REBECA
Eu não dormi.
Passei a madrugada inteira com o peito apertado, o olho preso no teto, o travesseiro úmido. A mente rodando igual roupa na máquina. A cena dela falando "meu marido" repetindo mil vezes na minha cabeça.
Eu jurei pra mim mesma que nunca ia cair nessa.
Nunca ia ser a mulher da história errada.
Nunca ia ser a "outra".
Nunca.
Mas ali tava eu. Com cara de i****a.
Com o gosto dele ainda na pele.
Com a voz dele dizendo "eu quero, mas não posso".
O pior é que ele nunca mentiu.
Ele só... escondeu.
E esconder também é mentira, né?
Levantei da cama como se tivesse levado um soco no estômago. Olho inchado, rosto quente, coração duro.
Lavei o rosto, prendi o cabelo e fui vender minhas quentinhas. Porque a vida não para pra quem se fode. O morro não te espera cicatrizar. Ele só empurra. E ou você levanta, ou desce rolando.
Na rua, todo mundo parecia saber.
A vizinha me olhou com pena.
O moleque da bike ficou me encarando.
Até a tia da mercearia fez questão de dizer:
– "Homem casado é armadilha, filha. Já caí nessa também."
Engoli seco. Segui meu caminho.
Ouvia sussurros, cochichos.
Mas o pior ainda tava por vir.
Ele apareceu.
Claro que apareceu.
Moto barulhenta, boné abaixado, e a cara de quem tinha perdido a paz. Parou do outro lado da rua. Desceu devagar. Me olhou como quem pede socorro, mas nem sabe por onde começar.
– Rebeca...
Fingi que não ouvi.
– Rebeca, olha pra mim.
Continuei mexendo nas quentinhas, como se ele fosse só mais um cara passando. Mas por dentro... minha mão tremia. A raiva misturada com saudade fazia meu peito virar zona de guerra.
– Me deixa explicar, por favor. – ele disse, se aproximando.
Soltei o pote de arroz com força no isopor. Respirei fundo. Levantei o olhar.
– Explicar o quê, Felipe? Que tu é casado? Que tu tava me fazendo de trouxa?
– Não é assim. É complicado.
– Sempre é né? Pro homem, tudo é complicado. Mas tu teve tempo de sobra pra falar. Só não falou porque sabia que eu ia meter o pé.
Ele se calou. Me encarava com aquele olhar que eu odiava amar.
– Eu te juro que não é o que parece. – ele insistiu.
– Veneno... eu não sou mulher de dividir. Eu me basto. E tu... tu me partiu.
Ele abaixou a cabeça. E aí falou baixinho:
– Ela não é mais minha mulher de verdade. A gente só não se separou por causa do corre, dos negócios, do morro.
– Problema teu. Não meu. Tu tinha que ter me falado. Cê mentiu por silêncio. E isso... isso me matou mais que qualquer verdade.
Ele esticou a mão, querendo tocar no meu braço.
– Não encosta. – cortei, firme. – Vai embora. E não me procura.
Dei as costas. O coração em pedaços. Mas o rosto... firme.
Chorei? Chorei depois, sozinha. No quarto. Com o travesseiro tapando o grito.
Mas prometi pra mim mesma:
ele não me vê fraquejar de novo.
Agora é cada um pro seu lado.
E se ele quiser insistir... vai ter que lutar com a mulher que ele mesmo criou.
(...)
VENENO
Duas semanas.
Quatorze dias.
Trezentos e trinta e seis horas.
E isso que faz desde que ela me deu as costas.
Desde que o olhar dela morreu na minha frente.
Desde que eu fui burro o suficiente pra deixar a verdade estourar na cara dela do pior jeito possível.
A Luísa...
Eu devia ter resolvido isso faz tempo. Devia ter fechado aquele ciclo, batido a porta, cortado a linha. Mas fiquei preso no medo. No morro. Na imagem de "veneno, o chefe, o que controla tudo". E agora? Agora eu não controlo p***a nenhuma.
Rebeca sumiu.
Não fisicamente. Ela tá ali. No morro. Passa na frente da minha quebrada. Entrega marmita na beira da escadaria. Fala com a galera. Sorri. Vive.
Mas nunca mais olhou pra mim.
Nunca mais.
E isso...
Isso tá me matando.
Eu tento agir normal. Cumprimento os caras. Faço as contas dos negócios. Passo a visão nos becos. Mas minha mente tá nela o tempo inteiro.
O jeito que ela dançava.
O olhar afiado.
A boca que dizia "não encosta" com a mesma fome que gritava "me toca".
O fogo dela me consumia.
E agora o frio da ausência me congela.
Já tentei falar.
Mandei recado pela prima dela.
Fui no ponto onde ela vende.
Esperei na esquina como moleque de 15 anos apaixonado.
Nada.
Ela me vê. Mas finge que não existo.
A última vez que tentei encostar, ela nem parou. Só falou, sem olhar:
– "Tá perdendo tempo, Felipe. Eu morri pra tu."
Aquilo doeu.
Mais do que qualquer bala que eu já tomei.
Mais do que qualquer trairagem de aliado.
Porque ela não grita, ela não chora, ela não esperneia.
Ela mata no silêncio.
E eu?
Eu virei um zumbi.
Sorriso forçado, pensamento longe, socando parede quando tô sozinho.
Perdi a fome.
Perdi o sono.
Perdi ela.
E agora... tô perdendo a mim mesmo.
A galera já percebe.
– "Tá tudo certo, veneno?"
Eu minto.
– "Sempre, pô."
Mas não tá.
Tá tudo errado.
Porque Rebeca me virou as costas.
E agora, nem com o morro inteiro ajoelhado... eu consigo ter ela de volta.
E pior...
Essa semana, vi ela conversando com um cara novo.
Um dos moleques da favela de baixo. Camisa regata, tatuagem nova, sorriso fácil.
Ela tava rindo.
Soltou o cabelo.
Jogou charme sem perceber.
E eu?
Eu vi. De longe. Morrendo por dentro.
Ela tá tentando seguir.
Tá tentando me apagar.
E talvez... talvez ela consiga.
Mas eu?
Nunca mais vou esquecer.
Rebeca me marcou.
E se um dia ela voltar...
Vai ser no tempo dela.
Se não voltar?
Foi por que mereci