REBECA
Cheguei do trampo cansada. O corpo doía, os pés estavam pesados, e a cabeça cheia de coisas. Mas hoje não era qualquer dia. Hoje tinha baile no Vidigal. E eu já sabia: ele ia estar lá. O dono do morro. O homem que anda como se o mundo fosse dele. O mesmo que faz meu peito bater estranho toda vez que passa por mim.
Tomei um banho demorado, deixei a água cair nas costas, tentando tirar a tensão do dia. Mas lá no fundo, era mais que isso. Eu tava tentando controlar o que eu tava sentindo. Aquela expectativa estranha, o nervoso que não assumo pra ninguém, nem pra mim mesma.
Saí do banho e fui direto pro guarda-roupa. Não era qualquer roupa hoje. Hoje eu queria provocar.
Não os outros.
Mas o veneno.
Escolhi aquela saia justa que sobe um pouco mais quando eu ando e um top preto colado no corpo, com alça fina. Coloquei o tênis que combina com tudo, o cabelo deixei solto, molhado mesmo, batendo nas costas. Um pouco de gloss, perfume doce e pronto. Me olhei no espelho e dei um meio sorriso.
– "Vai me ver hoje, veneno. Vai ver e vai sentir."
Saí de casa com o morro vibrando. O som já batia de longe, as motos subiam e desciam com os caras acelerando, a galera gritava, ria, se arrumava nos becos com espelho de celular e cerveja na mão. No Vidigal, a noite nunca começa devagar.
A quadra tava cheia. Luz piscando, fumaça subindo, batidão estourando na caixa de som. A galera dançava apertado, os copos voavam no ar, o chão vibrava com o grave do funk. Era caos e liberdade no mesmo lugar.
E ali, no meio do tumulto, meus olhos bateram nele.
Felipe tava encostado no carro, cigarro na mão, com aquela postura de quem não precisa fazer esforço pra dominar tudo. Camisa preta, cordão grosso no pescoço, olhar firme. Ele não dançava, não ria, só observava. Tipo um lobo quieto, esperando a presa dar bobeira.
Mas hoje a presa sou eu? Não.
Hoje eu sou o incêndio.
Cruzei o baile andando devagar, sentindo o olhar dele grudar em mim. Senti mesmo. Aquele tipo de olhar que começa no tornozelo e sobe devagar. E quando chegou no meu rosto, eu já tava olhando de volta. Não desviei.
A música bateu diferente nessa hora. Um batidão mais sujo, mais pesado. A galera se apertou, e eu entrei na roda de dança como quem não deve nada pra ninguém. O corpo foi no ritmo, natural. Rebolava devagar, sentindo a batida na pele, os olhos nele. Só nele.
Ele continuava parado, mas os olhos queimavam.
E eu continuava dançando.
Não era sobre me mostrar.
Era sobre provar que ele não me controla.
Pelo menos não ainda.
Depois de alguns minutos, ele saiu do canto. Veio andando devagar, por entre a multidão, até parar do meu lado. A música alta cobria tudo, mas o silêncio entre a gente gritava.
– Tu fez isso de propósito, né? – ele falou perto do meu ouvido, a voz rouca, baixa.
– Fiz o quê? – respondi, olhando nos olhos dele.
– Vim assim. Com esse olhar. Essa roupa. Esse corpo. Dançando desse jeito.
– Tô só vivendo, veneno. O errado é eu ser assim ou você não aguentar?
Ele riu, aquele riso abafado, perigoso. Passou a mão no rosto como quem tava tentando se controlar.
– Tu não sabe o que tá fazendo.
– Não? – dei um passo pra frente, quase encostando no peito dele. – Me ensina então.
Ele me olhou como se quisesse dizer mil coisas, mas engoliu tudo.
– Ainda não. – ele falou.
– Tá medo?
– Controle. – respondeu.
A batida seguiu, o povo pulava, dançava, se pegava ao redor. Mas a gente ali, parado, travando guerra só com os olhos. Um centímetro mais perto e virava incêndio. Mas ele não encostou. E eu também não.
Ficamos nessa por mais um tempo, até ele dar dois passos pra trás.
– Vai dançar até queimar, Rebeca. Eu tô deixando.
– Eu nasci no fogo, Felipe. Se for pra queimar, eu nem sinto mais.
Ele me lançou o último olhar da noite e sumiu na multidão, com o cigarro de novo na boca.
Mas eu sei.
Ele não foi embora.
Ele tá jogando.
E eu... tô jogando também.