uma noite. E essa noite promete. O rádio já avisou que vão tentar retomar o beco dos trilhos. É estratégico. Se eles pegarem, o morro tá vulnerável. Eu sei que vão vir armados até os dentes. E eu estarei lá, no front. Porque é o que eu sei fazer. E o que esperam de mim. Mas juro por Deus, se eu sair dessa... se eu conseguir voltar inteiro... Eu largo tudo. Por ela.
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