cap 14 eles estão vindo

1279 Words
REBECA A gente ficou ali, deitados, ouvindo só o som do mar lá fora. A respiração dele misturada com a minha, o coração acelerado do corpo que ainda se acostuma a uma nova vida, mesmo que só por algumas horas de paz. Eu não conseguia parar de olhar pra ele. Felipe não era mais só aquele homem forte que eu conhecia nas ruas. Ali, naquele quarto simples, ele era só ele. Um homem cansado, ferido – mas com um amor que eu sentia na pele. Ele virou pra mim, os olhos ainda meio pesados, mas com um brilho diferente. Me puxou devagar pelo braço, como se quisesse me proteger de algo invisível. Eu só queria proteger ele também. Talvez daquela vida c***l que não dava descanso pra ninguém. – Rebeca – ele começou, a voz baixa, quase sem força – sabe, tem hora que eu fico com medo. Medo mesmo. Não daquele tiroteio, da polícia, da facção. Medo de não conseguir te proteger. De deixar você no meio dessa merda toda. Eu apertei a mão dele, querendo dizer que tava tudo bem, mas as palavras foram falhas demais pra explicar o que eu sentia. Em vez disso, só respirei fundo e fiquei ali, perto, com o coração tão apertado quanto o dele. – Eu sei – ele continuou – eu cresci achando que tinha que ser forte o tempo todo, que mostrar medo era fraqueza. Mas você me ensinou que a gente pode ser forte mesmo sentindo tudo. Que não precisa esconder o medo pra ser homem. Sorri, os olhos brilhando, e passei a mão no rosto dele. – Eu tô com medo também. Medo da guerra, do que pode acontecer com a gente. Mas se a gente não tiver um no outro, não tem pra onde correr. Ele me puxou pra mais perto, os dedos passando devagar pelo meu cabelo. – Eu prometo que vou fazer o possível pra tirar você dessa vida. Que vou tentar ser um homem melhor, não só pra mim, mas pra você. – Eu acredito em você. – Às vezes, eu acho que não mereço você. Que você podia estar longe disso tudo, vivendo uma vida normal, sem medo. – E eu podia. Mas escolhi você. Porque até o medo vira coragem quando a gente tem amor. Aquela conversa foi mais do que palavras. Foi confissão, foi entrega, foi um pacto silencioso entre duas pessoas que sabiam que o mundo podia desabar a qualquer momento, mas que ainda tinham aquele fio de esperança pra segurar. Ficamos ali, deitados, enquanto o céu lá fora escurecia devagar. O futuro era incerto, mas a certeza do amor deles ali, presente, era tudo que eu precisava pra respirar fundo e acreditar que, talvez, a gente pudesse sim sair dessa juntos. (...) REBECA Os dias em Angra foram uma espécie de pausa forçada, um suspiro que parecia poder durar para sempre, mas que eu sabia que ia acabar cedo demais. O cheiro do mar, o vento fresco, o céu aberto... tudo parecia conspirar para que a gente esquecesse por um momento o peso que carregávamos no peito. Mas o Felipe... ele não conseguia relaxar de verdade. Eu via isso no jeito como os dedos dele apertavam a minha mão, no olhar distante quando ninguém estava olhando, nas noites em que ele acordava suando frio, mesmo longe do tiroteio, da polícia, da guerra. Eu quis ser forte por ele. Quis que ele sentisse que estava seguro ali comigo. Mas minha própria ansiedade fazia um nó na garganta toda vez que pensava no que ia acontecer quando a gente tivesse que sair dali. Numa tarde, o sol já começava a se pôr, tingindo o céu de tons dourados, e a gente estava sentados na varanda da casa, olhando o mar. Eu sentei ao lado dele, peguei a mão dele nas minhas e resolvi quebrar o silêncio. – Felipe... – comecei, hesitante – eu sei que você tá tentando me proteger, mas eu preciso saber... o que tá realmente acontecendo? Ele virou o rosto pra mim, os olhos pesados, cansados, mas ainda carregados daquela intensidade que eu sempre amei. Respirou fundo, parecia lutando pra colocar as palavras pra fora sem se deixar afogar pelo medo. – Rebeca... – ele começou devagar – não é só a gente que tá correndo risco. É o morro inteiro. O Morcego, aquele filho da p**a que eu não consegui derrubar, tá atrás de mim com sangue nos olhos. E eles não vão medir consequências. Eu senti um calafrio subir pela espinha. O nome dele, Morcego, era como uma sombra escura que parecia engolir tudo ao redor. – Eles tão dizendo que eu caí. Que eu tô morto. Mas é mentira. O problema é que agora ninguém sabe se eu tô vivo ou não, só que eu tô no caminho deles. Eu apertei a mão dele, tentando transmitir força, mesmo quando o medo ameaçava me derrubar. – E a gente? O que a gente faz? – perguntei, a voz falhando – Como a gente escapa disso? Ele virou pra mim, segurou meu rosto entre as mãos e olhou profundamente nos meus olhos. – A gente não pode ficar parada esperando a guerra chegar. Eu preciso agir primeiro, antes que eles se aproximem demais. Ele fez uma pausa, respirou fundo. – Mas isso significa que eu vou ter que sair daqui. Vou ter que ir pro meio do fogo cruzado de novo. E é o que mais me dói. Eu engoli a vontade de chorar, porque a ideia dele ir embora de novo, enfrentar tudo sozinho, era como arrancar um pedaço do meu coração. – Mas você vai voltar, né? – perguntei, segurando firme – Promete que vai voltar pra mim. Ele sorriu, meio triste, meio apaixonado. – Eu prometo, Rebeca. Eu volto. Porque é por você que eu tô aqui, por você que eu vou lutar até o fim. Eu deixei as lágrimas caírem, e ele me puxou pra um abraço apertado, como se quisesse guardar meu corpo e minha alma pra ele. Ficamos ali por muito tempo, só respirando juntos, sabendo que o mundo lá fora podia ruir a qualquer momento, mas que a gente ainda tinha aquele momento. Os dias seguintes foram de preparação. Felipe começou a traçar planos, conversar com Nando e outros aliados, tentar montar uma estratégia pra sair vivo daquela guerra que se anunciava. Eu fazia o que podia: cuidava dele, preparava a comida, tentava manter a calma que a gente precisava para não desabar. Às vezes ele sumia por horas, falando ao telefone, acertando detalhes, e eu só conseguia esperar, torcer para que a coisa não saísse do controle. Mas cada minuto que passava a sensação de que algo r**m estava chegando aumentava dentro de mim. Numa noite, acordei com barulhos estranhos do lado de fora da casa. Meu coração disparou. Fui até a varanda e vi sombras se movendo na escuridão, figuras que não deveriam estar ali. Corri até o quarto dele. – Felipe! – chamei, assustada. Ele acordou rápido, pegou a arma escondida debaixo do travesseiro e foi até a janela. Olhou para fora e murmurou: – Eles tão chegando. Meu peito apertou como se fosse explodir. Eu sabia que a hora estava chegando. A guerra, que a gente tentava adiar, ia bater na nossa porta. – A gente precisa sair daqui – ele disse, pegando a mão minha – agora. Em silêncio, arrumamos o que podíamos, e no meio daquela madrugada fria, a gente deixou pra trás a casa, o mar, o sonho de um tempo de paz. Mas dentro do peito, levávamos a certeza de que o que vinha seria a maior luta da nossa vida.
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