VENENO
O quarto tava em silêncio, mas minha mente... um campo de guerra.
A dor do tiro ardia, mas o que mais queimava era o que vinha depois. Eu sabia que aquilo não ia ficar assim. Dois tiros e um recado não são o fim. São o começo.
Rebeca dormia ao meu lado, deitada como se o caos do mundo tivesse tirado um cochilo pra deixar a gente respirar. Ela tava linda, mesmo com os olhos inchados. Os dedos dela ainda apertavam de leve minha mão, como se tivesse medo que eu sumisse de novo.
Mas eu não conseguia dormir. Só conseguia pensar.
Quem me entregou?
Quem soube onde eu ia estar naquela hora?
E mais... quem já sabe que eu tô aqui agora?
Foi aí que escutei.
Três batidas secas na porta da casa.
De madrugada.
Sem aviso.
Senti o sangue gelar. Me levantei rápido, mesmo com o corpo gritando de dor.
A adrenalina venceu a fraqueza.
– Rebeca – sussurrei, sacudindo ela de leve.
Ela abriu os olhos devagar, sonolenta. Mas bastou olhar no meu rosto pra entender que algo tava errado.
– Que foi? – ela perguntou, já se erguendo.
– Alguém bateu na porta.
Ela ficou pálida na hora.
– Meu Deus... será que é a polícia? Ou algum dos caras?
– Não sei. Mas não abre. Espera.
Fui até a janela com dificuldade e olhei por entre a cortina.
Um vulto. Só dava pra ver uma silhueta parada ali, com capuz.
– Fica aqui – falei, voltando até ela – não abre a porta por nada.
– Felipe, e se for alguém do morro? E se souberem que você tá aqui?
– É exatamente o que eu tô com medo.
Peguei minha camisa, vesti com dificuldade, e fui até a porta da frente em silêncio. Parei a uns dois metros de distância. O coração batia tão alto que parecia que ia ser ouvido lá fora.
– Quem é? – perguntei, firme.
Silêncio.
– Fala logo.
A voz veio abafada, baixa.
– Relaxa, sou eu... Nando.
Nando. Um dos poucos da minha confiança.
Abri a porta só o suficiente pra ver o rosto dele. Ele olhou pros lados antes de entrar apressado.
– Que p***a cê tá fazendo aqui, mano? – ele sussurrou. – Cê tá maluco?
– Levei dois tiros, precisava de um canto. Só confiei nela.
Ele olhou ao redor, respirando fundo.
– Escuta, tá dizendo que cê morreu. Os caras tá espalhando que cê caiu. Mas ao mesmo tempo... alguém viu tu chegando aqui. A notícia já tá se espalhando. Cê tá em perigo, veneno.
– Merda... – murmurei, esfregando o rosto.
Rebeca apareceu no corredor, enrolada no lençol.
– Quem é?
– Nando. – falei sem tirar os olhos dele – Trouxe notícias.
Ela se aproximou, ainda assustada.
Ele falou – direto.
– Cê tem que sair daqui.
– Não dá, mano. Eu m*l consigo andar.
– Então leva ela junto. Mas não pode ficar aqui. Tá dizendo que o Morcego quer te pegar pessoalmente. Ele acha que você sabe demais.
Morcego.
Eu devia ter adivinhado.
– Aquela desgraça. – murmurei. – Eu devia ter matado ele quando tive a chance.
– Mas não matou. E agora ele quer te apagar. E se descobrir que cê tá aqui, a Rebeca entra no meio.
A palavra entrou na minha mente como uma lâmina.
Rebeca.
Não. Eles não iam tocar nela.
Não enquanto eu respirasse.
– Cê tem um carro? – perguntei pro Nando.
– Tenho. Tá duas ruas abaixo. Preto, sem placa.
– Leva a gente. Agora.
Rebeca arregalou os olhos.
– Felipe... pra onde?
Olhei nos olhos dela, com firmeza.
– Pra onde der. Mas a gente precisa sair. Não dá pra ficar aqui sabendo que podem bater nessa porta a qualquer momento.
Ela respirou fundo, os olhos cheios d'água.
– Eu vou com você.
– Tem certeza?
– Eu não vou te deixar sozinho. Não mais.
Ali, naquele instante, eu tive certeza que não era só paixão.
Era amor.
Mesmo com o perigo. Mesmo com o mundo desabando.
Mesmo comigo todo quebrado por dentro e por fora.
Em minutos, Nando foi na frente. Rebeca ajudou a me vestir, colocou uma blusa larga, escondeu o ferimento o melhor que pôde. Ela tremia, mas não hesitava. Era valente. Era minha.
Saímos pela porta dos fundos. Silenciosos. A madrugada ainda cobria o morro com sua sombra pesada. A cada passo, eu sentia a dor latejar, mas o medo era maior que a dor.
Chegamos ao carro. Entrei no banco de trás com a ajuda dela.
Quando o carro arrancou, olhei pra trás. A casa dela sumindo na esquina, o cheiro dela ainda grudado em mim, o sangue seco colando na camisa.
Eu deixava pra trás tudo.
Mas levava comigo o que mais importava.
Ela.
E no fundo da minha alma, uma certeza gritava:
Isso não acabou.
Mas agora eu tinha um motivo pra lutar.
E se o Morcego quiser guerra... vai ter.
Mas ele não toca na minha mina.
Ele não me tira ela.
Antes disso... eu acabo com ele.