cap 15 ele está bem

1284 Words
REBECA Desde que ele partiu naquela madrugada fria, parece que o tempo perdeu o ritmo. Os dias se arrastam pesados, como se cada minuto fosse uma eternidade. O silêncio da casa que era nossa deixa tudo mais difícil. Cada barulho lá fora me faz sobressaltar, e a ausência do corpo dele ao meu lado é uma dor constante que eu tento esconder, mas que me consome por dentro. Eu tento me ocupar, faço comida, limpo a casa, até invento conversas com o Nando quando ele aparece, mas quando fico sozinha, é impossível não pensar em tudo que pode dar errado. Será que ele está seguro? Será que vai conseguir escapar? Será que vai voltar pra mim? Essas perguntas não têm resposta, e eu sei que a única certeza que tenho é a fé que deposito nele, naquele homem que, por mais duro que pareça, nunca deixou de me mostrar o que é amar de verdade. Nas noites, eu me deito na cama onde ele costumava dormir e sinto o cheiro dele ainda impregnado no travesseiro. Fecho os olhos e lembro do calor da pele dele, do som da respiração, do beijo suave que ele me deu antes de partir. Mas aí a realidade bate, dura. A guerra não é coisa de conto de fadas. Ela mata, destrói, rouba vidas e sonhos. E eu não sei se a gente vai sair disso. Só sei que eu preciso ser forte, que não posso desabar porque ele precisa de mim – mesmo longe. Eu me pego conversando com ele em pensamento, imaginando o que ele está fazendo agora, se está comendo direito, se está se protegendo, se está lembrando que eu o amo. Nando aparece de vez em quando, trazendo notícias, dizendo que o Felipe está resistindo, que ele tem aliados, que a luta não acabou. Mas isso só faz a espera doer mais, porque me lembra que a qualquer momento tudo pode explodir. Eu não sei até quando vou aguentar assim. Mas sei que vou aguentar. Porque amar o Felipe é ter coragem mesmo com medo. E esperar mesmo sem saber o amanhã. E acreditar que no meio do caos, a gente pode encontrar paz. E eu vou esperar por ele. (...) 3 dias depois... Já fazia três dias que o Felipe tinha ido embora. Três dias desde que ele me olhou nos olhos, segurou meu rosto com aquelas mãos quentes, e disse: "Eu volto pra você." Mas o tempo aqui não passa. As horas são lentas, pesadas, e tudo que eu faço é andar de um lado pro outro nessa casa, como se estivesse esperando alguma coisa acontecer. Eu até tento ocupar a cabeça – lavo roupa que nem tá suja, limpo o mesmo canto da varanda umas dez vezes por dia. Mas a verdade? A verdade é que meu corpo tá aqui, mas minha cabeça tá com ele. Meu coração também. E eu juro, tento não pensar nas coisas ruins... Mas é difícil. Ele levou dois tiros há pouco tempo. Dois. Ainda tava se recuperando quando decidiu voltar pro meio do fogo. Disse que precisava resolver antes que a guerra batesse na nossa porta. Que ia proteger a mim, aos nossos, ao morro. Mas no fundo, eu sei que ele também tava se protegendo. O Felipe tem esse jeito de carregar o mundo nas costas sem deixar transparecer. Parece forte o tempo todo, mas eu enxergo o peso nos olhos dele. E agora ele tá lá... sabe-se lá onde... no meio de uma guerra que não perdoa. Às vezes eu me pego pensando: E se ele não voltar? E se for mais um que o morro engole sem avisar? Só de imaginar isso, minha garganta trava, e os olhos ardem. Eu deito na cama que ainda tem o cheiro dele e fico abraçada no travesseiro, como se aquilo fosse o bastante pra me manter em pé. Não é. Mas é o que eu tenho agora. Hoje, o céu amanheceu fechado. O mar, que antes brilhava em Angra, parecia cinza. E engraçado como o tempo parece sentir o que eu tô sentindo por dentro. Nando passou aqui de manhã, bateu na porta e me deu um abraço apertado. Ele olhou nos meus olhos e disse: – Rebeca, ele tá bem. Mandou dizer que tá fazendo tudo certinho. E que te ama, tá? Eu só balancei a cabeça. Não consegui responder. Era bom saber que ele tava vivo, mas saber não é ver, não é tocar. Eu queria ouvir da boca dele, sentir ele me puxando pela cintura e dizendo que tá tudo bem. Queria ele me contando alguma besteira, me fazendo rir, me chamando de "minha" do jeito que só ele fala. – Você tá comendo? – o Nando perguntou. – Tô tentando – respondi, mesmo sem fome nenhuma. – E ele... ele tá comendo direito? Tá se cuidando? – Tá sim. A gente tá com ele. Felipe é f**a, Rebeca. Tu sabe. Eu sei. E é isso que me assusta. Felipe é f**a, mas a guerra não respeita ninguém. E por mais preparado que ele esteja, um tiro no lugar errado, uma emboscada, uma traição... Eu respiro fundo. – Nando, se acontecer alguma coisa, você me avisa, né? Ele franziu a testa e chegou mais perto. – Não fala assim, pô. Ele vai voltar. Você vai ver. E só esperar. É. Esperar. A palavra que mais me dá medo ultimamente. Esperar virou sinônimo de tormento. E por dentro, eu tô desmoronando. Depois que o Nando foi embora, sentei na varanda com um copo de água e tentei ouvir o mar. Ele tava bravo. As ondas batiam forte nas pedras, como se gritassem por socorro também. E ali, sozinha com o barulho do vento, eu comecei a falar com Deus. Mesmo sem saber direito se Ele tava me ouvindo. – Deus... eu sei que ele errou. Sei que ele escolheu um caminho difícil. Mas o Felipe é bom. Ele tem um coração que ninguém vê. Ele me salvou, me tirou do buraco, me deu amor de verdade. Ele não merece morrer por causa dessa guerra. Por favor... só traz ele de volta pra mim. Só isso que eu peço. E então chorei. Chorei como há muito tempo não chorava. Porque amar alguém que vive no limite é como viver com o coração preso na beira do abismo. Qualquer ventinho mais forte e tudo desaba. Naquela noite, tentei dormir. Mas toda vez que fechava os olhos, era como se minha cabeça projetasse a pior cena: ele no chão, sangrando de novo, sem conseguir levantar. Eu gritava no sonho e acordava com o peito disparado. Levantei, fui pra sala e fiquei olhando o celular, como se ele fosse tocar. Como se de algum jeito, ele mandasse uma mensagem, um áudio, qualquer sinal de vida. Mas nada. Silêncio. Um silêncio que grita. Pensei em ligar pro Nando de novo, mas já era madrugada. E eu também sabia que isso não ia adiantar. Se alguma coisa r**m tivesse acontecido, ele já teria vindo até mim. Mas é que a cabeça da gente não para. A gente imagina mil tragédias antes mesmo delas acontecerem. No fundo, eu só queria um abraço. Um daqueles apertados, que ele me dava depois do sexo, quando dizia: "Cê é minha paz, Rebeca." Engraçado ele dizer isso, porque agora que ele não tá aqui, minha paz foi junto. Mas mesmo com todo esse caos dentro de mim, tem uma certeza que me segura: eu amo ele. E vou esperar. Mesmo que doa. Mesmo que o mundo diga pra não esperar. Mesmo que demore. Porque o amor que a gente construiu não foi qualquer coisa. Foi de verdade. E amores assim, nem a guerra consegue apagar.
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