cap 03 uma chama

1210 Words
REBECA Depois daquele papo torto com o veneno, minha cabeça virou zona. Passei o resto do dia com a voz dele martelando no meu ouvido e aquele sorriso sacana grudado na minha memória. E o pior? Eu me peguei sorrindo também, igual uma boba. Como se um cara como ele realmente pudesse querer uma garota como eu. Mas o coração... ah, o coração é burro, né? Naquela noite, deitei na cama, mas o sono não veio. Fiquei encarando o teto do barraco, ouvindo o barulho da chuva no telhado e tentando convencer a mim mesma de que aquilo não significava nada. Que ele só tava zoando. Ou pior: só tava testando até onde eu ia. Mas e se não for zoeira? E se ele realmente tiver me escolhido? No dia seguinte, ele apareceu de novo. Parou do outro lado da rua, me olhou com aquele mesmo olhar que parece arrancar segredos, e deu um aceno com a cabeça. Só isso. Mas foi o suficiente pra meu coração bater mais forte. E aí eu percebi: isso não vai dar certo. É o tipo de problema que tem nome. E o nome é veneno. Minha mãe sempre falou pra eu não me meter com homem de olhar perigoso. "Homem que anda com as mãos nos bolsos e os olhos no mundo é encrenca", ela dizia. E olha só onde eu tô me metendo... Passei o dia tentando focar nas entregas das quentinhas, mas parecia que tudo me lembrava ele. A viela onde ele parou. O carro preto estacionado. Até o cheiro da fumaça no ar. Tudo dele. Como se ele tivesse deixado um pedacinho dele por onde passou. No fim do dia, voltei pra casa com a cabeça cheia. Tomei banho, botei uma blusinha velha e fiquei sentada na calçada, olhando a comunidade acender as luzes uma por uma. Lá embaixo, música alta, risada, moto subindo, moto descendo... o morro vivendo. E aí, como se fosse um filme... ele apareceu. Caminhou até meu portão, devagar, como quem já sabia que eu tava esperando. – Tá fazendo o quê aí, Rebeca? – ele perguntou, voz mansa, mas com aquele tom que deixa tudo mais intenso. – Olhando a minha vida passar. – falei, tentando parecer casual, mesmo com o coração disparado. – E se eu te chamasse pra viver um pouco ela comigo? Fiquei muda por um segundo. Pensei em dizer não. Pensei em fechar a janela e virar as costas. Mas não fiz nada disso. Só olhei pra ele e disse: – Cê sabe que eu sou problema, né? Ele sorriu. Aquele sorriso que mexe com tudo. – Melhor ainda. Problema combina com problema. Foi ali que eu soube: tava lascada. Porque ele era o tipo de perigo que a gente corre com gosto. E eu... eu já tinha dado o primeiro passo. (...) Desde aquele dia que ele parou na minha frente no meu portão, não consegui mais pensar direito. É como se o mundo tivesse virado do avesso, e eu estivesse presa no meio de um fogo que não quer apagar. Voltei pra casa andando mais devagar, com o coração batendo na garganta. Cada passo era uma mistura de medo e vontade, uma confusão que eu nem sabia explicar direito. Lá dentro, a casa tava do jeito que sempre tava: pequena, cheia de barulho de vizinhos e cheiro de comida da vizinha. Mas pra mim, tudo parecia diferente, como se o chão tivesse sumido e eu estivesse flutuando. Minha mãe percebeu. Ela sempre percebe. – Rebeca, o que foi que aconteceu? – perguntou, com aquele olhar que mistura preocupação e cansaço. Eu só consegui balançar a cabeça negando, dizendo que não era nada, sem coragem de falar. E não era só sobre o veneno. Era tudo. A vida inteira aqui, o morro que não perdoa, a luta diária pra sobreviver. Mas o que ele fez, mesmo sem falar muito, me atingiu de um jeito que eu não esperava. No dia seguinte, tentei fingir que tava tudo normal. Levantei cedo, arrumei as marmitas, preparei tudo como sempre. Mas toda vez que saía de casa, sentia aquele olhar dele me acompanhando, mesmo quando ele não tava perto. Era como se ele tivesse deixado uma marca invisível na minha pele. Quando passei pela viela, ele apareceu de novo. Dessa vez, não foi um olhar rápido nem um aceno. Ele veio até mim, devagar, com aquele sorriso no canto da boca que é meio tentação, meio aviso. – Você tá diferente. – disse como se fosse o dono da minha vida. – Só tô tentando não pensar em você o tempo todo. – respondi, sem conseguir esconder o rubor na voz. Ele riu, um som baixo, gostoso de ouvir e perigoso ao mesmo tempo. – Não adianta fugir, Rebeca. Eu tô aqui, e você sabe disso. – E eu sabia. Sabia demais. Um dos vapores chamou ele e eu segui meu caminho. E fiquei pensando naquilo o dia inteiro. Como pode alguém aparecer na tua vida e virar tudo de cabeça pra baixo sem nem falar muito? Como pode um olhar te queimar por dentro e deixar você perdida? A verdade é que eu tava cansada de ser só mais uma. No morro, a gente aprende cedo que é preciso ser invisível pra não se machucar. Mas ele... ele me viu. E isso era tanto um presente quanto uma maldição. No trabalho, tentei me concentrar, mas a cabeça só pensava nele. Nos poucos segundos que ficávamos juntos, naquele pouco espaço que ele permitia, parecia que tudo fazia sentido. Era uma mentira doce que eu queria acreditar. Mas eu sabia que o que vinha dali não era fácil. Minha irmã me puxou pra realidade com um sorriso travesso. – Tá toda estranha, hein, Rebeca? Tem um boy novo? – Cala a boca. – respondi, meio sem jeito. Porque não era só um "boy". Era o veneno. O perigo em pessoa. O morro inteiro sabe o que ele é capaz. E eu tava me metendo numa encrenca que podia me queimar por dentro. Mas a verdade é que o fogo dele já tinha começado a arder. E não tinha jeito de apagar. À noite, sentei na varanda da nossa casa, olhando as luzes do Vidigal piscando lá embaixo. O barulho da comunidade era música e caos ao mesmo tempo: risadas, motos, latas batendo, vozes altas. Era a vida acontecendo, do jeito que sempre foi. Foi aí que ouvi passos lentos. Ele tava lá de novo, parado no meu portão com aquele olhar que não me deixava mentir pra mim mesma. E sem eu falar nada, ele disse: – Eu não sou fácil, Rebeca. Não sou o cara pra qualquer uma. – falou, com uma voz baixa que parecia sussurrar segredos. – Eu sei. – respondi, encarando ele, sem medo. – Mas, mesmo assim, você tá aqui. E eu também. E eu não quero ir embora. Ficamos ali, no silêncio cheio de coisas não ditas, olhando um pro outro como se fosse a última vez. Eu sabia que tava me jogando num mar de riscos, mas também sabia que aquela faísca era o que eu precisava pra sair do lugar. No fundo, a gente já tava preso nessa chama que não se apaga. E nem queria apagar.
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