cap 05 ele é casado

917 Words
REBECA Acordei com a cabeça latejando. A cama pequena, o ventilador girando lento no teto, o som dos vizinhos discutindo logo cedo – tudo igual. Mas eu não tava igual. Fiquei uns minutos parada, encarando o teto, tentando lembrar de cada detalhe da noite anterior. Não que fosse difícil, né? Tava tudo grudado na minha pele. A música, a fumaça, a batida no peito. Mas principalmente ele. A forma como ele olhou pra mim. Como chegou perto. Como não encostou. Isso me corroía mais do que eu queria admitir. Eu fui lá pronta. Me arrumei, me joguei, dancei com sangue no olho e fogo no corpo. E ele? Veio com aquelas palavras cheias de veneno doce e sumiu. Levantei com raiva. Fui direto pra pia, joguei água no rosto, prendi o cabelo num coque alto e vesti qualquer roupa. Tinha mais quentinha pra vender hoje, e o mundo não para só porque o Felipe veneno resolveu brincar de me deixar louca. Na rua, o clima era o mesmo de sempre. Criança correndo, rádio tocando alto, vizinha gritando na janela, o cheiro do almoço subindo das casas. Mas dentro de mim tava tudo virado. E claro, como o destino adora me testar, ele apareceu. De moto. Devagar, como se o tempo fosse dele. Sem capacete, com aquele boné virado pra trás e o braço tatuado brilhando no sol. Parou a moto perto de onde eu vendia as marmitas. Nem olhou direto de cara. Falou com uns dois caras, deu risada, cumprimentou o moleque do doce. Só depois virou o rosto e me olhou. E eu já tava olhando. Não desvio mais. – E aí, Rebeca. Sumida. – Soltei uma risada debochada. – Sumida? Eu que tava lá. Você que sumiu da pista. – Tava quente demais. Ia acabar explodindo. – ele disse, sério. Me aproximei devagar, braço cruzado, o olhar firme. – Ah... então é isso? Tu joga fogo e corre antes de se queimar? Ele mordeu o canto da boca, o olhar meio cansado, meio safado. – Eu não corro. Só escolho o momento certo. – E eu pareço o quê pra tu? Jogo? – Jogo? Não. Tu parece uma guerra. Fiquei muda. Por dentro, uma parte queria mandar ele pra longe. A outra... queria puxar ele pra perto, arrancar esse controle dele na força. Mas eu só virei de costas. – Tô trabalhando, Felipe. Quer quentinha? Compra. Se não, segue tua guerra aí. Ele ficou parado por uns segundos. Senti. A presença dele queima o ar. Aí ele riu baixinho, deu meia-volta, ligou a moto e foi embora. Mas antes de sumir, gritou por cima do ombro: – Hoje tem baile de novo. Te espero lá. Filho da mãe. Ele quer me deixar no fogo até eu pedir por ele. Mas se tem uma coisa que eu aprendi nesse morro, é que quem sabe jogar, nunca implora. Só devolve no olhar. Hoje à noite tem mais. E se ele acha que me deixou louca ontem, hoje eu vou devolver tudo. Em dobro. (...) Uma semana depois A semana passou estranha. Ele sumiu. De novo. Depois daquele baile, da quase... do quase beijo, do quase tudo, eu achei que ele ia aparecer. Que ia vir atrás. Que ia me puxar de vez pro mundo dele. Mas não. Sumiu. Deixou o fogo aceso e foi embora. Eu continuei com minha vida. Marmita, rua, calor, favela gritando nos meus ouvidos. Mas por dentro, tava tudo silencioso. Um silêncio desconfortável, pesado, cheio de interrogação. Aí hoje ele apareceu. No fim da tarde. Moto parada no mesmo lugar. Camisa branca, cabelo bagunçado, olhar mais sério que o normal. – Vamo dar uma volta. – ele soltou, direto. – Nem oi? – Rebeca... só vem. E eu fui. Como sempre. Sem entender, mas com o coração batendo mais rápido. Subimos pro alto do morro, um lugar meio escondido, com vista pra cidade inteira. O sol se pondo, o céu laranja, o vento forte. E a gente ali. Sozinhos. Perto demais. Ele encostou na mureta e ficou em silêncio. Eu também. Depois de um tempo, falou: – Eu queria te beijar aquele dia. – Eu sei. – Eu ainda quero. – Eu também. Ficamos em silêncio. Os olhos dele nos meus. O mundo parando. Aquele momento que não dá pra fingir. Ele chegou perto. Bem perto. A mão na minha cintura. A boca quase na minha. A respiração dele quente. Era agora. Até que... uma voz cortou o ar. – Felipe? Uma mulher. Do nada. Atrás da gente. A gente virou junto. E ali tava ela. Morena. Corpo feito. Vestido leve. Sandália fina. Chocada. Mas não surpresa. – Tu tá com outra? Aqui em cima, na frente de todo mundo? – ela gritou. Eu gelei. Ele fechou os olhos, a mão ainda na minha cintura. – Não é o que você tá pensando, Luísa. – Ah, não é? Então me explica por que o meu marido tá quase beijando a marmiteira do morro? – ele ficou em silêncio. Marido? Não. Não. Não. Eu me afastei rápido. O coração parecia querer explodir no peito. Ele tentou falar algo, mas eu já tinha virado de costas. Descendo o beco, cambaleando. Não olhei pra trás. Não queria ver a cara dele. Não queria ver a verdade. Veneno. Casado. Com mulher. Com aliança no dedo que ele sempre escondia. E eu aqui. Me entregando no fogo, achando que era só nosso. Que ele tava me escolhendo. Que ele era difícil – eu sabia... mas livre não era.
Free reading for new users
Scan code to download app
Facebookexpand_more
  • author-avatar
    Writer
  • chap_listContents
  • likeADD