cap 11 por ela

909 Words
VENENO Quando eu ouvi o primeiro disparo, já sabia que era pra mim. Não teve aviso. Não teve olhada torta. Foi direto. Do nada. O tipo de emboscada que só acontece quando alguém que cê confia te entrega. Dois tiros. Um pegou de raspão. O outro atravessou de leve, mas ardeu como se o inferno tivesse entrado em mim pela pele. Caí no chão, rolei pro canto e só pensei em uma coisa: Rebeca. Não pensei na grana. Não pensei no morro. Não pensei em mais nada. Só no rosto dela. No jeito que ela me olhava, como se ainda acreditasse que eu podia ser mais que isso aqui. Mais que essa vida suja, mais que um nome gritado na boca dos becos. Ela me via diferente. E eu... eu tava tentando ser esse cara pra ela. Tava tentando sair. Tava tentando mudar. Mas a vida não deixa. O morro cobra. E hoje ele cobrou com bala. Eu corri. Me escondi. Sangrei. E mesmo assim, a única coisa que eu queria era ver ela. Nem que fosse pela última vez. Chegar na casa dela foi como rastejar até a única luz que ainda brilhava pra mim. Meus passos tavam lentos, o corpo doía, a visão embaçada... mas quando ouvi a voz da mãe dela me chamando, eu soube que tinha conseguido. E aí ela apareceu. Minha mina. Ela veio correndo, desesperada, e eu juro, só aquele abraço já anestesiou metade da dor. Eu tava m*l, quebrado, fodido... mas ela me segurou como se eu ainda fosse inteiro. E por um instante, eu fui. Me deixou entrar, me ajudou a sentar na cama, cuidou de mim com as mãos mais leves e o coração mais pesado que eu já vi. Quando ela levantou minha camisa e viu o sangue, o olhar dela mudou. E aquilo doeu mais do que o tiro. – Você devia estar no hospital – ela disse, com a voz embargada. – Eu não posso. A polícia tá caçando qualquer maluco que pisou na favela essa noite. Se eu apareço lá, já era. Eles me prendem, inventam história, e ainda mandam meus inimigos saberem onde eu tô. Não dá. Ela me encarou com um misto de raiva e medo. – E se você morre? Hein, Felipe? E se eu nunca mais te vejo? Você tem noção do que foi escutar aqueles tiros sem saber se cê tava vivo? A dor nos olhos dela me engoliu. Ela não sabia, mas eu também chorei. Por dentro. A gente finge ser forte, mas quando a pessoa certa olha nos teus olhos... a verdade vem. – Eu só pensava em você. Quando eu caí no chão... quando eu senti o sangue escorrer... teu nome foi a única coisa que ficou na minha mente. E era verdade. Era só ela. O beijo que veio depois foi diferente de tudo. Não foi só beijo. Foi refúgio. Foi perdão. Foi promessa. Ela me beijou como quem tenta manter alguém vivo com a boca. E eu beijei ela como se fosse a última vez que eu ia sentir alguma coisa boa nessa vida. A boca dela é casa. É fogo. É minha salvação e minha perdição ao mesmo tempo. Quando os lábios dela saíram dos meus, a respiração dela ainda batendo no meu rosto, eu soube. Não importa quantas balas o mundo me jogue, ela vai ser meu motivo pra levantar toda vez. – Eu te amo, Felipe – ela sussurrou, com os olhos cheios d'água. – Mesmo com tudo. Mesmo com esse inferno. Eu encostei minha testa na dela, ainda ofegante. – E eu te amo mais do que essa vida suja. Eu só tô aqui porque você existe. Só por isso. E eu quis parar o tempo ali. Mas o mundo não para pra gente amar. Fiquei deitado no quarto dela, ouvindo o silêncio da casa, sentindo o corpo queimar e a mente fervilhar. Pensei em tudo. Nos caras que me cercaram. Em quem pode ter sido. E, mais ainda, no que vem depois. Eu sei que esse tiro não foi por acaso. Foi aviso. Foi cobrança. E a gente sabe como isso funciona: hoje são dois de raspão... amanhã é no peito. Se eu não cortar isso agora, vou deixar a Rebeca viúva antes de ela ser minha de verdade. E aí me bateu o desespero: Será que dá tempo pra gente? Será que a gente consegue viver isso aqui, esse sentimento maluco, no meio de um campo de guerra? Eu olhei pra ela dormindo ao meu lado, o rosto tranquilo depois de tanto choro. Linda, mesmo com os olhos inchados. Ela é luz. E eu sou sombra. Mas por ela... eu queria mudar de lado. Eu sei que sou errado. Eu sei que minha vida é marcada por coisas que ela nunca merecia encostar. Mas eu nunca senti isso por ninguém. Nem perto. E se tem uma coisa que eu tenho certeza nessa p***a toda... é que ela é minha cura. Talvez amar ela seja o único acerto que eu fiz nessa vida toda errada. No escuro do quarto, com a dor pulsando e o peito queimando mais que o ferimento, eu fiz uma promessa silenciosa: Se eu sobreviver a isso, se eu sair vivo do que tá por vir... eu vou sair por ela. Por nós. E que se f**a o morro, o dinheiro, o nome. Se for pra perder tudo, mas ter ela do meu lado... então já ganhei.
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