cap 10 estou aqui por você

882 Words
REBECA O áudio ainda ecoava na minha mente. "Tô bem. Não sai de casa. A gente precisa conversar." Mas alguma coisa na voz dele... tava errada. Era fraca, lenta. Como se ele estivesse cansado. Ou... machucado. Meu coração, que já tava em frangalhos, começou a bater mais forte ainda. Me levantei da cama num pulo, sem nem perceber que as pernas estavam tremendo. Peguei o celular e tentei ligar de novo, mas caiu direto na caixa postal. A mensagem azul nunca apareceu. As palavras dele me acalmavam e me torturavam ao mesmo tempo. "Tô bem." Mas o que significa "bem" pra alguém como o Felipe veneno? Bem o suficiente pra falar? Bem o suficiente pra mentir que tá tudo certo só pra não me assustar? Eu conhecia ele. Conhecia cada vírgula, cada silêncio. E aquele áudio era o tipo de silêncio que grita. Alguma coisa tava errada. Comecei a andar pelo quarto igual uma maluca. Me sentia sufocada. Encosteia testa na porta, prendi a respiração e escutei... passos. Fracos. Arrastados. E um leve bater na porta da frente. – Rebeca... – ouvi a voz da minha mãe, do lado de fora – alguém quer falar com você. Meu corpo gelou. Corri até a sala. Quando virei o corredor, o coração quase parou. Era ele. Felipe estava encostado no batente da porta, suado, pálido, e com uma expressão de dor que me fez perder o chão. Ele usava uma camisa preta rasgada, grudada no peito por causa do sangue. Sim, sangue. – Meu Deus, Felipe... – corri até ele – o que aconteceu? Onde você foi? Por que você tá assim? – Calma, calma... eu tô aqui. – ele disse, com a voz fraca. – Você tá ferido! – minha voz saiu tremida, desesperada. – Foram dois tiros. Mas de raspão – ele tentou sorrir, mas o canto da boca tremeu – nada vital. Só que... doeu pra c*****o. Naquele momento, a única coisa que eu consegui fazer foi abraçar ele. Apertado. Sem medo de manchar minha roupa de sangue, sem medo de quebrar ele mais do que ele já tava. Só queria sentir que ele tava vivo. Que ainda era real. – Vem, deita aqui... – falei, guiando ele até o meu quarto. Ele se apoiou em mim, mancando, mas com aquele olhar que ainda brilhava por trás da dor. O olhar de alguém que sobreviveu. Que voltou pra mim. Quando ele sentou na cama, eu fechei a porta e me ajoelhei na frente dele. Levantei devagar a camisa suja e vi o ferimento no lado do abdômen. Um corte profundo, sangrando menos agora, mas ainda assustador. – Cê devia estar no hospital, Felipe... isso não é só um arranhão. – Não posso. A polícia tá rondando. Se eu apareço lá, vão querer saber por que eu tava no meio do tiroteio. Já tem gente demais falando de mim. Não posso me dar esse luxo. – E se você morre, hein? – falei mais alto, a voz embargada, as lágrimas voltando – e se eu nunca mais te vejo? Você tem noção do que foi pra mim escutar aqueles tiros sem saber se cê tava vivo? Ele olhou bem nos meus olhos, e vi o arrependimento ali. Cru, verdadeiro. – Eu só conseguia pensar em você – ele disse, baixo – Quando eu senti o impacto, quando eu caí no chão... a única coisa que me veio na cabeça foi teu nome. Rebeca. Minhas mãos foram direto pro rosto dele, acariciando com cuidado. A barba m*l feita, o rosto suado, os olhos cansados. E mesmo assim... era ele. O mesmo Felipe que um dia me fez rir só com um olhar, o mesmo que me deixou sem chão no primeiro beijo. O mesmo que agora, mesmo sangrando, veio até mim. – Por que você faz isso comigo? – sussurrei, quase sem ar. Ele sorriu, mesmo fraco. – Porque amar você é mais forte que tudo, até que a p***a das balas. Aquelas palavras me quebraram inteira. Me entreguei ali mesmo. Me aproximei devagar, com o coração disparado. Os olhos dele estavam fixos nos meus, como se implorassem por um momento de paz. E foi isso que eu dei. O beijo começou leve, quase inseguro. Mas logo, a saudade falou mais alto. Era um beijo com gosto de reencontro, de sangue, de lágrimas, de medo e amor misturados. Minha mão foi até o pescoço dele, puxando com cuidado, enquanto os dedos dele encontraram minha cintura e me trouxeram pra mais perto. Eu sentia a respiração dele quente contra minha pele, o cheiro da rua, do suor, do sangue – tudo misturado com o perfume que ele sempre usava. E mesmo assim... era o lugar mais seguro do mundo pra mim. Nos separamos devagar, ainda com os olhos fechados. – Eu te amo, Felipe. Eu amo, p***a. Mesmo com tudo. Mesmo com esse inferno. Ele encostou a testa na minha. – E eu te amo mais do que essa vida suja. Eu só tô aqui porque você existe. Só por isso. Eu o abracei de novo, com força. A respiração dele era pesada, mas constante. E ali, entre lençóis e feridas abertas, eu soube de uma coisa: Se amar o veneno era perigoso, então que o perigo venha. Porque eu já tava perdida mesmo.
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